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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que invejas. Sabe o que diz, diz o que sabe. Ouve-se, olha-se, atenta-se. Que inveja.
Mas não lhe queres mal, não consegues, aquela pessoa é uma boa pessoa...

quinta-feira, 22 de março de 2012

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que passa na rua e olha para ti, que estás aí especada e indefesa. Aparentemente aquela pessoa não quer nada do teu espaço mas depois de te olhar nos olhos, de ver a tua figura estática, imita-te e trava bruscamente os passos como se o simples facto de te ver lhe tivesse lançado ao cérebro um lembrete sonoro: quero comprar cânfora, quero comprar cânfora, quero comprar cânfora!
Aquela pessoa é estranha, tem o cabelo revolto e um ar lunático, tu não queres nada daquela pessoa, não queres olhar nem falar com ela, tens medo. Mas aquela pessoa quer-te pedir a cânfora porque viu os teus olhos e esses estavam a olhar para essa pessoa que quer cânfora mas não se lembrou de tal enquanto não te viu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que vês dentro da sua própria casa. No quarto, sentada na cama, vendo TV. Imóvel. Vê-se da rua numa janela rente ao chão, mora numa cave. Em dias menos frios apoia-se na pequena janela e entretém-se a ver passar os pés das pessoas junto à sua cara pálida. Tu cumprimenta-la, impreterivelmente. Ela analisa-te os pés e as passadas enquanto responde ao cumprimento, impreterivelmente, por sua vez.
À luz da televisão, da cara vê-se apenas uns contornos, no sítio dos olhos dois buracos negros e a boca é uma linha fina e transparente. O conjunto tem uma expressão tão séria e tão ruim que se torna grotesca. A mulher mete medo ao susto. Ao susto e a ti... É a comunista, é como ouves chamarem-lhe. Não sabes se é comunista mas sabes que aquela pessoa parece uma bruxa fantasmagórica. Parece e é bem capaz de ser.
Um dia esta bruxa aparecerá morta, deitada na cama. Imóvel. A televisão acesa incidirá as suas luzes numa parede branca. Branca como a pele da comuna. A bruxa. O fantasma, aí sim.
É ruim, a bicha, mas tu vais lembrar-te dela. Quanto mais não seja, num dia em que caias neste blogue e tropeces neste post.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que te a d o r a.
A mulher diz que tu és muito bonita. A mulher diz que tu és muito jeitosa. A mulher diz que tu te arranjas muito bem. A mulher espanta-se por seres tu a fazeres as tuas roupinhas e depois disso não se poupa a elogios.
Sai da cozinha só para te cumprimentar, dá-te beijinhos, abracinhos, afagos carinhosos... E cozinha que é um espectáculo!
Gina Maria, deixa-te de merdas e aproveita, pá! Para que interessa se são mentiras? É tão fácil acreditar em mentiras boas… Vá lá, vá!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aquela pessoa

Lisboa - Calçada da Glória, 28 de Outubro de 2010

Há aquela pessoa que gosta à brava de ti. Ao sério, o homem curte-te que se farta. Digo que se farta mas não é que esteja farto de ti, não senhor, isso não. Tu também o curtes, assim mais ou menos da mesma maneira que ele te curte a ti. É recíproco.
Ora bem... Ainda não escrevi nada de jeito...
Eu vou contar aquilo que vi, vocês vinham os dois descendo a Calçada da Glória em Lisboa. Aquele trilho do elevador/eléctrico que sobe e desce de hora a hora, ou lá que é. Vinham praticamente aos rebolões pelo inclinado que é, a calçada cheia de pedras soltas nuns lados e noutros sem elas, formando altos e biaxos imprevisíveis.
Os saltos altos estavam a fazer-te sofrer horrivelmente, já havia bolhas nos pés e calos latejantes. Estavas inclinada por causa dos saltos, ainda por cima a calçada é íngreme que se farta! Aqui é que farta, olaré!
Ele pegou-te ao colo e desceu contigo às cavalitas... E tu sentiste-te tão leve, tão menina, tão segura, tão... tão... Foi tão bom! Ai ai...

sábado, 30 de outubro de 2010

Aquela pessoa

'Aquela pessoa' começou por ser uma ideia em que escreverias de maneira diferente, falarias para alguém: para ti própria. Mas não querias nada que se notasse que é contigo que falas, antes que parecesse o envio de recados a uma outra pessoa. Querias também escrever de outra forma, arranjar um estilo diferente, para que não soasse sempre no mesmo tom tudo aquilo que escreves.
Entretanto a ideia deixou de ter razão. De repente pareceu-te muito restritivo, escrevendo a fingir que finges, abandonarias uma catrefa de ideias interessantes. Não ias poder escrever dos clientes, do passeio diário em que percorres as ruas de Lisboa, das lojas e de outras pessoas em geral. Ia-se logo perceber que és tu a escrever e que te diriges a ti mesma.
Tu és tu; és o que és; fazes o que fazes. Se não mostrares isso neste tema resta-te pouco. Já percebeste, ?

Já percebi, sim.


Adenda

Vê se escreves de pessoas que não te enervem. Vê se escreves das coisas positivas que as pessoas com quem lidas te demonstram, ok?

Sim, sim.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que te cumprimenta sempre. Ah pois, não penses que te escapas, ela vai falar contigo, pá!
Ela pensa que a saudação transmite uma educação esmerada e uma espécie de lealdade. Mas não. Tu já mancaste a coisa ao tempo! Ela não gosta de ti. Não te curte. Despreza-te até. Diz-te o clássico 'como está a senhora, está bem?' e acrescenta em remate 'fico contente' sem que a expressão revele simpatia, quanto mais contentamento.
A mulher parece um bicho prestes a atacar, tem um olhar gélido, um olhar de quem é capaz de te esganar. Mas não pode... E como não pode olha-te daquela maneira, é o que lhe resta.
Mas tu até gostas disto, estas coisas dos ódios e assim são porreiras, fazem-te sentir viva e estranhamente importante.
Já decidiste: a próxima vez que vires aquela dama - cabeluda, velha e mais feia que uma bota da tropa - no meio da avenida e te perguntar 'como está a senhora, está bem?' com aquele ar desconchavado, tu vais fazer igualzinho ao que fizeste com aquela do sorriso amarelo, pagarás na mesma moeda.
Depois contas-me como correu e eu escrevo, está bem?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aquela pessoa

Há aquela pessoa que te vê ao longe e põe-se a fazer psst! menina! Tu ouves aquilo e faz-te impressão. A pessoa repete psst! menina! Que insistente, pensas tu. Instintivamente reages, não aguentas mais e olhas naquela direcção. Reconheces imediatamente a pessoa. Ah... pois é, já devias saber que era ele. Arrepia-se-te a nuca ao pensar que aquilo é contigo, levantas os ombros em sinal de tensão e fazes esgares todos contorcidos, tal é o incómodo. O homem é maluquinho e está-se a meter contigo só para te acenar com a mão. Tu tens a mania de ser simpática lá no tasco, ficas atrás do balcão a dar atenção, achas piada a todas as pessoas e depois olha... é isto! Aguenta-te!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Aquela pessoa


Há aquela mulher do sorriso amarelo. Tu faz-te impressão a mulher, enerva-te ela não usar a voz para te cumprimentar, apenas sorri levemente e numa cor amarela doentia.
Um dia tiveste uma ideia. O amor com amor se paga, não é? Pois bem, todos os outros sentimentos se pagam na mesma moeda. Tu também lhe vais mostrar um sorriso amarelo e não abres a boca a ver o que dá. E... na mouche! Bem hajas, minha depravada! No primeiro sorriso nada de nada. No segundo um leve ar de espanto pela ousadia. Depois... Depois já nem te lembras, o que interessa é que valeu a pena ver a diferença entre o sorriso amarelo e o leve ar de espanto. Muito a pena mesmo.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Aquela pessoa


Há aquela mulher que foi à baixa e veio de metro para cima. Viajas frente a frente com ela e olha-la com curiosidade. Tem pousado no colo sacos de grandes casas, de lojas antigas. Lojas do tempo em que se chamava casas às grandes lojas. Nos sacos estão impressas as datas 1860 e 1923. Hum, casas muito antigas, sim...
O ar compenetrado que ela apresenta é o de uma mulher que quer ser uma senhora, olha para o chão com altivez. Olhar para o chão com altivez é um contra-senso porque olhar para o chão revela timidez, pensas. Tu achas que cada mulher é uma senhora e vice-versa, não compreendes este querer parecer. Já doutros quereres entendes tu.
«Din-don» soa a coluna de som do metro chamando à razão quem quiser sair na «Próxima Estação». A mulher/senhora/mulher levanta-se debaixo do mesmo olhar altivo, agora fita o vazio em frente. É que se aquela mulher/senhora/mulher não quer ir de encontro às coisas e arranjar nódoas negras é melhor levantar a cabeça, ao menos.
Saíu. Oh que pena, nada mais há de interessante para veres.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aquela pessoa


Há aquela senhora com um ar incrivelmente hispânico, de andaluza, vá, que assim de repente parece-te que só lhe falta as castanholas que os folharecos já existem em certos dias. Outros dirão que é cigana mas tu acha-la andaluza e pronto.
Gostavas de ser como ela. Até podia ser com essa cara, esses olhos, esse corpo. Mas ser como ela, que passeia sem pressa, passeia de cabeça erguida. Tu não, tu olhas para o chão. Não tens vergonha das pessoas, tens é vergonha de ti.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Aquela pessoa


Há aquele homem que vende antiguidades. Sim, o mesmo que foi falado no post anterior desta nova leva de posts que criei.
O homem lava o chão da loja a um quarto para as três da tarde e tu mira-lo da montra. Ficas ali tanto tempo a ver os galos que os esqueces por momentos para ver o homem trabalhar. A esfregona deixou de o ser e não há balde. A esfregona deixou de ser esfregona porque não tem cabelagem, ou porque se gastou com os anos, ou porque o homem a cortou rente ficando um coto com que ele esfrega o chão lentamente, cantinho a cantinho. Depois refastela-se na cadeira, cansado de esfregar. E nos minutos que se seguem passa pelas brasas.
O homem é velho e tem a loja à venda. De uma maneira ou de outra, irás deixar de o ver em breve.


terça-feira, 11 de maio de 2010

Aquela pessoa


Há aquele homem que vende antiguidades. Na montra tem galos de Barcelos com campainha, daqueles de chamar a criada.
Há muito tempo que tu queres um galo de Barcelos, e uma criada também já agora, mas concentras-te no galo e ficas ali a vê-lo como se isso fizesse com que o galo te viesse parar às mãos. Há umas ondas positivas que fazem as coisas acontecer, ouviste dizer... Mas chateias-te e deixas de pensar nisso. Se queres o galo é comprá-lo! Sem criada, claro.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Aquela pessoa


Há aquele homem que está dentro de um quiosque a vender gelados. O quiosque ostenta imagens de como era aquela zona lisboeta nos anos 60 e tu abrandas o passo para ver melhor. Curiosa, quase páras. Depois ouves o homem fazer psst mas tu continuas o teu caminho. A seguir cresce-te uma vontade de voltar atrás e perguntar 'Olhe, tem gelados?'. Mal ele respondesse que 'Sim' tu dizias-lhe 'Obrigada, era só para saber'.