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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tenho um amigo...
(e)
A minha historinha
(à mistura)

Tenho um amigo que me perguntou se estou nervosa por causa do lançamento do livro. Levei tempo a responder.
Eh pá... Um bocadinho. Muito ansiosa, talvez. Bastante, mesmo.
Este meu amigo continuou no tema.
Vais discursar?
Não, ou pelo menos penso que não.
Então, se tivesses de discursar é que tinhas de estar nervosa!
Diz este meu amigo, como se eu não tivesse nada que estar preocupada com o evento, que aquilo não tem segredo nenhum, que é isso de estar nervosa, ora essa, não estejas, vai correr bem, vais ver.

Vou ver, vou. Eu ia lá deixar escapar uma oportunidade destas?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tenho um amigo...

Tenho um amigo que é meu amigo, avisa-me dos perigos.
'Ó Gina, amanha aí o espelho que daqui vejo-te e mexer nas notas.'
Pensei que ele ia dizer que estava a ver o ecrã do computador e a ler o que eu estava a escrever e afinal... Ainda lhe disse isso mesmo mas ele não se entusiasmou nada.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tenho um amigo...

Tenho um amigo que diz achar muito estranho as pessoas dizerem que são amigas desta ou daquela iguaria gastronómica, que se fôssemos amigos da comida não a comeríamos, uma vez que não comemos os amigos. A mulher deste amigo – também minha amiga – ouvindo esta conversa vira-se para ele e diz:
– Olha lá, eu sou tua amiga e tu comes-me!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Tenho um amigo...

Tenho um amigo que não lhe interessa saber coisinhas. Viu no youtube umas cenas muita giras com... Faz o gesto de quem toca violoncelo. Eu, esta criatura amorosa, ajudei-o: 'violoncelo'. Ele volta de lá com um: 'não sei como se chama' e toca de fazer o gesto. Eu repito: 'violoncelo'. E ele tumba, na mesma tecla: 'não sei como se chama'.

Ele não quer saber. Quando digo saber, é de conhecimento. Podia aprender comigo. Sim, eu mesma, este colosso de virtudes em forma humana. Mas absolutamente despretensiosa.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tenho amigos...

Tenho amigos que nem sempre são meus amigos. Tenho inimigos. Sou uma pessoa na qual a bitola da normalidade – conquanto exista essa tal de normalidade - encaixa perfeitamente.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Tenho um amigo...

Tenho um amigo que se mostrou admirado quando percebeu que eu não reparara em determinado facto, uma vez que reparo e vejo 'tudo'. Respondi-lhe cheia do meu saber:
«Sei que sou uma pessoa muito observadora mas não dou conta de tudo o que me rodeia, sempre há pormenores que me escapam. E ainda bem que é assim, adoro surpresas, é devido a essas surpresas que tenho histórias para escrever. E agora venha de lá o Lobo Antunes ou algum dos seus contemporâneos, ou ainda o defunto Pessoa ou mesmo o ancestral Camões dizerem que não é assim!»

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Tenho uma amiga...

Tenho uma amiga que não gosta dum amigo meu. É ríspida e lacónica aquando dos raros contactos. Ou seja: às vezes têm de comunicar, não há como contornar.
O meu amigo fica ligeiramente apreensivo e/ou surpreendido com a atitude da minha amiga mas supera sem queixas.
No meio de tudo isto, o que tem mais piada é o facto de ela terminar algumas frases com um 'amigo' quando se dirige a ele. Por exemplo: 'Esse trabalho fica-lhe em xis euros, amigo...'
Somos todos amigos, afinal. É giro. Eu cá acho.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tenho uma amiga que...

Tenho uma amiga que não sabe escrever. Diz que esteve com um homem cheiroso, que bebeu café com ele e conversaram um bocadinho. Mas bem-cheiroso, disse ela, que cheiroso pode ser dum cheiro mau.
Não sei se ensine esta minha amiga a escrever ou me deixe estar sossegadinha...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tenho uma amiga...

Tenho uma amiga feia. Tem um corpo estrondosamente bem proporcionado. Mas é feia. As pernas são longas, os seios redondos, as curvas equilibradas, as linhas perfeitas. Mas feia, uma cara horrível. De bruxa, ou assim. Bruxa má, claro.
Tenho amigos que dizem, brincando entre si: 'Então, quando a gente a foder pomos-lhe uma almofada em cima da tromba!'
Eles não gostam nada de gajas feias. Tenho um amigo que diz: 'Eh pá, um gajo estar a conversar com uma gaja e a cara não agrada... É fodido!'

(Mas esta é tão boa...)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Tenho um amigo...

Tenho um amigo preocupado com um ato puro e simples: mamar. Vira-se para mim e pergunta ingenuamente se as mulheres que têm silicone nas mamas podem dar de mamar. Respondo: 'não sei; não tenho silicone.'
Este amigo fica acabrunhado e um tudo-nada vermelho, baixa a cabeça em sinal de grande embaraço. Riposto sem pudor: 'mas afinal que resposta é que tu querias?!'

sexta-feira, 30 de março de 2012

Tenho uma amiga...

Tenho uma amiga que gosta de bolos redondos e pede ao homem da cafetaria que lhe avie um desses gordos.
Esta amiga agarrou no bolo e sentou-se confortavelmente, encostou as costas à cadeira, esticou o peito e estendeu as pernas. Eu bem vi.
Trincou, mastigou, saboreou. Deleitosamente. Com a boca toda, usando todos os sentidos, como estes se querem usados. Não tirava os olhos do homem da cafetaria que, absorto pelo trabalho, limpava os talheres. Eu bem vi.
Mantinha o corpo quieto e estendido achando que essa quietude lhe dava uma graça felina, mantinha o olhar no homem distraído como se ele fosse interessante para observar. Mantenças intuitivas, transformá-la-iam numa figura sensual, seguramente. Eu bem vi.
Num pequeno descuido um pinhão dos que cobria o bolo rolou por ali abaixo aterrando na curva do interior das coxas juntas. Agarrou no pinhão e meteu-o na boca, fitando o vácuo imaterial, cheia de mistério sedutor. Eu bem vi.
E o homem retirando bolhinhas d' água dos talheres com um paninho maculado e húmido, a cara séria, o pensamento ausente. Ela trincando o pinhão prazerosamente com os dentes da frente. Ele retirando os talheres molhados dum tabuleiro, passando o pano com minúcia, colocando os talheres secos noutro tabuleiro, como quando a gente automatiza um pequeno e incontornável gesto e lhe suga um prazer imaginário, antes que a vida desmorone e tenhamos de fugir. Eu bem vi, que eu bem via o homem, também ele.
Nisto, outro pinhão rola, aterrando na união das coxas unidas, por modo a coar pinhões rolantes, quiçá. Mas desta feita o fruto minúsculo estacou ligeiramente mais acima. Hum, que casualidade fantástica. Eu bem vi.