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terça-feira, 26 de junho de 2012

Inquérito doutros tempos e doutras vontades

Quando eu tinha uns onze ou doze anos e se findou o ano letivo, houve na escola um inquérito entre as raparigas que andou de mão em mão. Tratava-se de umas perguntinhas cujo único sentido era ficarem as respostas para a posteridade nas mãos da perguntadora, tudo em forma escrita. Apesar da pouca idade, uma das perguntas estava relacionada com sexo que eu bem me lembro (para ser sincera é a única de que me lembro), a perguntadora queria saber se eu achava o sexo bom. Respondi com todas as letras:

«Não sei, nunca fiz. Mas deve ser, pois até os bichinhos gostam!»

Portanto, caros leitores, afinal há um certo arrojo e um tudo-nada de criatividade que já vêm de longe, muito embora eu sempre tenha pensado que nem por isso...
Ah, para que conste: a frase 'até os bichinhos gostam' não é da minha autoria, tinha-a ouvido algures, captei-a e fixei-a por a achar muito engraçada.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Basquetebol

Por um motivo que não recordo lá muito bem, acho que foi ao visionar um filme qualquer, lembrei-me da grande contrariedade que sentia sempre que tinha de jogar basquetebol na escola. Mas que grande aborrecimento! A bola vinha na minha direção e eu sem saber a quem a passar! Ó mê guê! Nunca entendi regras nem fixei costumes, limitava-me a imitar os outros, de onde ainda assim se denota alguma inteligência, 'se não os podes vencer junta-te a eles'.
Nunca gostei de jogos de espécie nenhuma, nem com pés, nem com mãos, nem com cabeça. Nada. Bah!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

'Palmar um rajá'

Está muito calor, o que não me transtorna, convictamente o digo. Apetece comer gelados e beber líquidos frescos. Quando eu era criança, em dias destes, lembro-me que a minha mãe gostava de palmar um rajá. Era assim que ela dizia.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fado ou Poesia

Um dia deu na radio a Lenita Gentil cantando 'Preciso de espaço'. O meu pai comentou a poesia, achou interessante o poema referir a necessidade de haver espaço para a raiz crescer saudável. Perguntou-me se eu sabia o que aquilo queria dizer, respondi afirmativamente e expliquei com o parco vocabulário que possuía que uma raiz não tendo espaço para crescer atrofiaria, o mesmo acontecendo com as pessoas, a gente precisa de espaço para viver.
(Era uma metáfora, portanto. É poesia.)
À época eu não tinha mais de treze ou catorze anos, no entanto possuía maturidade suficiente para perceber a frase dum poema, afinal não era assim tão infantil...



PRECISO DE ESPAÇO

Preciso de espaço
Para ser feliz
Preciso de espaço
Para ser raiz

Ter a rede pronta
Para o mar de sempre
Ter aves e sonho
Quando a terra escuta
E falar de amor
Aos tambores da luta

Ter palavras certas no sol do caminho
E beber a rir o doirado vinho
Misturar a vida, misturar o vento
E nas madrugadas
Quando o povo abraço
Para estar contigo, preciso de espaço
Preciso de espaço
Para ser feliz
Preciso de espaço
Para ser raiz

Caminhar sem ódio
Falar sem mentira
Ter meus olhos longe
Na luz de uma estrela
E ser como um rio
Que se agita ao vê-la

Ter palavras certas no sol do caminho
E beber a rir o doirado vinho
Misturar a vida, misturar o vento
E nas madrugadas
Quando o povo abraço
Para estar contigo, preciso de espaço

Ter palavras certas no sol do caminho
E beber a rir o doirado vinho
Misturar a vida, misturar o vento
E nas madrugadas
Quando o povo abraço
Para estar contigo, preciso de espaço

Letra retirada deste linque

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A miúda

Eu era uma daquelas miúdas mal-amadas e pouco desejadas. Ficava sempre para última nas escolhas de equipa, no jogo do bate-o-pé ninguém me batia o pé, nas festas do final do ano letivo ninguém queria dançar comigo e raramente me convidavam para algo.
Tenho um certo trauma com essas memórias, a adolescência é uma fase de desmantelamento do imaginário infantil, começamos a ter consciência das injustiças da vida, e ainda nos vemos num corpo mutante e a gente a querer tanto (mas tanto!) ficar como antes. Em suma, é uma fase muito violenta, um verdadeiro calvário.
Tenho o trauma (pequenino, pequenino) mas hoje sei que o facto de não me convidarem para isto ou aquilo seria provavelmente por eu não me dar a ver e a conhecer. Sou adulta, já vivi o que vivi, sei que a porra da reciprocidade também vive e é uma duríssima realidade. Ou me mostro ou me deixo estar caladinha e sossegadinha, recebendo a mesma atitude de volta, que a vida é um bumerangue.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Espiga

Costumo usar frequentemente a frase 'não há espiga', querendo dizer que está tudo bem, não problema, deixe lá isso e tal.
Ora bem, hoje há espiga, hoje é dia da espiga. Vesti-me de amarelo mas não foi por causa da espiga...
Tenho uma memória lá longe: eu passeando pelo campo num dos anos da primária com a minha professora e os meus colegas. Esses passeios aconteceram, só não sei se foi por causa da espiga, se bem que na minha memória está que sim. Ou então apanhei a espiga com a minha mãe, também está na minha memória eu e a minha mãe de volta da espiga por esses campos ao redor da casa saloia onde cresci.
As memórias confundem. Confundem-se entre si e depois confundem-me.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Dias de um ginásio

O professor de Pilates é um querido e um fofo e um amável e um maravilhoso... Ser humano.
O parágrafo acima é uma introdução estupidamente apresentada com o único intuito de distrair. Vamos ao que interessa.

Noutro dia queixei-me das costas ao professor de Pilates. Sendo que o abdómen é o centro de gravidade de todos os exercícios desta modalidade, se os tais não forem executados da melhor maneira as costas sofrerão horrores. Era o que me estava a acontecer. Queixei-me o melhor que soube, que eu nestas lides sou péssima. O professor corrigiu-me e apoiou-me, porque é um profissional exemplar, mas um dos comentários que fez deixou-me perplexa: tenho a coluna retificada.
O quê, senhor professor, a minha coluna é reta?! Não sei, não. A minha mãezinha diz-me desde os meus oito anos, para aí:
'A minha Gina é tal e qual o jeito do meu corpo, faz uma cova nas costas!'
Depois percebi: uma coluna retificada ou reta é uma coluna com a curvatura natural. Assim como eu... Que naturalidade e essas coisas é comigo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A grande viagem

Andávamos nos preparativos para a partida do meu pai em trabalho para a Arábia Saudita. Era Abril de '79 e em minha casa reinava um ambiente tenso e triste. Apesar de naquela altura não passar duma criança, apercebia-me desse ambiente, também eu sentia saudades do meu pai, mesmo antes de ele partir. Ia sentir a sua falta à mesa quando chegasse a hora do jantar, não poderia contar com o seu saber para me esclarecer eventuais dúvidas escolares que surgissem, sabia que a minha mãe e o meu irmão iriam andar calados e deprimidos. Na verdade só a ideia da partida era já um vislumbre desse estado d' alma, só esse vislumbre me entristecia por demais, causando-me uma sensação terrível de impotência, não havia nada que pudesse fazer para minimizar o desconforto emocional que todos sentíamos.
O meu desejo mais íntimo era ir com o meu pai naquela viagem, não queria estar longe da voz, da presença, da segurança que ele me transmitia. E sentia uma curiosidade imensa acerca do sítio para onde ele ia trabalhar: Arábia Saudita. Queria tanto ir... Como seriam as pessoas, os lugares, a língua?
No meio de toda aquela azáfama tive uma ideia, uma vez que não podia viajar com o meu pai, enviaria algo que fizesse a mesma viagem.

1. Fui buscar um saquinho de pano que fizera algures durante as férias de Verão com restos de tecidos da minha mãe.
2. Arranjei uma pedrinha branca algures. No quintal, na pequena horta, na estrada poeirenta, no pátio da escola?

Estes dois itens não sei como se ligaram, ou como formei o pensamento. Mas posteriormente atuei e, ao que parece, foi assim:
Não podia ser uma pedra qualquer, tive o cuidado de escolher uma pedra perfeita, redonda de tão polida. Achei que seria giríssimo depois, quando o meu pai voltasse das arábias, eu ter na mão algo que tivesse estado nesse lugar tão longínquo e igual a coisa nenhuma das que conhecia, por isso inimaginável.
Pus a pedrinha dentro do saco e fui ter com o meu pai. Emocionada, pedi-lhe que levasse o saquinho feito à mão com a pedrinha especial, que o guardasse na mala de viagem. Não foram precisas grandes explicações, ele entendeu imediatamente o meu gesto. Sem desdenhar da minha infantilidade compreendeu que eu queria mandar algo que o fizesse lembrar de mim enquanto estivesse fora, algo que fosse e viesse com ele e que estivesse com ele, onde ele ia estar, assim pareceria que efetivamente eu viajara até às arábias. Ainda hoje recordo a sua expressão calma e ponderada quando me respondeu:
- Está bem, filha. O pai leva e traz este saquinho com a pedrinha. Vou pô-lo aqui dentro da mala, vês? Depois quando eu cá chegar mostro-to.
Hoje sei que não era preciso ter mandado um saquinho na mala de viagem para que o meu pai não me esquecesse enquanto estivesse fora, ele iria estar com a família no pensamento ininterruptamente.
Quando regressou, cinco meses depois, mostrou-me o saquinho com a pedrinha lá dentro. Foi com uma expressão fraternal que me perguntou:
- Lembras-te de me teres dado isto? Toma, está aqui. Foi e veio comigo.
Fiquei completamente maravilhada, a sensação não estava nada longe do que idealizara aquando do pedido. Segurei no saquinho e pensei: " Que giro! Isto esteve tão longe!... Foi e veio... E agora está aqui comigo!..."

O meu pai é sensível, ponderado, observador e inteligente. O meu pai é tudo isso num grau elevado. Quando envelhecer quero ser como ele.

Texto enviado para o blogue Fábrica de Histórias 

segunda-feira, 5 de março de 2012

As Armindas

Há a
Arminda tia e a
Arminda sobrinha.
A Arminda tia tem uma quintinha a norte.
A Arminda sobrinha vai lá passar férias.
A Arminda tia é má que se farta.
A Arminda sobrinha é uma menina desobediente.
A Arminda tia é inflexível.
A Arminda sobrinha fica isolada. Férias?!
A Arminda tia ensina, ralha, castiga.
A Arminda sobrinha não tem emenda.

Há a
Arminda cabeleireira.
Mas essa é doutra história.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Louvores

«Os elogios não se ouvem frequentemente, mordemos a língua sempre que os testificamos.»

Não há muitos elogios na minha infância. Há dois, pelo que recordo. Provêm da dona Elisa, a minha professora primária.

Um dia ela ditou uma frase para escrevermos no caderno. Não recordo grandes pormenores, não tenho presente se seria um ditado ou assim, só sei que a frase continha uma palavra que nenhum dos meninos escrevera até então. 'Ilustra', era a palavra. Foram pouquíssimos os meninos que escreveram corretamente. E já se está a ver que eu fui uma das que... Isso mesmo.
Mas a história não acaba aqui. Apenas apresentei a introdução, falta o cerne.
Sem querer, ouvi a dona Elisa falando com uma colega, comentando elogiosamente o meu desempenho com gestos largos e surpresa no rosto. Desempenho invulgarmente fantástico para a curta instrução, portanto.

Um outro dia, mais tarde, fiz uma redação em que (também duma forma que não recordo grandes pormenores) era preciso falar de botas e de estas ficarem largas.
Introdução exposta. Vamos ao resto.
Idealizei a cena com facilidade, na altura grande parte da população infanto-juvenil destas paragens saloias usava botas de borracha por causa das chuvas e dos rios fartos p'las estradas que desciam da escola até à (então) vila. Havia meninos e meninas a quem as ditas botas ficavam largueironas, fazendo um efeito dançante conforme se moviam. Então escrevi algo como isto: 'as botas dançavam-lhe nas pernas'.
A dona Elisa ficou supercontente com a minha lembrança, que tinha sido muito criativa usando esse exemplo e comentou isto mesmo perante toda a classe, inclusivamente.

Fiquei inchada das duas vezes. Orgulhosa e feliz. Em cima do mundo.
Sei que usei o instinto de escrevente, tanto duma como doutra vez. Sei que esse instinto e esse gosto pelas letras sempre me acompanharam e já vêm dos primórdios do letivo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pintados a vermelho

Isaurinha era uma menina de oito anos. Estava calor, era verão. Isaurinha tirara a camisola fina, estava a suar. Não, não era por estar a suar, Isaurinha tirara a camisola porque queria mostrar as maminhas. Depois agarrou numa caneta de feltro vermelha e pintou os mamilos. Ficaram nítidos. Dramáticos. Isaurinha riu, com aquela malícia que só nas crianças é natural, porque as crianças apenas conhecem os sentimentos de raspão.

Memórias de enfiamentos

Muito me lembrei eu da minha mãe e da dona Vitória*, no feriado! Por causa de não conseguir ver o buraco da agulha...
Ó Gina, anda cá enfiar a agulha à mãe!
Era assim, quando a minha mãe já havia chegado aos 'entas' mas ainda não tinha adquirido os óculos.
Deus te conserve essa vista, Gina! Ai filha, Deus ta conserve...
Era assim que a dona Vitória se me dirigia, caso me houvesse pedido para lhe enfiar a agulha, mesclando o próprio infortúnio com o sincero desejo de que a minha sorte se prolongasse vida afora. Infelizmente, o desejo da dona Vitória não se tem concretizado, não... Para mim, enfiar a agulha, mesmo com óculos, recentes, inclusive, é um tormento.

*Para conhecer melhor a dona Vitória clicar aqui.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Memórias...

… Que trouxe do passado porque andei às voltas com fotografias antigas (ver aqui). Apresento-as por ordem cronológica.



Avó Chica

A avó Chica aparece duas vezes nas minhas fotos. Na verdade tenho-as porque um dia vi a lata onde a minha mãe guarda as fotografias de toda a vida, pedi-lhas e ela concedeu-mas.
Sei onde foi captada esta imagem da minha avó, foi na rua onde morava e onde hoje moram os meus pais. As circunstâncias desconheço-as por completo.



Gina na Costa de Caparica

Aqui sou eu na praia quando tinha sete anos, para aí. Os leitores rejubilem, caso lhes apeteça, por me verem na praia, encharcada até aos ossos e em fato de banho...



A avó Aurélia

Cá está a minha avó Aurélia. Aqui posava, claramente, ladeada pelas minhas tias e irmão (que não aparecem porque eu cortei a imagem).
Esta fotografia foi tirada por mim, se bem me lembro, na altura eu devia ter uns 11 anos, ainda percebia menos de captação de imagens do que hoje, por isso a minha avó ficou cortada ao meio, o que lamento deveras. É a única imagem que tenho dela, ainda por cima só aparece metade...



Gina + Beta

Eu e a minha amiga de infância, a amiga mais importante e a de que tenho mais recordações. No entanto, ela não aparece, não a vejo há q' anos e não me apeteceu procurá-la para lhe pedir licença para usar a sua imagem na blogosfera. Estamos abraçadas porque éramos amigas e gostávamos imenso uma da outra. Posso acrescentar que o vestido dela era igual ao meu e foi a minha mãe que os fez.


Gina na Ericeira

18 anos. Se calhar até nem sabia que era gira. Mas era...
Não há como retirar a senhora lá de trás sem me cortar a mim também. Portanto, senhora que está lá atrás e que já apareceu neste blogue uma vez ou duas, tenha lá paciência, sim? Ficamos aqui as duas, vá.


Ricos filhos

Estávamos em pinturas cá em casa. O Luís sempre teve muito jeito para pôr as crianças a mexer em coisas que não devem... A ideia foi dele, as fotos são minhas, creio.




Londres, St James Park

Fui a Londres há sensivelmente 7 anos (2005). Era Carnaval, como agora. Adorei a cidade sob vários aspetos. Mas o que mais adorei foi sem dúvida este parque. É imenso, verde, fresco... E lindo!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Torcer o pipo

Não sou violenta mas a vontade de torcer o pipo a alguém por vezes faz-se sentir. Por causa desta intensa vontade de torcer os pipos das pessoas que me enervam, lembrei-me do meu pai. O meu pai torcia o pipo aos pombos, que eu bem me lembro. Mas não que os bichos o enervassem. Acontecia quando eles começavam a ser mais que muitos e a despesa se tornava incomportável ou então porque o pombal estava a ficar demasiado apertado.
Comíamo-los fritos em azeite, cebola, alho, uma folhinha de louro, refrescando com um pouco de vinho e acrecentando depois de tudo bem cozinhado um ovo ou dois. Era bom. A carne era escura e densa mas muito gostosa.
Mas vamos à torcedela de pipo. Eu não suportava ver o meu pai extinguindo a vida dos bichinhos, ver toda a cena afligia-me. Mas conheci bem todo o aparato. Lembro-me de vê-lo de costas, os braços tensos, as mãos torcendo o pescoço, pressionando a veia jugular. Eu já só via os cadáveres em cima do muro, cabeças pendendo, olhos semi-fechados, o corpo inerte. Ali por perto já havia um alguidar. Depois era escaldar, depenar, amanhar. Nestas tarefas já eu ajudava um pouco. Gostava particularmente daquela parte em que o meu pai limpava as vísceras, ver a moela ser cortada e sairem de lá pedaços muito miúdos, mesmo desfeitos, de milho e outros cereais. Depois era a vez de a minha mãe tratar do resto, como já referi acima.
O leitor não pense que me fazia impressão comer pombinhos, imaginando-os queriditos e fofinhos como se fossem bebés amorosos e com essa visão alguma tristeza me assolava a cabecita. Não. Afinal de contas eu ajudava (ou vigiava atentamente) na limpeza e preparação destas aves. Comia e pronto. Protegida pela lei da vida, talvez... A ordem natural das coisas, quiçá... Mas não me vejo a torcer pipos, lá isso não.

Com ou sem agá

Por causa da Hema lembrei-me da Ema.

Ema tinha sobrenome de erva aromática. Fazia queijos frescos e vendia-os para fora.
De resto, mais nada.
Só se disser que Ema punha os queijos a secar no muro do quintal e o meu segundo cão, o Dick, os comia.
Só se disser que o Dick, esse animal inquieto, lhe entrava quintal adentro e espantava e retraçava as galinhas.
Só se disser que não estou certa quanto à história das galinhas.
Só se disser que Ema, como forma de protesto e vingança, envenenou o bicho.
Só se disser que houve um zunzum enorme na pequena localidade quando se pensou que um dos descendentes de Ema era paneleiro.
Só se disser que se calhar não era o filho de Ema, era outro filho qualquer.
Só se disser que Ema tinha um sinal na cara.
Só se disser que não sei muito bem se era Ema que tinha um sinal na cara ou seria outra vizinha qualquer.

Há pessoas pouco avivadas nas minhas memórias infantis.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Recadinho



O primeiro recado que fiz à minha mãe foi para comprar dois peros encarnados e duas carcaças. Tinha seis anos.
– Agora a minha filha vai ao senhor Horácio e diz: quero dois peros encarnados e duas carcaças. Olha, escuta lá... Cuidado com os carros! A minha filha vai sempre rentinho ao passeio, sempre rentinho ao passeio.
E eu fui, toda importante, já sabia fazer recados. Sempre rentinho ao passeio, sempre rentinho ao passeio. O trajeto não carecia de travessias de estrada, calhando foi por isso que a minha mãe me mandou fazer um recado tão jovem ainda.
Chegada à mercearia entrei pela primeira porta (naquele tempo a mercearia tinha duas entradas), a porta que tinha o expositor com os peros encarnados e outras frutas, se bem me lembro. Fiz o meu pedido e fui cordialmente atendida, que o senhor Horácio, a bem da verdade, sempre foi um merceeiro educado.
Da transação monetária é que não tenho qualquer memória, mas o mais certo é ter ficado assente na conta corrente...

A imagem não corresponde ao texto em termos de cores mas é o que se arranja...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Post para um leitor específico

Se te chamas Humberto, frequentaste a antiga e extinta Escola Preparatória Carolina Micaëlis, em Loures, no ano letivo 1980/1981 e moravas nas Salemas nessa altura, então este post é para ti.
Gostava de rever-te. Eras um rapaz simpático e bastante diferente dos demais, não curtias nada jogar futebol, andavas sempre com as meninas. Os parvalhões chamavam-te maricas mas quem andava com as gajas eras tu...
A gente os dois fartávamo-nos de falar, não lembro acerca de quê, mas é a tua atitude o que guardo na memória. Eu para falar já se sabe, é preciso puxar-me a língua, ou assim, mas contigo era fácil. Não me chamavas nomes, não ficavas à espera que eu jogasse bem à bola, porque tu também não jogavas, ou fosse boa aluna, porque tu também não eras. O não se estar expetante perante a minha pessoa é-me profundamente aprazível. Gostava mesmo de rever-te. Se leres este post, já sabes, diz qualquer coisa. Eu agora sou um tudo-nada mais comunicativa mas não é nada que não se aguente.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Uma figura da minha infância

Havia certos aviamentos que a minha mãe não ia à rua comprar, esperava pelo barateiro, o homem da carripana carregada com elásticos, botões, fechos, agulhas, linhas e talvez outros artigos que não recordo. Chegava ao beco e apitava como que avisando da presença, talvez, também não recordo. A minha mãe aparecia e cumprimentavam-se com um aperto de mão e diziam 'a paz do Senhor'. A mim também me era dirigido um cumprimento natural de pessoa adulta para criança, em calhando dizia-me que eu estava mais crescida desde a última vez. E eu ficava a mirar e remirar todo o conteúdo da carripana, aquele homem era um adulto que me deixava descontraída.
O irmão Barata era crente evangélico e a minha mãe havia sido em tempos, o cumprimento habitual continuava, não sei porquê. Depois da compra e venda efetuadas, ficavam um bocadinho a conversar das coisas de Deus, lembro-me de uma espécie de admoestação, simples e sem condenações de espécie nenhuma, da admiração que a minha mãe sentia em relação a este senhor calmo e sereno, detentor de uma expressão facial muito apaziguada, como se nenhuma tempestade fosse forte o suficiente para o abalar. Há pessoas assim, felizmente.
Houve uma altura em que íamos a casa deste irmão, a minha mãe sempre foi aquele género de pessoa visitante, cria saudades facilmente, gosta de rever.
Numa das paredes da casa havia um calendário daqueles que se arranca a folhinha diariamente contendo um pequeno versículo bíblico e um breve desenvolvimento. O primeiro sítio onde o meu olhar pousava era nesse calendário, nunca o encontrei fora da data corrente...
Uma coisa que nunca percebi: a minha mãe chamava-lhe barateiro por causa do nome Barata, ou seria ao contrário?

Fuçasbuque

Recebi um convite de amizade (acho que é assim que se diz...) no Fuçasbuque duma tal Paula. Lembrei uma antiga colega de escola, porque o nome coincidia, e fui cuscar o perfil da moça. Era ela. Aceitei, claro, é mais uma...
Entretanto chegaram as recordações.

Ficámos logo muito amigas no primeiro dia de escola, duas tímidas juntas é o que dá. Aprofundámos a amizade tanto quanto a pouca idade nos permitia. Fazíamos e dizíamos as parvoíces juntas. Dávamo-nos bem. Quero dizer, eu cá achava que sim.
Uma das parvoíces que a gente fazia era ir ao WC do Centro de Saúde que na altura funcionava num sítio diferente de agora. Íamos fazer chichi... Não sei mas acho que não. Íamos gastar papel e puxar o autoclismo, para aí... Um dia, ao descer as escadas, confessei-lhe a paixão assolapada que tinha pelos olhos verdes mais belos que eu já havia visto na minha curta vida. Pedi-lhe muito que não dissesse a ninguém, era um grande segredo, para mim seria tenebroso que alguém, principalmente ele, soubesse disto.

…

No dia seguinte a turma inteira sabia a minha vida em termos de paixões...
Uns tempos depois a amizade esfriou em muito, não tenho exatidão dos factos na memória mas às tantas teve a ver com o segredo revelado à traição. Nunca tive jeito para manter as pessoas por perto...

Nota: a imagem é o lembrete que escrevi à pressa num papelinho, a ver se não me esquecia de escrever este post.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mergulho

O senhor engenheiro é um homem já velho. Às cinco e meia da tarde está à mesa da pastelaria, frente a uma chávena cheia de café preto. Olha o líquido com gula. Vontade. A chávena inerte, o líquido oscilante. Grande chamariz. É então que ele mergulha a sandes de fiambre naquela profundeza escura. A sandes é elevada cheia de café, acastanhou e ganhou peso, tornou-se numa massa pastosa que é introduzida sem qualquer pejo na cavidade bucal do dito senhor. Do senhor engenheiro, esse homem já velho.

O meu pai punha (suponho que ainda põe) um pouco de vinagre no caldo verde, bem como em algumas sopas. Este estranho e particular gosto sempre me fez alguma impressão. Até hoje. O senhor engenheiro já se superou em estranheza aos meus olhos.