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sábado, 21 de junho de 2008

Houve alguém que descreveu a Gina

1. PREÂMBULO

Porque penso já conhecer alguns dos traços psicológicos da Gina, deixo aqui as palavras que ela poderia escrever mas que provavelmente o não faria.
Não faço uma análise ao blog (já disse que o que mais me espanta é a estética da escrita), por isso transcrevo em palavras minhas numa hipotética descrição da Gina, aquilo que penso ser um dia na vida da blogger.
Se o que escrevo de qualquer forma se aproximar da realidade fico satisfeito (a minha observação das pessoas e do meio onde se movimentam consegue ainda descodificar a previsibilidade das suas acções e reacções).
Convenhamos que meio século de vivência, no mínimo dão-nos alguma experiência...



NAS LETRAS DE UM TECLADO AS PALAVRAS QUE NUNCA ESCREVERIA...OU TALVEZ SIM

Mais uma vez é segunda feira.
Mais um dia de trabalho.
Que merda - Oh Luís; merda posso escrever não posso?
(é este anátema pseudo-religioso que me censura o vocabulário)
Como estes dias se tornam repetitivos (os mesmos 1440 minutos dia após dia).

A fila de transito estende-se pela A8. É o túnel do Grilo que lentamente vai engolindo os automóveis.
- Alimenta-se bem este grilo!!!

Será que é hoje que vem o banco de banheira?

Sem café, isto hoje não vai lá:
- Olhe faz favor... é um bolo partido ao meio. - Luís queres café? – E é um café em 2 chávenas...

- Então são as molas de roupa e o pó para as pulgas? - São --- euros (percebi que as molas de roupa foram o pretexto para ganhar coragem na petição do pó).

Será que o banco de banheira está a chegar?

- Oh Gina escreve aí no livro de faltas as tintas para o cabelo!
(Nem sei porque se chama livro de faltas a umas folhas de papel “reciclado”, manualmente formatado num ziguezagueado A5 e presas por um grampo de mola...).

· - Bom dia D. Gina; bom dia Sr. Joaquim.
- Bom dia “sou” Bento. – Ai!!! ... o meu pulso.
(A mania que este sujeito tem de nos cumprimentar apertando vigorosamente a mão enquanto nos fixa nos olhos)
- Trouxe-me as “coisas” todas?
(reparo que veste a camisa de cor igual ao meu verniz e nos pés traz os sapatos da “viúva”)
- Tudo menos o banco de banheira.
- Então a fábrica faliu? (já está pedido há mais de 3 meses).

. Vou ao armazém buscar lixívia (antes passo pelo 13B para dar um beijinho no Luís).

- Então Bento ... hoje comemos cá?!
- Eu como onde quiser...; respondeu-me.
Não decifrei se o sorriso malicioso com que o disse foi genuíno, ou é esta minha fixação de que por defeito genético todos os homens pensam de baixo para cima.

- Ai que fome que eu tenho!!!!
Gritei para o empregado do restaurante onde costumo almoçar, ao mesmo tempo que ocupo o meu lugar na mesa, como habitualmente de frente para a rua.
Não sei se é mesmo fome ou esta minha incessante vontade de rapidamente sair para o meu “passeio diário de desintoxicação mental”.

Já me não recordo se as montras que olhei tinham sido redecoradas.
Mas continuam lá...

O cliente pediu e o patrão endereçou-me a pergunta:
- O banco de banheira já chegou?
- Não. Continua pedido.

Ninguém está na loja. É a minha hora sexual.
Pego na esferográfica e vou rabiscando num papel os tópicos da minha escrita de hoje.
Absorta, volto à realidade quando uma cliente me pede um saco de terra para plantas.
Afinal só “fodi” 5 minutos ao patrão.
Ainda bem que sou mulher, senão seria ejaculação precoce.

Está na hora de fechar a loja e vou até ao ginásio.
Mas onde raio poderei desencantar um banco de banheira?

Não sei o que vai ser o jantar.
Se tivéssemos visitas seria o Luís a fazê-lo.

Prometo a mim mesma que hoje não vou escrever pela enésima vez acerca dos meus ténis ... sapatilhas ... calcantes ... pisantes ...

Misturo a água. De pé na banheira sinto gota por gota o jacto de água tépida que o meu corpo recebe.
Dou por mim a falar com os botões do pijama que imaculadamente dobrado sobre o lavatório aguarda o meu regresso.
- Ainda bem que por hora não necessito de um banco de banheira...

Dou um beijo nos meus ricos filhos e vou deitar-me.

Esta Gina Nº 40 saiu melhor que a encomenda ... está mais sofisticada.


Space flyer

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Luís perguntou-me se já alguém tinha comentado o post que eu escrevi no dia do seu aniversário. Disse-lhe que tinham comentado mas apenas para lhe dar os parabéns, ninguém referiu nada acerca das minhas palavras.
Notei que ele até nem gostou tanto assim do que eu escrevi acerca da sua personalidade, aquele texto não coincide com a ideia que tem de si próprio. Quando criei aquele post centrei a minha atenção nas características do Luís mais viris e másculas, aquelas que são mais vulgares num homem e, se calhar, o resultado é um texto que revela grossaria, bruteza e vulgaridade.
Como não concordo nem um pouco com a ideia de eliminar post's, ainda por cima estando já comentados, achei que deveria publicar um texto que tenho no blog em rascunho já há mais de um ano. Vou publicá-lo tal como está, sem tirar ou acrescentar nada. Neste momento, para mim, não teria a menor piada alterá-lo.
Luís, espero que gostes.

Um perfil difícil...

O Luís tem um carisma extraordinário - é todo ele eloquência, emoção, raiva e bondade com tudo o que isso pode significar de negativo ou de positivo. Óptimo comunicador, dono de uma capacidade, quanto a mim invulgar, para falar acerca dos mais variados assuntos, mesmo aqueles que não conhece profundamente. Lança-se na conversa, emite a sua opinião, não importa do que se está a falar, ele está lá e diz abertamente o que pensa. Mesmo que discorde de alguém é com facilidade bem aceite, uma vez que se exprime com convicção.
Acho o Luís dócil porque é capaz de se emocionar com uma música, um filme, um livro, uma paisagem, o voo de um pássaro, um velhinho que passeia ou com uma criança que brinca. Em contrapartida, é capaz de se enervar com um condutor que não o deixa passar, com alguém que mente ou por não encontrar algo de que necessite urgentemente.
É também um "manteiga derretida" particularmente para com aqueles que ama. Não pode ver ninguém chorar ou queixar-se de alguma coisa, trata logo de fazer algo no sentido de melhorar o bem estar geral da família. Ele remove montanhas se for preciso, só para não os ver aflitos com o que quer que seja.
O Luís pratica artes marciais, mais propriamente Jiu Jitsu e... A-DO-RA!!! É doido por aquilo, no caminho para casa conta-me tudo, tudo, tudo. E eu ouço-o pacientemente e quase sempre penso que ele é espectacular a contar o que quer que seja.
Sempre achei que o Luís tem perfil de professor porque adora ensinar e por saber usar tão bem as palavras para se explicar.
No Ginásio, é onde ele dá largas ao gosto que tem pelo ensino. Quem vai de novo, tem ali um apoio espectacular, porque o Luís é um óptimo anfitrião. Em casa também o é e eu que o diga... quando temos visitas ele entretém muito bem os convidados, é espectacular!

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A VIZINHA GRACINDA

Quando a conheci, a vizinha Gracinda era uma jovem mãe de um bebé chamado João Paulo. O Paulinho, nome carinhoso com que era tratado, era rechonchudo e moreno como a mãe.


Naquela altura passava em Portugal, pela primeira vez, uma telenovel vinda do Brasil, a famosa "Gabriela Cravo e Canela". A minha mãe comentava que a vizinha Gracinda era muito parecida com a "Gabriela" e de facto, era verdade. Era muito bonita, alta, morena, elegante e tinha os cabelos escuros, ondulados e compridos, tal como a "Gabriela".


A memória mais antiga que tenho da vizinha Gracinda é vê-la lavar a roupa do bebé num tanque que ela tinha no quintal. Também me lembro de a ver tirar as peles e os caroços das uvas para o Paulinho comer. Hoje sei que aquela atitude revelava cuidado e que o principal objectivo da vizinha Gracinda era evitar que o bebé se engasgasse. Mas eu, que naquela altura era ainda uma criança, ficava admirada de a ver fazer aquilo. Que estranho alguém descascar uvas... porque raio é que o bebé não comeria as uvas como eu?!


A vizinha Gracinda morava por cima de quem morava por cima de mim. Para se chegar à casa dela, entrava-se por uma porta e subia-se uma escadaria de uns vinte degraus, a casa propriamente dita era lá em cima.


Comecei a gostar verdadeiramente da vizinha Gracinda. Era muito simpática e às vezes convidava-me para ir lá a casa brincar com o Paulinho. E ele tinha tantos brinquedos, tão giros e tão coloridos...


No quarto dela, em cima da cómoda, havia um objecto que me fascinava. Era um frasco de perfume que tinha um tubo com uma bomba na extremidade, tudo forrado com um tecido na côr grenat. Quando pressionada, essa bomba libertava o perfume em borrifos. Não me lembro com exactidão, mas creio que ela me explicou o que era aquilo e como funcionava. Era mesmo próprio dela ter paciência para explicar e compreender o meu fascínio infantil por determinados objectos. Eu, por minha vez, sabia que não a aborrecia, ela achava normais as minhas infantilidades, eu podia sempre contar com a sua compreensão.


Foi ela que me ensinou que os iogurtes naturais saberiam melhor se esperássemos que o açúcar derretesse e só depois comêssemos. Ainda hoje, quando como iogurtes naturais, deixo derreter o açúcar e lembro-me sempre da vizinha Gracinda.


Foi na casa dela que vi, pela primeira vez na minha vida, um gira-discos pelo qual também manifestei fascínio. E ela punha-o a tocar só por minha causa.


Os sogros da vizinha Gracinda tinham uma quinta muito perto das nossas casas. Sou péssima a calcular áreas, mas sei que na quinta havia espaço suficiente para haver hortas e pomares, onde tinham semeados e convenientemente tratados, vários tipos de legumes e várias espécies de árvores de fruto. Havia ainda espaço para animais - vacas, porcos, galinhas e coelhos. Os sogros da vizinha Gracinda viviam do que a quinta produzia e rendia e ela própria era daí que tirava o seu sustento.

Eu cresci e cheguei à adolescência. No tempo em que já não andava na escola e ainda era demasiado nova para trabalhar, a vizinha Gracinda foi muito minha amiga.

Com o crescimento a minha mentalidade mudou, mas a vizinha Gracinda com a sua amabilidade e a sua simpatia naturais adaptou-se a mim e à minha faixa etária. Continuava a ter sempre uma palavra agradável quando conversávamos e adquiriu um jeito especial para entender nas entrelinhas o que eu não dizia.

Sabia como eu me sentia só porque passava o dia inteiro sózinha em casa e convidava-me para ir com ela a vários sítios. Um desses sítios era uma fábrica onde se faziam bolachas Cream Cracker. A vizinha Gracinda ia lá para comprar os restos de massa que sobravam do fabrico das famosas bolachas. Essa massa servia para alimentar os porcos que ela tinha na quinta. E eu, enquanto ela negociava, passava o tempo a observar a fábrica por dentro e achava montes de piada às grandes máquinas nas quais via as bolachas, ainda cruas e pequeninas, a viajar nos tapetes rolantes que as levariam ao forno enorme. Havia farinha e bocadinhos de bolacha espalhados por todo o chão da fábrica. E ainda hoje me lembro que haia lá um rapaz que percorria a fábrica executando as suas tarefas e quando passava por mim fazia-me "olhinhos"... enfim!.. Coisas de adolescente!... É claro que a vizinha Gracinda se apercebeu muito bem. Mas também aí ela actuava com naturalidade, sabendo e aceitando que na idade em que eu estava estas coisas são perfeitamente normais.

Passeei por mais sítios com a vizinha Gracinda. Ela levou-me ao Carnaval de Loures, à praia do Lizandro, ao Centro Comercial Oceano em Odivelas e também ia muitas vezes com o Paulinho para a quinta andar de bicicleta e o Tobi atrás de nós.

A história da vizinha Gracinda não termina bem. O Paulinho morreu de acidente de viação há cerca de uma dezena de anos atrás. Nunca mais falei com ela pelas circunstâncias da vida, elça mudou de casa e eu também, mas imagino que ela não seja mesma. No entanto, eu quis escrever acerca da vizinha Gracinda porque para mim ela foi alguém muito importante. Posso, inclusivé, escrever que foi valiosa sem estar a exagerar nada. A vizinha Gracinda foi e é alguém que eu não quero esquecer nunca. E ao escrever acerca dela, estou de certo a perpetuar a sua lembrança na minha memória. Tanto é


segunda-feira, 16 de abril de 2007

O meu amigo Bento

PERFIL Nº 4
O Bento é alguém especial. Escrevo mais: o Bento é muito especial.
Revela-se pouco, mas como o conheço há muitos anos parece-me que já tenho matéria suficiente acerca da sua personalidade para descrever o seu perfil segundo o meu modo de o ver.
É pouco falador, ou por outra, não é falador. No entanto, esse facto não se deve a timidez, mas sim porque gosta de observar e analisar. E ele sabe que observa e analisa melhor se falar pouco ou apenas o necessário.
O Bento vende e fornece a loja onde trabalho. É o único vendedor que eu... digamos que... gosto de "aturar". Costumo dizer-lhe isso mesmo e ele responde-me em tom de brincadeira:
- Ah... muito obrigado pela parte que me toca.
Aquando das suas visita à loja, aparece sempre de fato, camisa e gravata. É comum os vendedores apresentarem-se vestidos desta maneira e o Bento não é excepção.
Eu também sou observadora e analisadora e o que se segue não tem, de modo nenhum, o intuito de depreciar o que o Bento escolhe para vestir, antes pelo contrário. Eu adoro "trapos" e o Bento, apesar de ter um estilo sóbrio e clássico, pontilha a sua aparência com pormenores que a mim não me escapam e normalmente não contenho um comentário. Por exemplo: tem uma camisa côr-de-rosa giríssima e um casaco cinzento com botões brancos e prateados ao estilo navy que é espectacular. Acerca da camisa digo-lhe que tenho lá em casa um verniz de unhas da mesma côr e do casaco pergunto-lhe onde foi ele arranjar aquele casaco com uns botões tão interessantes... Tem também um outro casaco preto que foge ao comum porque tem gola à oficial que é simplesmente o máximo! Acerca deste, não me lembro de alguma vez lhe ter dito alguma coisa...
Muitas vezes assiste ao atendimento que faço aos clientes e não interfere, a não ser que eu lhe solicite um conselho ou uma opinião, ao contrário de outros vendedores, fornecedores ou mesmo clientes que falam, falam, falam... quando deviam estar calados...
O Bento é metódico e disciplinado, todo o trabalho que ele executa tem uma ordem ou um seguimento do qual dificilmente se desvia, para ser produtivo e se sentir confortável. Escrevi confortável porque creio que esta característica se tenha acentuado devido ao facto de ele trabalhar sózinho há alguns anos. É patrão de si mesmo, por isso no local de trabalho não há confrontos com ninguém. Só conta consigo próprio e, quanto a mim, esta posição acaba por ser confortável para quem trabalha assim.
O gosto musical do Bento é notável... porque é bizarro, ouve músicas estranhíssimas... Enumeraria aqui algumas, mas infelizmente só me lembro de um grupo chamado "Cebola Mole" que tem uma canção cuja letra é algo deste género:
"Bobi, traz o osso ao dono
Bobi Bobi Bobi Bobi Bobi
Ah... meu ganda maluco!...
Bobi, traz o osso ao dono"
E agora mudando de assunto, acho muito interessante a maneira como ele encara a vida; contrabalança o metodismo, a disciplina e alguma inflexibilidade, com uma tranquilidade, uma naturalidade e afabilidade genuínas, o que faz com que seja alguém de muito fácil lidação. Estes são os opostos que eu considero mais marcantes na personalidade do Bento.
Mas ainda há mais... uma vez disse-me que é um "organizado-desorganizado". Segundo ele, a sua secretária está sempre desarrumada, com papéis (e não só) ao monte, mas ele sabe sempre onde deixou o que precisa. Ou seja, é desorganizado porque tem a papelada amontoada e é organizado porque sabe sempre onde está o que procura. Parece-me que neste parágrafo dá para perceber o método, a disciplina, a tranquilidade e a naturalidade do Bento.
A afabilidade que eu acho que lhe é característica é demonstrada através da espontaneidade, clareza e precisão com que me explica algo acerca dos artigos que vende. Quando não entendo alguma coisa, ou simplesmente não conheço, os artigos que vende, é notória a facilidade com que ele explica. É notório também, o prazer que tem em ensinar. Ou não soubesse eu que ele já foi professor...
Às vezes almoça connosco e numa dessas vezes, a conversa foi parar ao seu feitio e à sua personalidade. Em dada altura ele disse que gostaria de fazer um furo numa das orelhas. Eu ri-me e perguntei-lhe:
- A sério?... Quer vir a ser um cinquentão atirado p'rá frentex, é?
- Mas eu já sou todo atirado p'rá frentex. Se vocês me vissem ao fim de semana não me reconheceriam, porque eu sou muito diferente de como me apresento aqui. Para começar, isto fica no armário - aponta para o casaco e para a gravata - ao fim de semana ando de bermudas, t'shirt garrida... boné...
Creio que fiz uma expressão de surpresa porque me é muito difícil imaginar o Bento com tal indumentária. Mas entretanto lembrei-me: " Ah pois é!... Houve um dia que ele veio entregar mercadoria vestido assim porque ia de férias da parte da tarde. Até vinha com aquele sorriso e aquela boa disposição que só se consegue ter quando se está de férias..."
- O Bento faz bodyboard - disse o Luís que entretando se tinha sentado à mesa connosco.
- Pois... eu sou especial - continuou ele. E eu tive imediatamente vontade de dizer algo mas contive-me. Não por muito tempo, pois logo a seguir disse mesmo o que tinha na vontade:
- O Bento é tão especial que eu já comecei a delinear o seu perfil e não consigo escever mais nada - nesse momento passou na rua alguém
cujo perfil eu já descrevi aqui e lembrei-me quão fácil e rápido tinha sido para mim escrever o que escrevi acerca dela - ainda há bocado estive a olhar para o texto mas não sai mais nada. Não sei... falta-me qualquer coisa...
Ele ficou surpreso e curioso com a minha ideia de descrever o seu perfil psicológico. Muito mais surpreso e curioso do que eu alguma vez ousaria sequer supôr. Está desejoso de ler o que eu estou para aqui a escrever... quem diria?

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão

Perfil nº 3

Conheci o Sr. Vicente* quando comecei a trabalhar na loja onde ainda hoje trabalho. Nessa altura eu estava grávida do meu filho André e assim que ele me via perguntava-me:
- Então os gémeos, estão bons?
Eu tinha uma barriga grande e ele tinha uma maneira subtil de me dizer que eu estava a ficar gorda.
O Sr. Vicente é carpinteiro e quando precisa e assim o entende faz compras na loja. Quando me encontra sózinha, costuma dizer-me que eu como encarregada geral do pessoal menor tenho obrigação de saber onde foi o patrão... o pessoal menor sou apenas eu...:-)
O Sr. Vicente já tem mais de 70 anos e assim que entra na loja senta-se no banco. É daqueles clientes que espera sentado para ser atendido e até costuma ficar para último, aproveitando para descansar. Enquanto isso, por vezes sai-se com frases assim:
- Ah pois é menina!... Foi um desastre medonho!... Dos que morreram não escapou nenhum!...
E assim:
- Mas para que é que eu me casei? Já sei, não tinha mais nada que fazer naquele Domingo, olha... casei-me!...- e a seguir acrescenta que no dia em que casou, quando chegou a hora de ir para casa, a mulher perguntou-lhe onde ia ele, porque estava a tomar a direcção da casa dos pais.
Ou então:
- Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão.- não sei onde é que ele foi arranjar esta, qualquer dia tenho que lhe perguntar.
E ainda:
- Mas porque é que eu não fui para Padre?- normalmente esta pergunta é feita quando se queixa de alguma cliente mais exigente ou antipática.
Suponho que ele sente um certo arrependimento em relação a uma decisão que tomou na juventude. Ainda frequentou o Seminário mas não seguiu até ao fim por achar que não tinha vocação. Assim, quando a vida não lhe corre como gostaria tem tendência para pensar que se fosse de outra maneira, seria bem melhor. No caso dele, por vezes parece-lhe que se tivesse ido para Padre não teria chatices e viveria feliz e sem preocupações.
- Ó Sr. Vicente, se fosse Padre também iria aturar pessoas no confessionário e não só- digo-lhe eu.
- Ah... mas mandava-as rezar 50 vezes e enquanto isso eu descansava a cabeça. E tinha cama, comida, roupa lavada e ordenado certo e a horas.
Eu converso muito bem com o Sr. Vicente, é um velhinho de conversa fácil e eu tenho-lhe amizade.

*nome fictício

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Alô Ginô, ça va bien?

Perfil nº2

O título deste post é como o José Pedro* me cumprimenta quando me vê. E eu respondo:
- Ça va bien, merci beaucoup. Et toi?- ao que ele responde:
- Pronto!... Já estás a estragar tudo! Assim já não sei que responder a seguir...- e rimos os dois.
O José Pedro é alguém que considero muito especial, ainda que não tenha simpatizado com ele quando o conheci.
No início achava-o brincalhão e divertido em demasia, abusava da confiança que eu ainda não lhe tinha dado.
Um dia por mero acaso, jantámos juntos numa festa de aniversário e eu fiquei a conhecê-lo melhor, a ele e à esposa Rita*. Naquele dia achei melhor pôr o coração ao largo e adoptar uma postura do tipo - "Bem, já que vou ter que estar na mesma mesa que este caramelo, vamos lá a ver o que sai daqui..."
A seguir a isto já saímos com a malta toda várias vezes à discoteca, ao futebol, à praia, à piscina e em todas estas situações o José Pedro revelou-se dono de uma alegria esfusiante e contagiante.
Aos poucos, fui conhecendo a sua maneira de ser, habituando-me e moldando-me a ela.
O José Pedro hoje em dia faz parte do meu círculo de amigos de que falei aqui .
O que para mim torna o perfil do José Pedro suficientemente interessante para escrevê-lo aqui é o facto de ele ser tão folião, alegre e divertido quanto preguiçoso, nervoso e infantil. Não consigo deixar de sentir por ele uma amizade misturada com um sentimento maternal apesar de ele ter exactamente a minha idade...
É também interessante porque não fui com a cara dele no início e depois mudei radicalmente de opinião. E isto é algo raro em mim.
Hoje eu gosto do José Pedro. Sei que ele é capaz de manter uma conversa séria se necessário. Apesar de, numa primeira análise, eu ver nele alguém que quer é curtir a vida e depois logo se vê... e acabo por ter alguma admiração pela sua despreocupação e postura infantil em relação à vida.
Tal como escrevi, não simpatizei desde sempre com o José Pedro mas, houve um dia que lhe dei espaço e ele fez-me rir.
Li algures - não se consegue ficar zangado com alguém que nos faz rir. Acho que esta frase encaixa perfeitamente neste post bem como no perfil do José Pedro.

* nomes fictícios

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Gina : Gina : Gina : Gina : Gina : Gina : Gina

Perfil nº 1

A D. Antonieta* é uma daquelas clientes que eu gosto de atender pela sua simplicidade. Tem também uma grande facilidade em aceitar os meus conselhos acerca do que vai comprar, mas... gasta-me o nome... Passo a relatar:
- Boa tarde, Gina.
- Boa tarde, D. Antonieta. Como está?
- Bem obrigada, Gina. Lembra-se do que tínhamos falado, Gina?
- Vai ter que me lembrar...- o que ela faz com voz trémula e um pouco confusamente, confesso.
- E isto é bom, Gina?
- Isto é mesmo o que a senhora precisa- respondo eu com um sorriso espontâneo.
- Mas quer dizer... dá para aquilo que eu quero, Gina? E quanto custa, Gina?- é bem verdade que ela não discute preços, o seu único interesse é saber se o produto vai resultar.
Quando acaba de ser atendida sou bafejada por outra torrente de frases, desta feita, apenas com a intenção de conversar. E mais uma vez, frases que terminam com o meu nome:
- Ai pois era, Gina. Antigamente as lojas eram todas assim, Gina. Eu lembro-me e a Gina também se deve lembrar. Eu gosto muito do comércio tradicional, Gina. Aqui somos bem atendidos... a Gina tem muito jeito para balcão.
-... obrigada- respondo lacónicamente ao mesmo tempo que me sinto corar.
- Sinceramente eu acho isso, acho que a Gina é muito simpática e tem muito jeito.
- ... obrigada- respondo mais uma vez e fico a pensar se aquilo será mesmo verdade, não pela questão da simpatia, mas pela questão do jeito para atender ao balcão, quando fico tão facilmente sem palavras.
A D. Antonieta é uma senhora na casa dos sessenta anos, reformada há mais de dez.
Por isso, sai de casa por volta do meio-dia acompanhada pelo marido para beber um café, indo logo de seguida almoçar num dos restaurantes da zona.
É uma daquelas senhoras que não pertencendo à alta sociedade lisboeta, trabalhou durante décadas num departamento ligado às telecomunicações. Por outras palavras, teve um bom emprego, o que lhe permitiu e permite não ter problemas monetários. Consequentemente, tem aquilo a que vulgarmente se chama:uma vidinha santa...
A D. Antonieta é pequenina, saracoteante nos seu saltos finos de dez centímetros (no mínimo) usados para parecer mais alta, ainda que não consiga parecê-lo. Anda sempre com roupa a condizer e bem penteada. É uma senhora que apesar da idade, tem um ar muito limpo, aprumado e algo empertigado.
Ah... e usa sempre (sempre, sempre, sempre) a mesma côr de baton: vermelho vivo assim a fugir para o laranja.
A D. Antonieta tem um carisma suficientemente interessante para inaugurar esta ideia que tive há uns tempos de começar a criar post's relativos a personalidades que rondam a minha vida profissional, ou não.
Achei que o meu blog pode muito bem servir para registar perfis de pessoas que eu não quero esquecer pela sua índole.

* nome fictício