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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Motivo para escrever

Pois é, de momento estou motivada a escrever um texto acerca dos anónimos que circulam pela blogosfera, deixando comentários desdenhosos, quiçá cruéis. Os anónimos desta vida virtual aparecem sob uma forma abstrata, dá-lhes jeito, olha só a gente ficar-lhes a conhecer o rasto... Não dá, ? Não teria qualquer pilhéria, o giro é os anónimos cutucarem, bem agachados para ninguém os ver e assim poderem observar sordidamente o ser que perturbaram, certificarem-se que está muito perturbado mas permanecerem incólumes, é aí que reside o interesse desta estirpe. Sei como é, a blogosfera é perfeita para motivar a prática do escárnio e desdém.
Através deste texto vou usar uma bravura fingida, possuo a mesma arma dos anónimos, também eu estou atrás de um computador, ilusoriamente protegida, mas com uma diferença: deixo-me ver tanto como o gato que esconde o focinho e o dorso esquecendo o rabo à mostra: o meu blogue é este, o meu nome é tal, o meu lugar é aqui.
Mas indo até ao cerne – motivação - a presença de um anónimo malfazejo no blogue, espezinhando os meus escritos, descompondo a minha essência, é extremamente motivadora. A vontade é responder de imediato e se fosse possível apertar-lhe o pescoço virtualmente fá-lo-ia de bom grado. Mas não dá, o anónimo é a tal figura abstrata, sem rasto, como já referi, esfuma-se rapidamente, podendo ser e parecer qualquer pessoa e ninguém em especial, tudo em simultâneo.
Eu, quando atingida por um desses espécimes detestáveis, limito-me a deitar esses comentários menos bons no lixo, não fazendo caso das frustrações sem rosto, cuido o meu blogue de maneira a que não venha a recordar futuramente tais impropérios, era o que faltava: palavras ruins sem que sejam as minhas aqui no blogue... É que nem pensar!
Na primeira bolachada mantenho-me caladinha, não tenho prazer nenhum na discussão, na argumentação, são coisas que me aborrecem e me aprisionam a conversas que não quero ter. Discutir e/ou argumentar são-me, portanto, profunda e perfeitamente dispensáveis, não me motivando absolutamente nada. Que tédio
E eis que uns dias depois o anónimo retorna e arremessa, a ver se havia motivo para eu lhe escrever ou dar-lhe atenção, a qual é perfeitamente imerecida. E ele, vendo o meu blogue vazio das suas palavras, arremessa nova bolachada. Ora bem, assim já há motivos, já começas a motivar-me. Se voltas é porque gostas de ler o meu blogue imperfeito, guardaste o endereço, queres ler o que escrevo, a ver através de que frase ou simples palavra podes espicaçar, tens um interesse que nunca assumirás. Sei como é, não és o meu primeiro anónimo, não, e olha que funcionam todos da mesma maneira. Ofendem e ofendem e ofendem. Não sabem fazer mais nada. Agora me lembro, acaso estarão desmotivados com a sua própria vida?
Sim, eu estou motivada a escrever, lá isso estou. E estou a aproveitar a publicidade, ah pois estou → este texto será apresentado no blogue 'Fábrica de Letras', sítio de onde este anónimo surgiu, destilando a fúria, só porque se vê e imagina perfeito.
Restam os agradecimentos:

Obrigadinha pelo ânimo 'migo, ajudaste-me a construir mais um texto imperfeito.


Nota: texto enviado para o blogue 'Fábrica de Letras', sob o tema proposto para o mês de julho: Motivação.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Perfeitamente

Perfeição é qualquer coisa que não existe. Existem os perfecionistas, isso sim. São controladíssimos e a bem da verdade querem controlar os seus arredores e as outras pessoas.
Não se desviam, odeiam surpresas, têm um propósito bem vincado e presente montado num sistema inflexível, imutável, igual que não abolem das suas vidas nem por nada. Um tédio...

Nota: texto criado para o blogue Fábrica de Letras sobre o tema 'Perfeição'

Olá, boa noite...

Hoje é dia 4 de julho de 2012, são onze e tal da noite e estou a fazer um adenda a este post.
Que me lembre nunca dei tanto nas vistas virtualmente como no textozinho acima. Devo dizer que:

Que me lembre nunca dei tanto nas vistas virtualmente como no post em questão. Devo dizer que:

  • Desconhecia haver tanta gente perfeita
  • Este texto é uma produção pouco esmerada e sem profundidade
  • Não sou perfeita, logo, não produzo textos perfeitos
  • Tento aperfeiçoar-me sabendo de antemão que jamais serei perfeita
  • Os perfecionistas são aborrecidos porque são previsíveis
  • Quis referir-me aos perfecionistas em extremo, nunca às pessoas que, como eu, buscam pegar em algo e fazê-lo perfeitamente, nunca às pessoas que, como eu, mantêm uma ordem de trabalho
  • Abomino a previsibilidade, venha ela donde vier, tome a forma que tomar, chateia-me; aborrece-me
  • No ponto anterior estou a ser extremista, também posso, não me acho diferente de ninguém
  • Se a previsibilidade não existisse sentir-lhe-ia a falta, indubitavelmente
  • Se os perfecionistas não existissem o mundo estaria mais pobre 
  • Se não existissem pessoas que buscam a perfeição, independentemente da sua não-existência, o mundo estaria muito mais desleixado
  • Sou um ser humano único e especial, como já referi: não sou diferente de ninguém
  • Gosto de escrever; preciso de escrever; enlouquecerei se não puder escrever

Eh pá... Eu gosto é de escrever, ora que porra! Não venham para aqui mostrar-se ofendidinhos(as) por serem perfeitinhos(as), ok?!


Nota de rodapé: eliminei todos os comentários deixados neste post para não se conhecerem nomes.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um lugar vago

O lugar para estacionar o carro pode estar destinado.
Se aquele homem ali não tem estacionado antes.
Se eu não tenho parado no meio da estrada para o cumprimentar.
Se eu não tenho apanhado o sinal vermelho.
Não teria chegado no momento exato de ver sair um carro de marcha atrás.
Não teria um lugar vago na rua.

Diz que não há coincidências, que é o destino quem manda nas nossas vidas. Mas isso são as mentes sonhadoras, as que procuram acreditar em algo que não se vê, ou as que deixam reservas por causa dum fator ou outro inexplicável e que sempre nos enfrentarão. Sou mais adepta da coincidência, da matemática, muito embora me insira mais nas letras. Se calhar confundo os números com as letras, o destino com as coincidências. Porém, estes últimos ligam-se, encaixam-se, no fundo são sinónimos.

Nota: texto apresentado no blogue 'Fábrica de letras' sob o tema 'Destino'.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nova participação

Para memória futura, eis a nova participação no blogue 'Fábrica de Letras' sobre o tema 'Rostos, originalmente publicado .aqui, oh.

O alaranjado

Francisquinho entra seguro e cheio daquela aura amaricada, como é habitual. Quando olhei melhor vi-lhe no rosto um tom laranja. Tinha colocado uma base para disfarçar a pilosidade e aparado as sobrancelhas. Fiquei boquiaberta cá por dentro, na verdade a boca não se me abriu de espanto, a cabeça é que ficou zonza com a visão tosca apelando ao metrossexual.

Eu não tenho nada contra os paneleiros, as paneleirices, as pilosidades, as bases de rosto cor-de-laranja e as sobrancelhas aparadas, ao sério que não. Eu gosto é de escrever dos outros. O meu imaginário não me fascina por aí além, antes me incita mais que muito a produzir aberrações literárias. Portanto e basicamente, é uma questão de não me aparecer à frente aquele que não quer ver-se escrito ou descrito por mim.

domingo, 11 de março de 2012

O fotógrafo; fotografar; cliques

A ideia inicial é escrever um texto acerca de fotografia com o intuito já definido de o enviar para o blogue 'Fábrica de Letras'. Então... Eu que escreva.

Na ponta da divisória, junto ao semáforo, que se encontra fechado para os peões, é onde ele está. Naquele cantinho onde é improvável que alguém se mantenha quieto, aí mesmo. A avenida mostra-se movimentada: pessoas, carros. O vaivém é constante mas também habitual e característico desse pedacinho empedrado, bem como desse preciso minuto.
Ele está ali devido a algo, há um interesse no olhar, um esticar de pescoço e uma máquina fotográfica nas mãos. Tem um ar paciente e descontraído, muito embora desassossegado, expectante. O alvo é verde e amplo. Espera um pouco, eleva a máquina e clica. No melhor momento. E clica. E clica.
Deixa cair os braços, larga a pose de fotógrafo, daquele fotógrafo que descontrai mas não deixa de ser fotógrafo, essa pose aí, apoia a máquina na perna direita, porque é destro, pressionando os dedos contra aquele rebordo que as máquinas 'como deve ser' têm. Continua a observar, não vá ter escapado algum pontinho interessante do espaço nu e verdejante.
Enverga um blazer desportivo, cá está a descontração uma vez mais, e uma t-shirt por baixo, cá está ela, a descontração, de novo. É um profissional, indubitavelmente. Um criativo que tem de se apresentar bem vestido, há-os assim.

Para fotografar é mister a dita descontração, tem de existir. Quer sejamos profissionais ou então não. Como eu. Eu gosto muito de fotografia mas talvez não goste tanto assim de fotografar, em certos dias ou momentos falta-me a dita.
Fotografias são segundos fixados num pedaço de papel ou tela de computador. Fotografar é clicar e pronto. Já está. Tudo é fotografável, reproduzível, transmissível através das imagens. Na sua essência é isto.
Fotografar é um pouco como escrever. A gente escreve e dá a ver, acontece, porém, que nem sempre o recetor vê como nós.

E porque fotografar é clicar e pronto, e porque a descontração às vezes anda por aqui, abaixo estão fotos tiradas em Mafra, no passado domingo, dia 4 de março. Olhei o horizonte, as linhas e contrastes, pareceu-me bem no olhar... E clique, três cliques. Descontraidamente.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Post Scriptum

Caro leitor, simples curioso, viajante casual: daqui te saúdo.

Este post já não é o que era, não. Se chegaste aqui vindo do blogue 'Fábrica de Letras' porque gostaste do título da minha participação sobre o tema 'Metamorfose', tenho a dizer-te que escolheste a altura errada, esse texto agora figura num livro de pequenos contos intitulado 'Corda Bamba', editado pela Pastelaria Studios Editora. Podes comprá-lo, se quiseres. Caso queiras, deixa mensagem. Desculpa lá qualquer coisinha mas obrigadinha na mesma.


Nota: post acerca d' A minha historinha


Nota final:
Quando iniciei a feitura deste texto ainda não sabia que o apresentaria no blogue Fábrica da Letras, a ideia surgiu durante. Entretanto havia visto que o tema deste mês é 'Metamorfose' e muito embora saiba que tematicamente o texto não se encaixa na perfeição escolhi-o à mesma.
Também sei que:
é um texto excessivamente longo;
um blogue não respira saudavelmente com textos compridos;
os leitores de blogues (vulgo blogosfera) não se compadecem de quem os faz perder muito tempo.
No entanto e ainda assim, sinto alguma necessidade de mudar de ares, explorar as minhas capacidades, escrever doutra forma. Por isso, aí está o texto...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ai ai!

Esqueci-me que não estava sozinha e soltei um suspiro profundíssimo. A cliente comentou:
– Mas que grande suspiro!
Queixei-me de frio, realmente era o que me estava a apoquentar. A senhora disse:
– Pois, está aí parada...
– Às vezes ando aí aos pulos para aquecer mas depois as pessoas que passam lá fora vêm-me e chamam-me maluca...
Ela sorriu, cúmplice. Sempre há quem aguente as minhas tiradas, afinal. O contacto pontual e/ou esporádico tem esta benesse.

Pois é, estou realmente muito parada, a clientela anda escassa. A malfadada crise existe, não é invenção dos pessimistas ou dos comerciantes avarentos. Uma prova disso é o número de posts que consigo escrever numa tarde.

Texto remetido para o blogue Fábrica de Letras à posteriori.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Indiferença (Será que existe?!)

A indiferença é bera, assim de chofre é o que me parece. A indiferença mesmo, não o fingir que se é indiferente. A indiferença não está presente no fingimento.
Quando li 'indiferença' logo me chegou à memória aquele tipo de pessoa que finge que não me vê, finge que não me ouve, finge que não me quer ver, finge que não me quer ouvir. A mim. Mas a ideia é escrever da indiferença, o não querer saber, o não provocar calafrios nem suores, o não deslumbrar, não afetar de maneira nenhuma.
Vou concentrar em mim, então, à falta de reconhecer a indiferença na outra gente, posso rebuscá-la na minha pessoa. Mas não a encontro por aí além, a bem da verdade não sou uma pessoa indiferente, ou não escreveria as minhas coisinhas.

Se venho tarde encontro-o atrás da montra de óculos.
Se venho menos tarde encontro-o a caminho da loja dos óculos.
Se venho mais cedo encontro-o a sair das galerias.
Se venho muito cedo encontro-o sentado no restaurante de
fast food.
Em qualquer horário o encontrarei redondo e inchado que nem uma pipa de vinho...

«Olha, desculpa lá... Dá-me uma moeda...»
É sempre assim que a rapariga (aparentemente) pobre me pede esmola. Noutro dia vi a miúda na Abelha Maia da avenida, aquele boneco mecânico que parece um mini-carrossel.
Que estranho, não?! Será assim tão pobre que tenha de pedir esmola?! Ou será uma questão intrínseca?!

Não sou indiferente ao quotidiano. Não consigo. Ou não quero, sei lá! A vontade de escrever as minhas coisinhas está-me intrinsecamente imposta.

Nota:
Este texto é a minha participação para o tema deste mês 'Indiferença' no blogue 'Fábrica de letras'.

domingo, 20 de novembro de 2011

Penteado

Eu estava no cabeleireiro. Depois do tempo passado sobre a aplicação de um produto nos cabelos a Carla tirou a toalha e... Surpresa! O meu cabelo tinha crescido imenso, estava volumoso, brilhante, lindo.
Tudo isto não passa de um sonho, eu estava a sonhar... Oh, desventura!
Acordei para a comum realidade dos meus dias: tenho um cabelo curto e absolutamente normal.
Pus-me a pensar, aqui já bem acordada, que podia tratar-se do cabelo na forma contrária à que a natureza ordena: a gente ia ao cabeleireiro estender o cabelo. Depois, com o passar do tempo ele encolhia. Quando achássemos que já estava demasiado curto... pimba! Mandávamo-lo estender de novo.
Podia ser assim.
Mas não é.
Tenho que ir cortar o cabelo...

Nota:
Este texto é a minha participação para o tema deste mês 'Sonhos' no blogue 'Fábrica de letras'. E já vem daqui...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nova participação

Este mês, para a Fábrica de Letras, resolvi repescar um post escrito há tempo. O tema é 'Viagens'.





Rodolfo, doente do coração pelo excesso de peso, tinha sido aconselhado pelo médico a iniciar uma dieta equilibrada, era forçoso comer de duas em duas horas, a menos que quisesse morrer brevemente. Ercília, esposa dedicada, providenciava as porções: uma bolachinha, uma laranjinha, um pacotinho de leite. Acondicionava tudo na lancheira e levava na longa viagem das terças, quintas, sextas, sábados e domingos.
Íam na carrinha Ford Transit, uma geringonça com quatro rodas e um motor cansado que albergava nove pessoas. Era noite cerrada, a geringonça descrevia as curvas sem despacho, rectas também não era com ela mas os ocupantes chegavam ilesos ao seu destino. Fazia um frio de rachar, aquelas paragens saloias nunca foram fáceis em tempo húmido. Às vezes, para distrair e esquecer as incontornáveis questões da natureza, cantavam em uníssono, outras contavam situações das suas vidas, engrandecendo sempre o nome do Senhor, que só Ele é digno de louvor, que a tribulação vem sim senhores, a tentação faz parte, mas Deus é Pai, não padrasto, e dono da soberania.
– Está na hora da paparoca! - Diz Ercília, a zelosa esposa. Saca a bolachinha Cream Crakers de dentro da lancheira, eleva-a no ar como se estivesse a fazer uma apresentação artística a um palco atulhado de espectadores, aqueles furinhos da bolacha filtrando a luz, como holofotes minúsculos e foscos.
Perante o cenário Rodolfo faz uma cara descontente, mas finge, adora ser paparicado por Ercília, o carinho e atenção da esposa-mãe são mimalhices reconfortantes. É a sua vez de mostrar ao mundo a beleza rara que é uma bolacha Cream Crakers. Sorri, satisfeito afinal. Mostra uma dentadura invulgar, existe um espaço entre cada um dos quatro dentes da frente onde caberia outro dente, se as gengivas daquele homem fossem todas preenchidas teria mais uma série de dentes do que o resto das pessoas que viajavam na carrinha...
Aqueles dentinhos da frente muito ralos, uma dentadura dente-sim/dente-não e a cara cheia de sinais é o que melhor lhe recordo.
Rodolfo, mui caro amiguxo doutros tempos e doutras vontades, se um dia eu voltasse a vê-lo seria um prazer imenso.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O que é para mim o fingimento?

Vou falar do meu fingimento porque não sou fingida - é mentira! - e não sei nada sobre o fingimento da outra gente.
Para já, acabo de descobrir que o fingimento é preciso. Preciso dele neste momento... E não é pouco, a ver se me chega em grande dose. Tenho de fingir-me uma escrevente destemida - este é o meu primeiro texto para a Fábrica de Letras, o que é deveras inibidor - a fazer de conta que gosto de mostrar aquilo que escrevo e que vou atrás das ideias dos outros, como esta de escolherem um tema e eu desenvolver.
Agora não finjo: não sou boa a explorar temas só porque alguém disse 'vai lá e escreve sobre isto e aquilo'. O sentimento já vem da escola primária, a dona Elisa mandava os meninos fazer uma redação a contar do Verão, do Outono, das férias da Páscoa... Bah! Nunca gostei. E então se tínhamos de ler em voz alta... Que horror! Nunca consegui dar o tom que queria às minhas pobres redações, talvez porque nunca me tenha esforçado, ocupadíssima que estava a fingir que não sabia lê-las.
O fingimento anda aqui a rondar, qual serpente ondulante atrofiando-me a imaginação – agora estou a fingir que sou poeta - a tal ponto que a minha vontade é largar a correr e levar o fingimento todo comigo. Ademais, sou uma mentira. A bem dizer sou o oposto, o outro extremo.
O meu fingimento é tanto quanto isto: não falo tal e qual como escrevo. É tudo mentira, escrevo a mentir, minto quando digo que minto, escrevo para descobrir as minhas verdades mas o que faço é encobri-las e dar azo às mentiras, que são todas minhas. Detesto aparecer mas adoro escrever porque desejo ardentemente que me vejam e, sobretudo, apreciem os meus textos.
Finjo.
Finjo, finjo, finjo.
Compulsivamente.
A minha vida é um manicómio...

Às vezes venho aqui para falar da minha mentira. Acabei por descobrir que, na verdade, sou mentirosa. A descoberta deixou de ser embaraçosa quando lhe dei colo.
Afago e dou a mão à mentira, desembaraço-me e sinto a verdade como se mentira fosse.
O que acabei de escrever é tudo mentira e é tudo verdade.

Texto enviado para a Fábrica de Letras