sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (15)




Vai buscar os binóculos ao fundo do quarto e volta para a janela. Foca-os em Black e observa o rosto do homem durante vários minutos, primeiro um traço e depois outro, os olhos, os lábios, o nariz, e assim por diante, desmantelando-lhe a cara e agrupando-a novamente. Fica comovido com a profunda tristeza de Black, pelo modo como os olhos que olham para si parecem desprovidos de esperança, e involuntariamente, apanhado de surpresa por aquela imagem, sente-se tomado de compaixão, um onda de piedade por aquela figura abandonada do outro lado da rua. Gostaria que as coisas não fossem assim, porém, gostaria de ter a coragem de carregar na arma, apontá-la a Black e dar-lhe um tiro na cabeça. Nunca saberia o que o atingira, pensa, estaria no Céu antes de cair por terra. Mas assim que visualiza esta pequena cena, começa a afastar tal pensamento. Não, pensa, não deseja nada disso. Mas se não é isso, então... é o quê? Ainda lutando contra aquela onda de sentimentos ternos, dizendo a si mesmo que só deseja que o deixem sozinho, que deseja apenas paz e sossego, apercebe-se gradualmente de que de facto já está ali há vários minutos a pensar se não haveria algum modo de ajudar Black, se não lhe seria possível estender-lhe a mão num gesto de amizade. Isso certamente alteraria tudo, pensa, isso inverteria por certo as coisas. E porque não? Porque não o inesperado? Bater a porta, apagar toda aquela história - tão absurdo como qualquer outra coisa. O facto é que Blue se sente esvaziado de qualquer espírito de luta. Já não tem estômago para isso. E, aparentemente Black também não. Coitado, diz Blue. É a criatura mais triste do mundo. Mas no instante em que diz estas palavras, compreende que também está a falar de si mesmo.

In 'A trilogia de Nova Iorque' de Paul Auster



O chapéu branco



Tenho outro...














E novamente questinonei os ricos filhos, curiosa mas resignada por já de antemão saber que o chapéu não iria agradar.

Rica filha - Esse aind... Esse é mais feio que o outro!

(A hesitação dela foi fantástica!)

Rico filho - Pareces as pessoas do século passado...

(Anos 20, para aí. Julgo eu!)


Barómetro


Se escrevo muito... estou bem melhor.
Se escrevo dois ou três posts... estou melhorzinha.
Se não escrevo... estou muito mal.

terça-feira, 9 de março de 2010

Saúde


Não sei até que ponto me é salutar escrever, muito embora ache que me é necessário.
Isto de escrever para o mundo é bom na maioria das vezes e é melhor que escrever num papel ou num caderno e guardá-lo na gaveta. Há muito que deixei esse tipo de escrita optando por escrever aqui. Aqui há a possibilidade de ter companhia, ou, ainda, a companhia, o que é melhor.
Escrevendo aqui, não escrevo tudo o que me dá na cabeça, escrevo o que me dá na cabeça, escolhendo o que posso escrever. Talvez se tenha percebido que não estou bem, mas não se sabe pormenores. Não se sabe se a minha dor é física ou então não, se estou assim porque odeio se é porque amo... Desabafo, desanuvio, fica-se a saber que tenho uma dor, que padeço de uma doença qualquer e a coisa vai. E ainda há a grande vantagem de não me perguntarem se estou melhor e eu ter que mentir dizendo que estou sim, obrigada, e não estar.


?


- Então, está tudo bem? Gostas da vida?

- Não.

Repete


Atendi uma senhora que repetia incessantemente a mesma frase. De certo modo revi-me nela, partilhei o seu sentir.
Antes do grande dia acontecer nunca iria sentir-me assim. Sentiria, isso sim, pena e comiseração, sentir-me-ia acima dela porque eu não era assim. Agora sou.


segunda-feira, 8 de março de 2010

Montra


Estive a observar uma senhora fazendo a montra. Uma montra de vestidos e blusas e saias. É tão fácil, basta vestir um boneco ou dois e fica uma montra gira e vistosa. Para aquilo eu teria gosto, adoro trapos. A única dificuldade seria não partir os manequins porque vi que a senhora lhes desmontou os braços e as pernas para os vestir. Se fosse eu partia aquela merda toda, de certeza. Depois habituava-me, lá chegaria o dia...
Deve ser mesmo bom vender o que se gosta. Eu vendo fechaduras e petróleo e esfregonas... E depois tenho a árdua tarefa de fazer com que fiquem bem numa montra. Tarefa árdua, pois. Inglória, imperceptível e quase, quase infrutífera, pois.


Uma fotografia por dia que bem iria... (14)




Vi muitas mulheres com uma flor na mão. Vi uma mulher com muitas flores na mão. Não fora as flores e nem me lembrava que hoje é dia delas, as mulheres.
Quando instituirem feriado aos dias oito de março, eu faço posts ao dia internacional da mulher. Faço, faço. Até lá não me serve para nada. Apenas noto que andam ao contrário: marcam uma diferença, quando apregoam o desejo de extingui-la.

Pinhal Novo, 27 de fevereiro de 2010


Saudades


Quando escrevo assim muitas coisas, como hoje, fico sempre com vontade de perguntar se os leitores já tinham saudades minhas.

De notar que o acima escrito é uma afirmação.


O pau


As mulheres da minha rua não me podem ver de pau na mão. A inveja é tanta que não contém comentários cheios de lascívia. Depois mascaram-na, a lascívia, fingindo acreditar que lhes vou bater por andar de pau na mão. A inveja faz-lhes isto, pobrezitas.


Béchamel


- Hum... não há nada no mundo melhor que isto! - Exclama a rica filha saboreando o
molho béchamel que compunha a refeição.
Para além de confeccionar o melhor arroz-doce do mundo, sou também autora do melhor molho béchamel que existe. E vão dois.


Bolas!


Bolas, bolas, bolas, referentes ao post anterior.
Lá estou eu a começar de uma maneira e acabar no oposto. Afinal dou nas vistas!


Dar nas vistas


Dar nas vistas por dar nas vistas, tenho o meu chapéu de chuva vermelho às bolinhas muito pequeninas brancas, o meu casaco vermelho, as minhas unhas vermelhas. São as coisas que dão nas vistas, não sou eu. É por serem vermelhas, creio.
O que dá nas vistas, e eu não queria, é o meu olhar. Eu olho muito, é por isso que dou nas vistas.


Medidas


Umas vezes queria ser uma gaja daquelas de metro e setenta, com um diâmetro de coxa não superior a quarenta centímetros. Para usar botas de cano alto, encharpes de dois metros e vinte sem roçar no chão, calças saídas directamente da loja sem ter que passar na costureira para as encurtar.
Outras vezes não. Outras vezes acho que estou muito bem assim: achatada e robusta. Afinal de contas uma mulher sem isto e aquilo não tem pihléria, dizem... É muito melhor assim como está. As pessoas grandes dão muito nas vistas, eu não sei lidar com grandezas. Tenho as medidas certas.


Chocolate em pó


O senhor Salvador teve que subir a um escadote, que supostamente será da idade do banco, para me aviar o chocolate em pó. Sou uma cliente sortuda porque o saco foi encertado por minha causa. É sempre bom estrear qualquer coisa.
O senhor Savador é idoso, viu-se aflito para descer a tosca escada. Pudera! Com um saco de 20 quilos! Estive quase a entrar dentro do balcão para o ajudar mas lá me contive.
Entretanto soube que o chocolate é-lhe fornecido em tão grande quantidade porque sai mais barato. 'Temos que zelar pelo interesse dos fregueses!' diz ele. Zele, senhor Salvador. Zele que a gente agradece.


Em princípio


Há pessoas que dizem: prencípio.
Entretanto, por causa deste post, descobri que se em prencípio estivesse bem escrito, existiria menos um 'i' para me baralhar com o raio do acento!


Marca


Tenho uma borbulha no nariz. Começa a ser corriqueiro, isso das borbulhas. Contudo, ainda merece um destaquesito por aqui.


Hipótese



O Sô Ventura anda à chuva de cabeça bem tapada porque tem medo de morrer electrocutado por causa do auricular enfiado no ouvido... direito, creio.

Auricular + Chuva = Morte

É só uma hipótese!

Nota: a imagem foi retirada da internet.


Ter


- Boa tarde! Que é que tem hoje?

- Tenho um dia a mais que ontem...

Conversa de homens


Então que foi isso?

Oh!

Então?

Encostei-me a uma coisa quentinha... Escaldei-me!

O homem de verde tem a mania de perguntar tudo e de dizer gracinhas.

O homem de azul já tem idade para não se deixar enganar com certas temperaturas.


domingo, 7 de março de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (13)




Não, não estou enjoada do cheiro do chocolate, do sabor do chocolate, da cor do chocolate.
Comi chocolate, cheirei chocolate, vi chocolate, comprei chocolate, fiz uma massagem ao rosto com chocolate, cheiro - ainda - a chocolate, vi a confecção de receitas de chocolate ao vivo, tenho um creme de chocolate para pôr nas mãos, tenho chocolate no frigirífico.

Óbidos, 7 de março de 2010


Fui e vim




Ao Festival Internacional de Chocolate em Óbidos. A surpresa era esta.


sábado, 6 de março de 2010

14:32


A rica filha diz que se nota no blogue que gosto de estar sozinha, que escrevo:'Hoje fui passear ali...', verbaliza a frase num tom poético, como se a declamasse. Poética, eu?! Como se eu usasse a poesia para escrever...
Acredito que sim, que se nota que gosto de passear sozinha. Gosto de passear e gosto de o fazer sozinha. Mas também gosto de passear acompanhada e é o que vou fazer a seguir. Vou até à Póvoa da Galega. Depois não sei, ao que parece é surpresa.


13:13


O que passará pela cabeça das pessoas quando criam um blogue de fundo negro? Será exactamente o contrário do que se passa na cabeça dos criadores de blogues com fundo branco?


12:25


Ontem esteve um dia cinzento e molhado. Tirei fotografias à chuva e consegui isto:














Estranho, húmido e desfocado.


12:10


Por enquanto o bolo só tem um defeito: está muito quente.

11:51




Já fiz montes de coisas, dentre elas: um bolo de fubá, que ainda não provei, e beber um café enquanto via um daqueles programas de TV 'What not to wear'. O resto das coisas que já fiz não merecem referência neste espaço de tão elevada qualidade literária.
Gosto mesmo de ver aquele programa e num deles um dia vi que para uma mulher usar um padrão de leopardo tem de ser confiante, caso contrário não ficará bem.
Bem, isso explica porque é que eu não me senti bem dentro do casaco de padrão de leopardo que experimentei noutro dia numa loja...

Imagem retirada da internet, porque tal como julgo dar a perceber, sou muito insegura e cá em casa não há roupas de padrão de leopardo.


9:12


Sábado...
Gina Maria, toca a sair daqui para fora, já!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Efectivamente


'Passam cinco minutos das dez da manhã' diz a locutora. Quem dera fosse as dez da noite, estaria debaixo de um chuveiro quente que reconfortaria o meu corpo tão cansado. Tomara já.


Efectivamente.


quinta-feira, 4 de março de 2010

Básico


Basicamente é isto: o dia viveu-se e foi-se.

Mal Por Mal


Já sou quem tu queres que eu seja:
tenho emprego e uma vida normal.
Mas quando acordo e não sei
quem eu sou, quem que tornei
eu começo a bater mal ...
O teu bem faz-me tão mal.

Já me enquadro na tua estrutura,
não ofendo a tua moral,
Mas quando me impões o " teu bem"
e eu ainda o sinto aquém,
o teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal

Deolinda


Uma fotografia por dia que bem iria... (12)




Elas já andam aí. São poucas mas já se deixam ver. A data corrente ainda não é da primavera, é do inverno, mas elas já andam aí e já se deixam ver.

Loures, 4 de março de 2010


quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (11)




Acho esta fotografia assim... uma obra lindíssma só que, e apesar de, captada por acaso ou sorte.
Vou usar esta imagem soberba para fazer uma espécie de homenagem e despedida à minha velha máquina que andou aos rebolões dentro da minha mala cerca de um ano. Um dia deixei-a cair por descuido e partiu-se-lhe a tampa que guarda as pilhas e o cartão de memória. Desde esse dia que andava a tampa segura com elásticos o que me dificultava grandemente o manuseamento.
Apanhou toda a espécie de intempéries: sol, chuva, vento. Acompanhou-me sem pre que lhe pedia. Merece este miminho da dona...
Até sempre, querida máquina!

Mealhada, 14 de fevereiro de 2010


Vezes


Umas vezes estou assim*, outras, enquanto espero que o Luís monte uma fita de estore em casa de uma cliente, saboreio um Martini por ela oferecido insistentemente até eu o aceitar.
A vida não tem jeito nenhum...

*Vede post anterior.


A viagem




A janela cheia de gotas de água de uma chuva grossa e persistente apenas deixa perceber contornos, devolve-me uma paisagem difusa. E eu cheia de um medo que não conheço mas sinto. Há momentos em que desejo ardentemente tornar-me inconsciente, seria tão mais fácil...
Porque raio é que tenho de prestar tanta atenção à vida? Porquê torná-la interessante incessantemente? Porquê tamanha curiosidade?


Doença


Tenho a cabeça doente. Uns dias piora, outros melhora. Nos dias do piorio não escrevo, não sou capaz. Depois, quando melhora, escrevo p'ra caraças!
Não sei se faço bem em escrever. Nem sei... Preciso de uma certa purga. Escrever é como purgar os pensamentos, ajuda a esquecer a ferida. Mas não sei se faço bem em escrever. Não sei se faz sempre bem.


Fingir


Detesto fingir. Não me dou bem nesse campo e apresento caras feias e contraídas porque isto não anda nada de jeito. Depois começo a pensar que é muito mais fácil fingir ver coisas boas, fingir que sinto coisas boas, fingir que existem coisas boas. Fingir, fingir, fingir. Detesto fingir e não devo estar a fazer uma cara feia enquanto escrevo porque agora não finjo que finjo.


Repugnante


Todas as coisas têm dois lados, um bom e um mau. Menos o que repugna. O que repugna não tem um lado bom. Por muito que tente revestir o repugnante de coisas boas, não consigo. Repugna, é mau e pronto.


Acordar


Acordei para o pesadelo. Ao invés de acordar e achar-me num mundo real e bom, abandonando as moléstias que um pesadelo provoca, não, foi exactamente o contrário que aconteceu: acordei para o pesadelo.


...


Devo dizer que assim que publiquei o post anterior apareceu na página do blogger a seguinte publicidade:

A tua Minhoca é Grande?
Descobre se o teu Tamanho é normal. Responde já ao Quiz!


Tem tudo a ver com o bicho da minha avó...

O bicho


A minha avó andou dias com um bicho pousado junto ao peito. Diz que o bicho entrou no íntimo e gostando do calor deixou-se ficar. A conversa não era comigo, o caso era contado à minha mãe mas eu ouvi tudo.
A minha avó espantava-se com aquilo que lhe acontecera. O bicho plantara-se-lhe entre a camisola interior e a camisola de fora. Aquando da hora do banho descobriu-se o bicho. O bicho que a minha avó não soube distinguir a raça. Era um bicho, pronto. E assustou-a. E foi uma história e pêras!
A minha avó enquanto falava aranjava o lenço preto que usava desde os 34 anos, a altura em que enviuvou. Era assim, os costumes. Fizesse frio ou calor, a minha avó usava o lenço negro atado com dois nós por baixo do queixo. De vez em quando a cabeça precisava ser amanhada, ela puxava o lenço para trás da cabeça, ia buscar ao cimo do carrapito a travessa e penteava-se com aquilo, alisando o cabelo, pondo-o no lugar. Depois voltava a pôr a travessa onde a tinha ido buscar, desatava os nós do lenço, colocava-o por cima da cabeça e toca de voltar a dar os dois nós do costume ficando depois muito bem penteada e arranjada... até deixar de estar e tudo voltar ao início repetindo todos estes gestos. Era assim, os costumes.
E o bicho? Foi sanita abaixo, o pobre. Quem manda plantar-se em solo alheio?


Gostar


Na mão um cigarro aceso, a barba crescida e um aspecto geral de vagabundo. Dirigia-se a mim, notoriamente. Se a ideia era intimidar, conseguiu. Numa voz clara e firme exclama:
- Ninguém gosta de mim!
Eu, que sou uma mocinha cheia de paciência para estas coisas, esquecendo a intimidação...
- Ui! Porque será?!


Casal


O homem tocava um acordeão encostado à parede. Óculos escuros, deixando perceber que não via. Se via ou não é outra coisa.
Mas os óculos, as mãos tocando toscamente uma modinha aprendida de ouvido, isso era real.
À frente desta cena uma mulher estendia o cestinho pedinchando esmola a quem passava. O sorriso era sincero. Ainda era sincero.
É giro ver esta cumplicidade, este trabalhar em conjunto. Ainda e apesar de tudo.


Fleuma


- Uma palavra gira para usares nos teus escritos é 'fleuma'.
- Ah, e o que é que quer dizer?
- Não sei muito bem...
- ...?
- Acho que está relacionado com a personalidade...
Fui pesquisar e encontrei no sítio do Priberam, que é normalmente o sítio onde me abasteço destas coisas. Descobri que não está longe, não.


Fleuma

Substantivo feminino

1. Med. Um dos quatro humores admitidos pelos Antigos.
2. Serosidade, humor aquoso; pituíta.
3. Aguardente não retificada.
4. Fig. Génio pachorrento, paciente, frio.

Ter fleuma: não se alterar.


3D


Ouvi nas notícias que antes de termos TV em 3D vamos ter em computadores. Eu não quero... Se tiver de usar aqueles óculos que usei para ver o 'Avatar', não quero, obrigada. Assim como está, está muito bem. Não mexe senão estraga.


Pisca-pisca


Víamos na TV a cena de um casamento - a noiva entrava ao som da marcha nupcial, todos os olhares se concentravam nela, admirando-lhe a beleza, envolvendo-se em toda a festividade e emoção que uma cerimónia destas encerra. O pai, que a acompanhava, deixou-a junto do seu futuro marido como é de tradição. Recordei aquele meu momento.
- Lembras-te de eu chegar ao pé de ti e piscar-te o olho?
- Hum...
- Não te lembras?! - Perguntei eu com grande espanto. Ele descansou-me:
- Lembro, lembro.
- Ah, estava a ver...
Sempre fui algo maliciosa, aquando da juventude já o era só que não sabia, não tinha essa consciência. No dia do casório, apesar dos nervos me tremerem o ramo de rosas na mão e do receio que tinha de o meu pai me pisar o véu ou a cauda do vestido, apesar de todo aquele conjunto de emoções... pisquei o olho ao meu pombinho assim que me plantei ao lado dele.


Os bebés


Lembro-me dos meus bebés em dias destes assim. Quando chovia a gente não podia passear, não podia espairecer as ideias, amofinávamos em casa. Os bebés ficavam excitados, queriam correr, queriam espaço. E vá de fazer toda a espécie de tropelias. A gente sem poder sair de casa, amofinando.
Hoje os meus bebés não ficam assim, ficam em casa mas não se endiabram. Ele não joga à bola, ela não vai até ao centro comercial. E é só. Apesar da chuva e do mau tempo, entretém-se muito bem. Internetes e afins, pois.


Palavras e pessoas


Há pessoas que dizem muciço. Outras dizem PBC. O que vale é que a gente entende.


Beijinho


A senhora do externato ao telefone despediu-se de mim com um beijinho. Acho que ela se enganou mas apesar disso achei por bem aceitar o ósculo, mesmo enganado não custa nada aceitar.


Provérbio


'À má hora não ladra cão.'

É um provérbio que disse um senhor em jeito de conselho quando viu um certo comerciante abandonar a loja de porta aberta, ia só ali.
'Os cães ladram mas a caravana passa', lembrei eu logo. Os cães nem sempre ladram, não ladram às más horas.


Lenga-lenga num francês à portuguesa


Oh mon dieu de la France!
Est-ce que vous pense que fumèe la pipe non canse?
Canse, canse...


Descobri noutro dia que o 'oh mon dieu de la France' que eu já usei aqui várias vezes afinal é uma lenga-lenga...


Funcionalidades


A minha máquina nova...

(Já toda a gente sabe que eu tenho uma máquina fotográfica nova? Já? Óptimo!)

... tem a data impressa na imagem e eu não sei como tirar aquilo! Não gosto dessa função, sinto-me como que perseguida. Tenho que me agarrar à dita e eliminar de vez a informação desnecessária. E ainda por cima tem as horas explícitas e tudo! Alguém precisa saber as horas a que tiram as fotografias?!


terça-feira, 2 de março de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (10)




Há que tempos não vinha aqui! Descansar num banco de jardim, comer dois ou três quadradinhos de chocolate (ou quatro ou cinco, ou seis ou sete...) e apreciar a paisagem.
Sim senhor! Que belo prenúncio de primavera eu encontrei!

Lisboa - Jardim Fernando Pessa, 2 de março de 2010 e eram 14:10, sim.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (9)




Fui a casa da doutora. Está aparecer-me que o melhor é não chamar nome nenhum à doutora, nem maria nem gervásia nem olga nem rosário. Fica assim: doutora.
E eu fui a casa da doutora. É complicada a casa da doutora. Bolas! Muito complicada... Mais ou menos assim como ela, que não tem muita saúde mental. Como é que a mulher não há-de ser complicadinha?! Com uma casa daquelas, que em cada divisão dá para entrar em todas as outras. Que labirinto!
A empregada da doutora passava uma colcha de linho, o Luís montava um tubo na máquina da roupa e eu tirava fotografias a tudo, esperançada que a empregada da doutora não ouvisse os cliques e assim.
Também me está parecer que é melhor parar o post por aqui.


Nota


Todas as fotografias que publiquei hoje com excepção da seguinte fazem parte de um conjunto de fotografias que estavam atrasadas e que quando as tirei a ideia era colocá-las na etiqueta: 'Uma fotografia por dia que bem iria...'
Por razões que não vale a pena explanar, quero que ainda assim - atrasadas - sejam publicadas e que sejam publicadas fora da etiqueta.


Porta-chaves


Descobri que existem porta-chaves digitais com ecrã de 1.1" e capacidade para aproximadamente oitenta fotografias.
Fiquei encantada com o facto de existir semelhante objecto e com o facto de ser comercializado. Ou seja: alguém compra aquilo? E se compra: consegue ver-se alguma coisa nm ecrã tão pequeno? Não creio...


Negrito (2)


Ando aqui a contorcer-me toda para não pôr o negrito nos posts! É que são já muitos anos nisso...


Futebol




Hoje o jogo foi no Clube Futebol Benfica, o rico filho perdeu: 3-0.
Chuva, muita chuva. E frases:

- Ó pá e a bola não vem para aqui nem nada!

- Vai embora, Pedro! Anda, Pedro!

- Toca a subir, Pinheiro!

- Tira, André! Tira, André!

Trabalho




Houve aí um dia da semana que passou que eu achei que uma caixa de cartuchos de gás ficava bem numa fotografia. Fotografei e concluí que a minha ideia inicial estava correcta, os cartuchos de gás são um objecto muito fotogénico.


Novidades





Tenho uns sapatos novos e uma máquina fotográfica nova e um vestido novo.
O vestido não aparece aqui, pois não. E a máquina fotográfica que aparece é a reformada. Para ficar no álbum de família, digamos assim. Fotografias e álbuns de fotografias tem tudo a ver.


Vinho




Esta sou eu.
(Silêncio.)
Agora era a altura em que alguém respondia:'Muito prazer!'
(Silêncio novamente.)
Mas não era disto que eu queria falar. Eu queria falar do vinho. E também do meu recente interesse acerca de vinhos. Agora, sempre que se acompanha a refeição com vinho, eu, não só provo do nectar dos deuses, como acompanho mesmo a refeição com ele. Já sei diferenciar sabores, já não acho que são todos iguais. Isto vai lá. Um dia serei uma daquelas provadoras de vinhos que se fartam de passear país fora e ainda bebem de borla coisas absolutamente espectaculares. Isto vai lá porque eu sou uma mocinha cheia de sensibilidades, sendo que a gustativa é uma delas. Assim que provo um vinho começo logo a apreciá-lo e adjectivá-lo. Isto vai lá.


Negrito


Este modelo de blogue fica feio em negrito.

Compulsividade


Bem me parecia que não devia ter cedido à tentação de publicar as fotografias do dia neste blogue. Agora o que acontece é que tenho fotografias a mais e dias a menos. Isto porque me apetece fotografar tudo e acho tudo muito engraçado e interessante e ao fim do dia nem sei que fotografia escolher... Não sei muito bem como prosseguir com isto...


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (8)




Loures, 27 de fevereiro de 2010


Parei ali, gostei do que vi e achei que era bem capaz de ficar mesmo bem no meu blogue. Olha, e ficou! Eu cá acho.
Tenho a mania das fotografias vazias. Assim singelas, com poucos itens, a atirar para o solitário, sem grandes confusões. Um pouco parecidas comigo, vá. E ficam. Ficam mesmo parecidas comigo.


Lugar bucólico


Bucólico

adjectivo
1. Pastoril.
2. Singelo, puro.

Indo um pouco ao tema Lisboa escondida, que tem pano para mangas daquelas mesmo muito compridas, noutro dia ouvi referirem-se à Lisboa escondida com a exclamação: 'Ah, aquele lugar bucólico!'.
Tal como tenho anunciado, o meu computador avariou e teve que ser formatado, o que significa que tudo quanto estava na memória foi eliminado. Perdi alguns documentos importantes, outros muito importantes e outros banais. Felizmente tinha grande parte deles bem guardados... Eis uma fotografia do lugar bucólico à data de 25 de maio de 2009:



António Canastrinha - Poeta


É morto. Este senhor é morto há muitos anos.
Conheci-o era eu ainda muito jovem. Diz-se que não prestava para nada, pelo pouco que conheci, e no pouco que conheci, concordo: não era grande coisa, não. Mas era poeta. E, em calhando, era louco: matou-se.
Tenho cá em casa um livro de poemas do supracitado senhor - ' Meus amores' - que nos foi gentilmente oferecido pela viúva em outubro de 1998. Retirei um poema que transcrevo:

    Sou um poeta louco

    Eu sou poeta e não conheço a altura
    Sou como as flores que não conhecem ódio
    Humildes, murcham junto à sepultura
    E secam, festejando um episódio.

    Sou dentro do meu bosque o varredor
    Onde apodrecem folhas junto à vida
    Entulho acumulado pelo amor
    Manhã de outono, triste, adormecida

    Sou dia e noite - Sou tempo sem sorte
    Sou fogo e alvorada que se esfuma
    Lanterna fraca, iluminando a morte
    Penso ser tudo - e sou coisa nenhuma

    Sou corpo velho, escanzelado e feio
    Sou um poeta louco - enfrento o tino
    Besta altruista que suporta o freio
    Um forcado nos cornos do destino.


'Um jeito estúpido de te amar'

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem seu jeito
Todo próprio de amar e de se defender
Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
Eu faço, e desfaço, contrafeito
O meu defeito é te amar de mais
Palavras são palavras
E a gente não percebe o que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar

Maria Bethânia

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

...


Estou louca. Quando é assim não escrevo. Escrever em muito, quero eu dizer.
Se os poetas e escritores são todos lunáticos só posso concluir que não tenho a alma de escritora que julgava ter porque a minha loucura não impulsiona a escrita.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O dia


Há pouco a dizer sobre hoje. A não ser que às cinco e quarenta da tarde a rua Morais Soares cheirava a frango assado e que sendo assim não se sabe se a malta janta cedo ou almoça tarde.
Também posso dizer que no mesmo sítio e no mesmo instante em que eu aspirava o cheirinho do frango tão fora de horas circulava uma senhora sem sobrancelhas mas com um risco a lápis preto em vez delas.
Comprei um verniz lilás. E um tecido de ganga.
Jantei arroz de atum e almocei um rancho que em vez de couves tinha espinafres mas não necessariamente por esta ordem, ou seja, almocei primeiro e jantei depois.
O meu computador 'novo' não me deixa colocar linques como dantes e cada vez que ligo a impressora tenho que a instalar.
Sou fantástica a escrever ironias mas acho que não se percebe lá muito bem que estou a ser irónica.
E era isto.


Perda


A minha religião já não é o que era: perdi um seguidor...


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Correio


Lá vai a dona Palmira... Um monte de cartas na mão, quase ao fechar das portas dos correios. A ver se não fecham antes de lá chegar. Corra, dona Palmira! Corre, mas não veloz, aqueles saltos agulha não deixam lugar à velocidade, as calças justas também não.
Na verdade a dona Palmira corre sem graça. Faz-me lembrar do tempo das aulas de aeróbica, em que eu tinha que levantar os joelhos acima, mais acima do que podia. A dona Palmira corre assim, parece que está na aula de aeróbica e levanta os joelhos ao invés de bater com os calcanhares nos glúteos*. Oh, dona Palmira...


*Escrevi glúteos porque o asunto envolvia exercício físico e num ginásio a gente não tem cu, tem glúteos...


Leitura


A rica filha leu o blogue...
Uma das minhas grandes questões enquanto escrevente, ou, neste caso, blogger, é saber se serei reconhecida no que escrevo.
Esta minha questão é talvez grande porque acho que não, não me reconhecem. Dá-me a impressão disso, pronto. Mas contrariamente, a rica filha diz que sim, que quando leu aquela cena da senhora azul reviu-me imediatamente ali. Quando lhe perguntei acerca do resto, foi vaga e inconclusiva o que me levou a pensar que estou certa: aqui, o que sou não se parece assim muito comigo.


Extraordinário


Ora bem, este é um post especial porque eu sou uma pessoa especial. E eu sou uma pessoa especial a quem acontecem coisas extraordinárias. Logo, sou duplamente especial, sou fora de série. Isto porque não creio que haja muitas pessoas a quem um sem-abrigo ofereça uma dúzia de ovos. Não há, pois não?


A posição


Dá-me ideia que os sôs polícias que andam na aula de streching comigo não acham lá muita piada quando a professora nos manda pôr de gatas... Não sei porquê, é uma ideia que me dá.


Conversa de parvos


- O senhor já atingiu a idade de saber que existem pessoas parvas.

- Eu não a acho parva!

- Mas eu não estou a dizer que você é parvo...

- Não, eu estou a dizer que não a acho parva.

- Mas eu não disse que você é parvo!

- Não! O que eu estou a dizer é que você não é parva!

- Ah...


Uma fotografia por dia que bem iria... (7)


A dona Islena deu-me isto:



São lá da terra. E frisou que não são tangerinas, são ancoras!
Não, não são âncoras, são ancoras. Lê-se como se tivesse um acento no 'o'.

Lisboa, 24 de fevereiro de 2010


O corte


Então, ninguém te elogiou o penteado? Ninguém te disse que estás muito gira?

Não.

Pois, é o que faz não ter amigas gajas. Sabes que os gajos não reparam nessas coisas...

Sei.

Até somos capazes de ver qualquer coisa de diferente e tal mas não sabemos identificar o quê.

Hum-hum.


Cores


Hoje pareces uma árvore: castanho em baixo, verde em cima.

Sim, e amarelo no meio...

...

...Que é a seiva!

...?!


Gordo


O homem queria anilhas grandes e eu disse que tinha lá das gordas.
'Gordas assim como eu?'
Hum, ups! Nem tinha reparado que o homem é gordo. É gordo, é. É mesmo gordo. Paciência...
Desculpei-me dizendo que costumo dizer estas coisas na brincadeira. Ele respondeu que também estava a brincar e...
'Eu brinquei primeiro!' Exclamei muito depressa.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pergunta e respostas


'O chapéu fica-me bem?' Perguntei eu aos ricos filhos.

Rica filha - É giro mas não gosto.

Rico filho - Pareces um taxista gay.


Hum... OK.
Depois esmiucei a coisa, claro.
'É giro mas não gosto.' significa que é um objecto bonito mas que a rica filha não usaria.
'Pareces um taxista gay.' foi a primeira coisa que o rico filho se lembrou assim que me viu com o chapéu pranchado na cabeça.


Uma fotografia por dia que bem iria... (6)


Diz:

Que não há mais ninguém que tenha disto em Portugal. Que é muito bonito. Que veio do México. Que é muito bom. Que é de alpaca.

(O post continua abaixo da fotografia.)



Foi o senhor Rodrigues que me vendeu. Esta peça é uma fivela de cinto que se usava para aí quando eu nasci e fazia parte do espólio dele. O espólio que ele anda a vender ao desbarato para se livrar dos restos de coleções. É que o senhor Rodrigues, dentre outras coisas, era vendedor. Hoje tem a casa apinhada de toda a classe de bugigangas inúteis mas rentáveis em tempos que já lá vão.
Achei a fivela tão bonita que quis comprá-la. Por ser bonita e não só, também para guardar uma recordação do senhor Rodrigues. Ele podia oferecer-me a fivela mas não quis para eu não lhe ficar a dever favores, disse ele, e levou-me metade do preço.
Isto de dever, ou não, favores tem muito que se lhe diga mas fica para um próximo post, assim haja lembrança e vontade de o escrever.
Hoje foi dia para comprar uma fivela da minha idade e agora fico-me por aqui.

Lisboa, 23 de fevereiro de 2010

Nota:
Quero deixar um pedido de desculpas pela falta de qualidade da fotografia de hoje. É que o material a fotografar sendo brilhoso fica difícil fazer uma coisa... assim mais ou menos, vá.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Post nas horas com fotografia e tudo


10:11

Vim de transporte público, o que até pode ser fantástico. E foi. Pior é ter-se acabado o caminho...

10:43

Estou desejando que chegue alguém para eu assumir a seguinte forma de egoísmo: focar a atenção nas questões doutra pessoa de modo a esquecer o que me atormenta.

11:04

O homem do gás pregou com todo o meu stock de alguidares e floreiras no chão. Ele chateou-se mas eu cá não, eu cá consegui sentir atempadamente que não valia a pena chatear-me.

11:38

Uma senhora queixou-se de falta de ar que a asma lhe provoca e do ar a mais que tem na carteira devido à escassez de numerário.

11:56

O cesto e o mini-tanque por obra do acaso, ou assim, cairam ao lado do Sô Ventura. 'Fui eu?' perguntou ele preocupado.
Não, Sô Ventura. É isto que é mesmo assim... Deixe estar, eu arrumo. Ele não fez caso e arrumou.

12:23

Devia distrair-me. Tenho de distrair-me, aliás.
Ontem, o passeio prolongou-se um pouco mais do descrito ontem.
A meio da rua começa o descampado. Ali não há casas, há hortas e uma fábrica que em tempos foi próspera. Digo foi porque não sei se continua a sê-lo.
Dentro do recinto que pertence à fábrica estava um cão preso, suponho que de guarda. Viu-me e permaneceu calado. Não ladrou como os outros. Não atentei nele, a não ser quando lhe vi uma tristeza no olhar de dar dó. Desisti das minhas fotografias e chamei-o, incentivei-o a vir ter comigo. Tudo em vão, não consegui mais que um rodar de pescoço que captei com um clique.
Pobrezinho, queria sair dali. Queria a liberdade, justamente. Depressa percebeu que eu não estava ali para o libertar. Aquele olhar transmitia um desengano e uma tristeza tal que, pareceu-me, desistira da vida.
Poucas coisas serão tão boas e tão belas como a liberdade.



12:41

Estou aqui estou ali mas conto voltar assim que se me acabe o tempo.

14:40

Custo a suster os pés fincados no chão, tal a força do vento. Não chove nem o raio a ver se isto pára!

16:26

Entrou um senhor. De notar serão talvez os óculos escuros. Notou-se porque não está sol.
Queria cola-vedante. Tenho cola, não tenho vedante e depois de inspecionar descobri que tenho cola-vedante.

16:31

Coitadas das pessoas na e da Madeira. As vivas, claro. As mortas não são coitadas porque já não são nada para além disso.

16:32

O Pedro Abrunhosa tem um novo disco.
Sim, é verdade, e também caiu noutro dia em directo nos Ídolos e deixou escapar um 'foda-se!' e o João Manzarra saltou graciosamente direito a ele e já agora acrescento que acho que se safaram ambos muito bem, dada a circunstância. Eu não teria feito melhor figura, a cair e a praguejar ou a saltar graciosamente. Não teria, não.
Mas dizia eu, o Pedro Abrunhosa tem um novo disco. Está a dar na radio. Acho que não é grande coisa, o disco. Não sei, digo eu. Continue a cair, senhor Pedro Abrunhosa. É muito mais criativo assim e impulsiona outros a sê-lo também.

17:12

Agora entrou um galifão de t-shirt justinha evidenciando o peito inchado.
Esta gente anda toda doida! Mas está algum calor?!

17:28

Tirar os restos de verniz das unhas devia fazer bem a qualquer coisa mas não faz.

17:41

Eu tenho tiques. Muitos. Mas aquele de assoprar pelo nariz como tem o senhor que acabou de sair daqui, esse tique não tenho eu. É assim como se estivesse a assoar-se mas sem mãos e sem lenço, ou o dos mocados da cocaína, esse mesmo. Esse não tenho.

18:42

As pessoas irritam-me e fascinam-me. É uma coisa incrível, esta.
A escrita é um processo solitário. Pergunto-me se não devia acabar com isto de escrever. Escrever transforma-me em algo não necessariamente bom e coloca-me num mundo à parte, estou sempre sozinha. A ideia é partilhar mas estou sempre sozinha.
As pessoas irritam-me, vivo num mundo à parte delas e possuo um interesse desmesurado por tudo isso.

19:01

Será que o motorista consegue ouvir as notícias? Com este burburinho parece-me que não. Porque raio terá ele o radio ligado se não se ouve?
Há crianças aqui aos montes. Que me lembre nunca tinha viajado numa camioneta que tivesse tanto miúdo. Vinham ao despique a ver quem sabia mais de contas de somar números redondos ao milhar.
Cheira a pó de talco. Hum...

19:32

O senhor doutor ficou chocado com a minha nódoa negra. Quando soube que quem a provocou, de certo modo, foi o meu marido, o senhor doutor ficou doente. Foi o que ele disse...

...

Daqui para a frente, é por pouco que o meu dia não merece ser revelado. Tenho uma vida cheia de coisas tão diferentes que me sinto um bocado embaraçada. Chego sempre muito tarde, janto a altas horas da noite e depois venho aqui escrever umas coisas. A ideia é partilhar mas eu estou sempre sozinha porque as pessoas me irritam. É capaz de ser isso.



Uma fotografia por dia que bem iria.. (5)




Há uns dias reparei num banco gasto que está na loja do senhor Salvador. Comentei com ele a aparência do banco e disse-me que já lá estava quando ele foi trabalhar para ali, há quase 42 anos. Conversa daqui, conversa dali, fiquei a saber que o senhor Salvador iniciou a sua doce actividade em Julho de 1968, ou seja, quando eu nasci.
Depois deste facto descoberto, bem como a minha idade desvendada, o senhor Salvador deixou-se-me dizer:
'A menina ainda é uma jovem!'
Pensei que comparada com ele é facílimo parecer jovem.
Voltei a centrar a minha atenção no banco tosco e lascado. Anunciei à laia de pedido que qualquer dia levava a máquina fotográfica para lhe tirar uma fotografia... Respondeu prontamente que sim, que há dias até estiveram lá duas senhoras dizendo que ali era mesmo giro para fazer um filme e assim. Achei que era bem possível isso do filme, afinal o lugar possui um conjunto de cores e formas gulosas e tão variadas que dá gosto ver. Para mais, o que se vê é para comer e cheira bem. O cheiro é bom mas isso o filme já não consegue transmitir, tem que se ir lá e inspirar.
Uns dias depois, quando precisei de chocolate em pó, pensei:
'Não é tarde nem é cedo, é mesmo a boa hora.'
E levei a máquina. E não estava lá ninguém. E pedi ao senhor Salvador para clicar. E clique!

Lisboa, 19 de fevereiro de 2010


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ora bem, o que se passa é o seguinte:




Já tenho o meu velho computador arranjado. É dele que agora escrevo. Porém, o pobre não tem nada na memória - imagens, músicas, sítios favoritos. Nada.

A imagem? É do Windows, portanto não faço ideia em que dia ou onde foi tirada. Amanhã já devo ter imagens da Gina para pôr aqui.


Uma fotografia por dia que bem iria... (4)




Hoje fui à minha rua. À minha terra e à minha rua. Está diferente aquela rua: há casa novas, há pessoas novas e há cães que dantes não existiam. Ladravam à farta enquanto eu caminhava. Pareciam anunciar uns aos outros a minha presença fazendo grande banzé.
Por causa do barulho o vizinho Artur, que me conhece desde os meus seis anos, assomou à janela do quarto. Reconhecendo-me brincou:
'Que é que andas aqui a fazer?'
Entretanto chovia. Uma chuva pesada, grossa. Tive de gritar:
'Vim ver os primórdios!'
'Hã?'
Apercebi-me que usara uma palavra desusual na linguagem corrente da maioria das pessoas. Entretanto também pensei que tinha mas era dito uma grande asneira. ... Não tinha dito asneira nenhuma. Repeti:
'Vim ver os primórdios!'
'Ah...'
O vizinho Artur não me entendeu. Paciência, se tiver muita vontade de entender consulte um dicionário.

Pinheiro de Loures, 21 de fevereiro de 2010


Anúncio às 20:53


Estou a ver o Telejornal. A ouvir, quero eu dizer. Isto é algo fora do comum. Tão fora do comum que quis anunciar.
É para ficar para a posteridade. Daqui a muitos anos, quando este blogue já tiver barbas, ou até quando já nem eu tenha a paciência que hoje tenho para mantê-lo, vou chegar aqui e vou ler que no dia 21 de fevereiro de 2010 estava a ver o Telejornal, a ouvir, queria eu dizer, e que isso era algo fora do comum.


Ricos filhos




O rico filho a jogar...



A rica filha a conduzir...


sábado, 20 de fevereiro de 2010

De braço dado


Ontem andei uns dois ou três quarteiões de braço dado com a minha sogra. É por causa da idade que ela se apoia em mim, mas não é só. É porque me aprecia, é porque se sente à vontade para este tipo de contacto.
Não sou muito dada a grandes demonstrações de carinho. Ela também não. Vai daí... só pode ser porque gosta de mim. Este apoio, este gostar da companhia, só pode ser porque gosta de mim.
Não tenho aquele sentimento que a maioria das pessoas tem pelas sogras. Eu gosto da minha sogra, é uma pessoa muito especial. Não é a primeira vez que escrevo sobre ela, aliás.
E pronto, por agora era isto: ontem andei uns três ou quatro quarteirões de braço dado com a minha sogra. Entrámos em lojas, mexemos e remexemos, falámos e comentámos das coisas e das pessoas. E foram uns minutos muito agradáveis.


19:23


Os chapéus de chuva voam com o vento, isso já eu sei desde os tempos de meninice. Hoje, pelas 19:23, descobri que os chapéus da cabeça também voam.
O vento é um gajo malfazejo e indesejado...


De volta


Fui e vim. Não fora o susto que não me larga e teria sido um perfeito deambule.


Muito


Pior que sentir-me velha, cansada e solitária, será sentir-me muito velha, muito cansada e muito solitária.
Acho que está na hora de ir ali distrair-me. Sozinha, pois.


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Tenho muitas frieiras.

Tecidos e cores deles


Comprei um tecido para fazer um vestido e um para fazer uma saia.
Ontem, estando eu um bocado mais conversadora que o habitual, quando a vendedora pegou no tecido que há-de ser uma saia daqui a uns tempos, assim chegue o calor, comentei com a vendedora que aquela é a cor da moda deste verão. Ela torceu o nariz e depois disse que a cor era 'gritante'.
Pois que seja! Tomara eu que a cor da minha futura saia grite por mim: ‘Gina! Gina! Gina!’
É azul… É tudo azul…


A prenda




Gina Maria:

Tu nunca, por nunca, mais digas que não sabes fazer embrulhos, ouviste?!

(Sim...)


Dobra




O Clóvis agarrou na minha nota e mostrou-me como antigamente os japoneses dobravam o dinheiro e depois o colocavam preso no cabelo que usavam habitualmente comprido e apanhado. Era assim, como se vê na foto.
O Clóvis gosta dos japoneses e gosta de me distrair. Eu gosto do Clóvis, de pormenores, de tirar fotografias, de escrever...


Olhar


O olhar do escrevente tem de ser isento de influências. Não tendo que ser, e isto porque não sei se tem de ser ou não, eu é que sou assim, livre de influências, não tenho grande dificuldade neste campo.
Uma vez ouvi uma entrevista de António Lobo Antunes em que ele referia a esperança de nunca vir a perder a virgindade do olhar. Acho que era a isto que ele se referia: um olhar totalmente livre e desobrigado. Acho…
Agora que acabei de escrever estas linhas já tenho como certo o facto de não haver outra maneira de escrever. Ou é assim, ou ninguém escreveria nunca.


O saquinho


A dona Raqueline é uma mulher que pensa na causa das coisas. Trouxe-me o saco onde levara o que lhe vendi espalmado e bem dobrado para ser reutilizado. Não se pense que é para ajudar o planeta, não, é antes porque a dona Raqueline se preocupa em poupar tostões!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A padeira


A padeira avia-me o pão que peço, põe-no dentro de um saco e depois puxa-lhe as pontas para cima para ficar sem ar. E puxa e puxa e puxa. Até ficar todo o ar fora do saco. Depois pega-lhe nas pontas e dá dois nós muito bem feitos. Bonitos, até, de tão perfeitos.
É também cuidadosa a colocar o saco do pão em cima do balcão. Parece ela que me estende um jogo de lençois imaculadamente limpos e engomados.
Quando vou àquela padeira já sei como é: vou munida de grande paciência para esperar que todo o ritual se cumpra...


Uma fotografia por dia que bem iria... (3)





Ganda viga!

'Ganda viga!' era a expressão que o meu irmão usava pra se referir a uma pessoa muito alta. Assim que vi esta viga no chão lembrei-me dele. Dele e deste post:
Agora a minha Lisboa escondida está nisto: cheia de movimento. Há pessoas e e reboliço porque há obras de recuperação num dos recintos. Tudo aquilo está muito diferente em vista e em pulsar.
Agora quando lá vou digo e ouço 'bons-dias' ou 'boas-tardes'. Também ouço 'alhos' e 'bogalhos' mas aí a conversa não é comigo, são os gajos das obras que são mesmo assim, numa frase de cinco palavras duas ou três dão 'alhos' ou 'bogalhos'. Os mais contidos até fazem para os mais destemidos: 'Chiu!' quando eu me aproximo, acho-lhes graça.
Tirei uma fotografia à viga no meio do chão, também lhe achei graça, a graça suficiente. Por causa da dúvida que me controlou a escolha hoje são duas fotografias, clique e clique!



Lisboa, 17 de fevereiro de 2010


Nomes e assim


A dona Raqueline não se chama exactamente assim. Escrevo sob um manto algo protector, protejo os ocupantes das histórias que conto e protejo-me a mim, claro. Mas a dona Raqueline tem mesmo cara de dona Raqueline. De modo que hoje, quando ela me telefonou para perguntar quanto era a continha e blá blá blá, fez-me impressão ouvi-la identificar-se com o verdadeiro nome...
A dona Raqueline, tal como já escrevi há uns tempos atrás, vai ao cabeleireiro às quartas. Hoje é quinta... Ao telefone queixou-se-me de que 'precisava lavar a cabeça mas hoje está tanto frio para sair de casa...'