terça-feira, 8 de maio de 2012

Amadora – Este

Daqui a nada lá estarei, oh glória terrestre! Vou passear. Em trabalho. Quanto não vale isto?!

12

São 12 euros. - disse eu.
12, como? - perguntou a cliente.
Ainda pensei que a questão fosse devido à conversão euro/escudo, que ainda há pessoas que a pedem para se situarem economicamente. Ia dizer que eram dois contos e quatrocentos quando ela me interrompe:
12 euros assim: 10, 11, 12?
Hum, fiquei atónita. Ela repete a questão. Resolvo dizer que sim, é isso mesmo: 10, 11, 12.

Ser diferente

Isto de ser diferente não me agrada. Não quero ser diferente de ninguém para não me sentir sozinha no mundo. Mas sou. E estou.
Entrei num lugar público, nomeadamente um campo de futsal onde o rico filho havia ido participar num torneio. Entretanto vou-me dando conta de tudo e tal, observando como é meu costume. Foi golo, grande algazarra e o caraças. Não vi nada. Ainda referi, à laia de desculpa, que estava observando as envolvências, uma vez que não me costumo deter no fulcro. Ninguém me ouviu. Ou quero pensar assim...

A minha historinha

A dona Carminda não estava sentada como é seu costume. Andava em pé, tratando doutro tipo de papeladas e afins. Depois dirigiu-se ao seu lugar e tratámos das transações habituais, que a gente dá-se muito bem nessas andanças.
A dada altura pede-me um 'autógrafo', quer que rubrique a folhinha do depósito bancário. Mal sabe ela que já me estreei nisso de dar autógrafos...
Não sou eu que conto aos amigos que a minha história vai ser editada, é o Luís, ele é que conta. E contou. Logo a seguir o amigo pediu-me um autógrafo, brinca dizendo que um dia vou ser famosa e aquele autógrafo terá um valor imenso. Autografei um guardanapo, brindámos ao meu sucesso com vinho do Porto e tudo. Tudo na base da brincadeira, bem sei, mas mal sabe a dona Carminda...

Acordeão Armando Bugari, 2ª voz

Em tempos toquei acordeão, nunca fui grande tocadora, sequer ultrapassei o básico, mas tocava umas coisitas.
Há dias o acordeão saiu do armário onde se encontrava há anos, a ver se o vendemos, quem sabe se consegue, a internet serve para tanta coisa... O título deste post é propositado, pois assim sendo, alguém chegando aqui através dos motores de busca googleanos, deixe comentário que responderei com o maior prazer.
Mas eu queria, principalmente, realçar uma pequenina questão. Quando retirei o acordeão da caixa e lhe dei colo, raspei os dedos nas teclas redondas e muito juntas tentando lembrar a escala, que é pouco evidente, não muito comparável às teclas dum órgão ou piano. Não lembrava. Fui tocando nas teclas, tocando, tocando. Meio minuto depois a escala estava lembrada na totalidade. Isto do cognitivo e da automatização dos gestos é mesmo algo espantoso.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Azul

Para mim é azul, eu sei que é azul. Mas, se calhar, se vires deste ângulo, será diferente. Experimenta.

Meias de renda

Não quero vestir meias de renda preta, esburacada e pirosa. Nem quero vestir uma saia aos quadrados e uma blusa garrida ao bom estilo dos anos '70, provocando uma visão desigual e ridícula. Não quero ser este misto entre doméstica interna e dona de casa da alta-roda. Esmeradíssima.

Acho incrível a capacidade que o ser humano tem para se deslocar dum extremo ao outro. A dona de casa duma elevada posição social, caso se esmere de sobremaneira, parecerá a sua eventual empregada interna.

Barbies

Duas barbies, mas em moreno. Altas, vistosas e tão aprumadas como só as barbies são. Vem um parvalhão atrás delas, desvairado com tamanha beleza, entra na mesma loja que elas e pergunta se alguma teria perdido um molho de chaves. Elas admiram-se, abrem muito os olhos pintados, a boca aberta como quem se depara com uma enorme surpresa. Dizem que não perderam nada e o bicho fica amarelo e baza. Uma delas exclama:
– Ah, o tipo seguiu-nos, viste?!
A outra faz que sim. Mudam os semblantes. Completamente. Viram-se para mim, a do balcão, noto que sorriem ligeiramente, ainda atordoadas com a lata do estrupício que as seguiu. Vamos ao que interessa: querem um frasquinho vazio. Anuncio que não tenho frasquinhos desses para venda, não costumo ter, não vou ter. Vão ficando como que aborrecidas conforme assimilam a dura realidade. Depois, não podendo fugir, largam as duas um sorriso enorme e dizem quase em uníssono:
– Ok, obrigada!
Logo após, fico livre e desimpedida. E sinto-me estranha, é sempre confuso ver disparidades. Eu gosto mas baralha-me.

O bolo

Fiz um cheesecake lindo. Alto, denso, branco. Era para a rica filha levar para a festa de aniversário duma amiga.
Quando ela regressou da festança contou-me que ninguém comeu o bolo espetacular que eu havia feito com tanto carinho, excetuando ela, que não se privou, não. Fiquei um tanto ou quanto magoada. Ora bolas, eu a ver o bolo maravilhoso ir embora sem poder afilar o dente e no fim das contas... A rica filha também ficou um tanto ou quanto magoada com o desplante, uma vez que já é costume eu prover uma pequena parte da mesa destes comensais e os meus bolos são sempre os primeiros a serem devorados, o que muito a orgulha.

– Ninguém em Loures sabe fazer cheesecake, mãe...

Dizia a rica filha antes do desfecho... Veja-se!

O tempo

Elisabete Maria, a esotérica, fala sempre do estado do tempo, o que deprime o homem da cafetaria. O coitado já não pode ouvi-la falar da chuva e do frio e do solinho e das nuvens e do vento.
Elisabete Maria, a esotérica... Café lá dentro, cigarro cá fora, que a lei é lixada para os dependentes de nicotina. Já os dependentes de cafeína são uns felizardos.

Falar

Uns duma maneira, outros doutra, a verdade é que Deus anda na boca de toda a gente.

Nova leitura

Ora bem, acabado um livro é certo que outro virá. Desta feita virei-me para um que já havia começado a ler: 'O Apicultor', Maxence Fermine.

«Aurélien refletiu e disse:
– Acreditas que se possa viver sete vidas?
O iemenita olhou-o com um ar estranho. Este jovem europeu falava como um velho sábio.
– Não sei. Talvez certas almas tenham necessidade de se construir com o tempo.
– Sete. É um bom número. A sétima vida vale ouro.
– Sim – disse o iemenita. - É também a última para finalmente a enriquecer.
Houve um grande silêncio, apenas perturbado pela música do vento.
– Então – disse Aurélien levantando-se -, é preciso continuar a caminhar mais e mais.
– Não estás cansado?
O apicultor passou a língua nos lábios secos pela sede.
– Não. Eu não estou cansado de viver.

Nessa noite, ao caminhar no deserto, Aurélien teve a intuição de uma coisa que chega na hora da morte: a vida prende-se unicamente à solidez de um fio. Um fio de ouro urdido por dias em que se compreende que a necessidade de sobreviver será sempre mais bela do que o prazer de morrer.
E desejou, com todas as suas forças, continuar agarrado a esse fio.»

Páginas 74, 75

Fim de leitura

Terminei de ler o livro 'Cinderela de saia justa' de Chris Linnares.
Não gostei. Gostei.
Farei figurar primeiro a parte negativa por modo a perdurar a parte positiva na memória do leitor.

Não gostei duma cena dramática e pouco explorada, pareceu-me novelesca demais, irreal. Percebo que a ideia da autora seria eventualmente o leitor não se debruçar muito sobre a tragédia, mas ficou esquisito.
Não gostei da ideia de que para sermos felizes nos temos de concentrar somente no presente, não podemos (devemos) lembrar o passado, sob o estigma do aprisionamento, não podemos (devemos) questionar o futuro. Preocupemo-nos com o presente, apenas, assim viveremos felizes e despreocupados.
Posso dizer que compreendo este ponto de vista, vá, mas chateia-me, eu que gosto tanto de recordar e questionar...

Gostei do facto de ser um livro de autoajuda que contém uma história ao redor dos ensinamentos de bem viver. Gostei da analogia com a história da Cinderela, acho que foi bem conseguida, é realmente uma forma de encararmos a vida real, mesmo que nos baseemos em fantasias.


A forra do livro...

Da primavera

Hoje há uma chuva que não abala, faz lembrar o outono. Não fossem os campos branquinhos, amarelinhos, vermelhinhos, lilasinhos e verdinhos, ou não fosse o cheirinho a pólenes e clorofila e diria que sim, diria que é o outono. Mas não. É a primavera que predomina, ora pois. A natureza é cá duma perfeição... Tão infalível quanto imprevisível.

Ah...



Ela gosta de sentir as formas do seu corpo sob as mãos dele.

Ele gosta de sentir as mãos sobre as formas do corpo dela.

Cognominar

Acerca de nomes:
Assim de repente Antonieta Perpétua é um nome giro e parece-me bem. Porém, melhor será não estacar o olhar muito tempo em cima da dupla tão sui generis...

domingo, 6 de maio de 2012

Dia da Mãe

Feliz dia das Mães.
Ás mães, às filhas, às mães que são filhas, às mães que foram filhas. E às filhas que são só filhas. E aos filhos, claro. E aos pais, já agora. Feliz dia a todos e pronto!

Imagem descaradamente surripiada ao Google

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ah se eu fosse poeta!

Se eu fosse poeta hoje teria feito um belo poema, cheio de tristezas, mas belo. Assim, resta-me a prosa, na qual me espojo, sem que consiga despojar as mágoas.

Dias de um ginásio

Grande brecha. Voltar à rotina é preciso. É melhor retornar á vidinha que considero normal, mesmo que a desconheça completamente.

Duas histórias da minha mãe

Uma figura da minha infância

Havia certos aviamentos que a minha mãe não ia à rua comprar, esperava pelo barateiro, o homem da carripana carregada com elásticos, botões, fechos, agulhas, linhas e talvez outros artigos que não recordo. Chegava ao beco e apitava como que avisando da presença, talvez, também não recordo. A minha mãe aparecia e cumprimentavam-se com um aperto de mão e diziam 'a paz do Senhor'. A mim também me era dirigido um cumprimento natural de pessoa adulta para criança, em calhando dizia-me que eu estava mais crescida desde a última vez. E eu ficava a mirar e remirar todo o conteúdo da carripana, aquele homem era um adulto que me deixava descontraída.
O irmão Barata era crente evangélico e a minha mãe havia sido em tempos, o cumprimento habitual continuava, não sei porquê. Depois da compra e venda efetuadas, ficavam um bocadinho a conversar das coisas de Deus, lembro-me de uma espécie de admoestação, simples e sem condenações de espécie nenhuma, da admiração que a minha mãe sentia em relação a este senhor calmo e sereno, detentor de uma expressão facial muito apaziguada, como se nenhuma tempestade fosse forte o suficiente para o abalar. Há pessoas assim, felizmente.
Houve uma altura em que íamos a casa deste irmão, a minha mãe sempre foi aquele género de pessoa visitante, cria saudades facilmente, gosta de rever.
Numa das paredes da casa havia um calendário daqueles que se arranca a folhinha diariamente contendo um pequeno versículo bíblico e um breve desenvolvimento. O primeiro sítio onde o meu olhar pousava era nesse calendário, nunca o encontrei fora da data corrente...
Uma coisa que nunca percebi: a minha mãe chamava-lhe barateiro por causa do nome Barata, ou seria ao contrário?

O cobertorinho

No início a minha mãe vinha-me ajudar a fazer a cama. Primeiro as fronhas, uma para cada uma de nós. Depois lançávamos os lençóis. Estendíamo-los, esticávamo-los e dobrávamo-los por baixo do colchão. Um e outro. A dobra do segundo muito direita para ficar uma cama bem-feita (que a minha cunhada era uma mulher que fazia uma cama muito bem-feita).
Quando chegava a vez do cobertor é que eram elas... O raio do cobertorinho era quase quadrado, difícil encontrar-lhe o preceito. Mas a minha mãe conhecia-lhe a manha, era assim, com as cornucópias apontando para ali, formando determinado desenho.
«Estás a ver que é assim, filha?»
Na hora, quando me apercebia do preceito da minha mãe, via o quanto era fácil.
«Ah, então é assim.»
Pensava eu. Mas não dizia nada. Talvez sorrisse. O sorriso ilude o próprio e os presentes.
Entretanto a minha mãe deixou de me ajudar, agora vejo-me sozinha com o estender na minha casa em geral. Nunca sei para que lado são as cornocópias do cobertorinho... Fixo depois de lhe adivinhar o preceito. Adivinho porque vou às apalpadelas, só há duas hipóteses, e não é costume acertar à primeira. Quando apanho o cobertorinho estendido a preceito, sou capaz de fixar. «Hum, ok, as cornocópias são para ali...» Para dois minutos depois me esquecer completamente e tudo retornar na próxima vez.