quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Simplicidade

Não sou simples. Não gosto de coisas simples. Mas descanso nas coisas simples, por vezes - as árvores, as flores, os passarinhos, a brisa, as nuvens...
Quando isso acontece é porque quero deixar a minha complexidade humana lá longe e assemelhar-me a um passarinho ou uma nuvem, talvez por serem sinónimo de liberdade. E acabo por encontrar outra complexidade por causa de uma impossibilidade.
Continuarei complicada, portanto. É melhor. Porque de complicada não passarei.

Ondulação

Para que se veja que eu ando à deriva:
  • Ontem eram onze e meia quando almocei
  • Hoje e agora, são duas e meia e ainda não almocei

Alívio

Ir para ali ou ficar aqui é igual ao litro.

Fazer isto ou aquilo não vai dar em nada.

Não me apetece fazer porra nenhuma!

Ainda bem que não tenho nenhuma porra para fazer!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Invencionice

Sai de casa aperaltada, fresca e saltitante. Oferece uma visão desconexa - colorida, suave, doce. Parece uma taça de morangos com natas e açúcar às carradas... que se nos apresenta numa esplanada em tarde de chumbo - fria, cinzenta, compacta.
A cabeleira é loura e bem penteada, um véu de seda platinada que lhe dá pelos ombros, reflecte uma luz que incide no meu olhar, toldando-me a vista. Enverga umas calças com padrão animalesco, um top branco justinho e cruzado em cima do peito. Combinação de grande relevo, esta. As sandálias são feitas de tecido bege com uma flor em cima do peito do pé. São pomposamente lindas! Completando o visual carrega consigo um conjunto completo de bijutaria descomunal e dourada. A maquilhagem está fora da tonalidade certa, carrega-lhe a expressão fazendo-a parecer velha e impressiva.
Entra na igreja quando o ofício já conta 15 minutos - atrasos são já seu costume desde uma data lá longe. A sua passagem cria furor. Uma cabeleira daquelas é de prender a atenção de qualquer um, mesmo daqueles que estão num lugar de estar com e em reverência.
No púlpito, dirigentes instruídos e cientes do seu dever dão andamento ao ofício usando como ferramenta espiritual toda aquela paleta de vidas e sentires, como se pau de modelar fossem. A vida pulsa no salão. Há calor humano. Há amor e tudo é harmonioso e de bem com a vida. A vida espiritual e a vida racional comungam do mesmo querer. Reina ali a mesma vontade. O calor aumenta. A música enche os ouvidos e transborda. Todos juntos parecem uma só pessoa. Unem-se. Dão as mãos... ah como é bom!... Que deleite!...
Ela está lá. Faz parte de um todo. Daquele todo. O que vejo desafina. Está fora de tom. Não, não está. Sou eu que não me encontro naquele lugar. Tenho vontade de chorar e quero ir-me embora porque sei o que sinto mas não sei o que sentir.


Adenda:
A partir de um momento sem mais significação que a que se encontra escrita acima, inventei. Escrevi um texto inventado mas é porque existe o que escrevi que consegui inventar.

Nota de rodapé:
Eu acredito em Deus mas não acredito nas pessoas porque sei o mal que sou.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Como se de desafio se tratasse...

Pior que saber que falam mal de mim de portas fechadas ou acertarem-me com olhares envesgados, é ser completamente ignorada.
Falem mal mas falem.
E desdenhem.
Não me poupem.
Eu até gosto.
É desafiante.

Ovos, preços e medidas

Fui à mercearia do sítio comprar ovos e reparei que os havia de dois preços. Perguntei a que se devia a diferença de preço e a rapariga encolheu os ombros e não abriu a boca para me responder, aparentemente não sabia. Atirei para o ar um 'se calhar a diferença é por causa do tamanho' porque entretanto reparara nisso. Ela mandou-me de volta um 'sim' sumidinho.

A próxima vez que um cliente me perguntar qual é a diferença entre as medidas uma polegada e meia e trinta e oito milímetros, vou encolher os ombros. Quero ver se me safo tão bem quanto ela.

O tempo

Serve para muito. Serve para tanto que... serve para tudo.

Serve para fazer conversa quando falta assunto. É abusiva e erradamente usado para parecer que se diz coisas interessantes. Já agora - o tempo hoje está magnífico!...

Serve para apagar as tristezas. Para que o passado se distancie tornando tudo mais facilmente insuportável. O tempo é a bendita existência que tudo apaga...

Serve para passar quando não se faz nada. Mesmo vivendo imersa nesta ociosidade em estado líquido, ele está presente. O tempo vai passando...

Serve para contar o que ainda falta e o que já passou. Contam-se os dias através do tempo...

Serve para esquecer. Há aquilo que não poderei escrever porque não me lembro. Já não vou a tempo...

Serve para mudar. Houve tempo que eu pensava assim, era aquilo e pensava que estava bem. Hoje sei que nunca estarei bem e é por saber que não estou mal, que vou querer mudar no tempo que ainda me falta...

Serve para descobrir. O tempo chegou até aqui e eu sei o que não sabia ontem...

domingo, 9 de novembro de 2008

Ócio

O melhor do descanso em que agora vivo é hoje e agora ser Domingo à noite... e eu saber que amanhã não tenho que ir trabalhar...
Ai que bom!

Ócio:

vagar;
repouso;
lazer;
descanso;
estado de quem não faz nada;
preguiça.


Busquei ajuda para este post aqui


Para matar as saudades...


...hoje o dia cheira a Verão.

É Natal?

Não. Mas o consumismo já chegou.

sábado, 8 de novembro de 2008

pontos resplandecentes de positividade

ponto respalndecente de positividade número um

no jogo de hoje o rico filho marcou três golos

ponto resplandecente de positividade número dois

o peixe no forno estava extraordinário

ponto resplandecente de postividade número três

não choveu

ah...! a vida corre-me bem...!

Que penso eu...



O génio dominante anda aqui em volta.
Quer convencer-me que nasci para ser feliz.



Vibração

A batedeira vibrava na minha mão enquanto batia o bolo e eu lembrei-me de há quanto tempo não sinto algo vibrar nas minhas mãos - o volante do meu popózinho...

Ai que sódades!!!

Estendal

Finalmente achei alguma utilidade no candeeiro de pé alto que está na minha sala!
Fora isso, achei também um modo fácil e rápido de estender a roupa quando está de chuva.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Os dicionários são amigos

O senhor José da livraria ligou-me a dizer que já lá estava o livro de Português (finalmente) da rica filha.
Quando lá cheguei disse-me que só tinha arranjado dois e que tinha muita gente à espera desse livro mas como eu lhe tinha comprado todos os livros escolares dos ricos filhos, lembrou-se de mim em primeiro lugar. Pois muito bem, fiquei contente.
Enquanto a menina Carlota trocava umas palavrinhas comigo e facturava o livro, agradeci:
- Obrigada pela deferência.
Ficaram os dois a olhar para mim, sérios e suspensos no ar por qualquer coisa que eu não conseguia ver. Ainda passou pela minha mente insigne que 'deferência' talvez (quem sabe... se calhar... possivelmente...) não correspondia de todo ao que eu queria dizer. Porém, esse instante foi não mais que um instante perecível e efémero - eu sabia que estava certa.

Segue conselho dirigido ao senhor José e à menina Carlota:

Aconselho-vos ardentemente a criarem um blogue. Porque um blogue dá conta do crânio, sim senhor... e tira tempo, ah tira... mas também aumenta consideravelmente o vocabulário. Isto, porque a malta (eu) para não escrever sempre as mesmas coisas, vai à procura por esses dicionários online fora. Onde é que raio acham que fui buscar a 'mente insigne' e o 'perecível e efémero'?
Para além do mais, eu própria desde que tenho um blogue, nunca mais fiquei sisuda e pendurada por algo, depois de ouvir alguém articular (vêem?... cá está outra palavra de fazer suspender no ar por vários minutos qualquer um) a palavra 'deferência'...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Relato

Saí de casa e tenho coisas para contar.
Abri a porta do elevador e dei de caras com a habitante mais castiça e popular deste prédio. Pregou um salto enorme assim que me viu o que me levou a pensar:
'Olá...! Que é isto...? Esqueci-me de mirar a minha fuça no elevador... será que hoje acordei assustadoramente feia?'
Voltando à habitante castiça e popular, depois de aterrar do salto que pregou, entornou sorrisos de um amarelo incomparável a coisa alguma, e à laia de desculpa por eu hoje estar feia - que não é de todo habitual, diga-se - exclamou:
- Ai que susto! É que eu vinha aqui a fungar por causa da minha gripe e assustei-me!
Despejei o 'Olá boa tarde!' lilás pôr-do-sol e o 'Bem, obrigada!' escarlate melancia e em complemento exibi o sorriso número catorze que tenho arrumadinhos por cores e por números na minha cabeça para pessoas e/ou ocasiões deste género... e pensei:
'Hum... então ela não se assustou com o meu aspecto e sim com a fungadela. Ufa! Que alívio!'
Na volta mirei-me no espelho do elevador. Não há qualquer problema comigo, continuo tão gira como ontem. Mas é preciso ter cuidado, andam por aí umas fungadelas que assustam as pessoas...

Visto daqui

Daqui vejo o rico filho. Vem da escola, acompanham-no dois miúdos da idade dele. Vai chegando no seu passo presumivelmente vagaroso, pois não anda devagar. Noto-lhe cansaço no andar.
Traz o casaco às costas como se estivesse muito calor... ai esta juventude! Com o raio do casaco ensaia uma dança desajeitada e sem cadência. Pobre casaco... quase o ouço gritar de exaustão e de dor quando varre o chão da rua.
Um dos miúdos seguiu outro rumo. Despedem-se dando um passou-bem à homem. E eu a achar que são miúdos!... Ai ai, suspiro eu.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Este dia

De manhã:
Uma janela que mostra uma manhã chuvosa, um sofá, um cobertor, uma caneca de chá aromaticamente fumegante e um filme giro... é um conjunto agradável a quem tem que ficar em casa.

Mas à tarde:
Uma janela através da qual se vê uma paisagem fria mas solarenga num céu quase sem nuvens, uma luminosidade terrivelmente apelativa, pessoas a passear a pé ou de carro e esta vontade indómita que sinto em sair de casa... são condições incompatíveis com a razão.

Vou outro dia.

Deturpação... pensando melhor:
Análise!

"Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas."

Óscar Wilde, pensou, disse e escreveu


Estamos todos na merda mas alguns exalam um delicado perfume.

Gina, pensou e sem dizer escreveu

Espantalho

Lembro-me a mim própria o espantalho que o Zé do Milharal punha lá horta para espantar os pássaros. Eu sou assim - um espantalho daqueles mesmo espantosos!