sexta-feira, 4 de maio de 2012

A minha mãe

À semelhança do que fiz no Dia do Pai enviando uma história para o blogue 'Fábrica de Histórias', o post seguinte fala da minha mãe. Não queria deixar nenhum dos meus progenitores de fora. Se por um lado me é mais aprazível escrever sobre o meu pai, por me identificar mais com a sua personalidade, a verdade é que a minha mãe me dá mais motes para escrever, e creio que no blogue a minha mãe 'existe' mais que o meu pai.
Mas seja lá como for, este é um post que precede um que já está previamente preparado e que vai já a seguir. Só quero registar que achei por bem republicar duas histórias da minha mãe, não dentro do costume romântico que sempre envolve este dia, mas sim histórias banais de gente normal, a minha gente.

Um lugar vago

O lugar para estacionar o carro pode estar destinado.
Se aquele homem ali não tem estacionado antes.
Se eu não tenho parado no meio da estrada para o cumprimentar.
Se eu não tenho apanhado o sinal vermelho.
Não teria chegado no momento exato de ver sair um carro de marcha atrás.
Não teria um lugar vago na rua.

Diz que não há coincidências, que é o destino quem manda nas nossas vidas. Mas isso são as mentes sonhadoras, as que procuram acreditar em algo que não se vê, ou as que deixam reservas por causa dum fator ou outro inexplicável e que sempre nos enfrentarão. Sou mais adepta da coincidência, da matemática, muito embora me insira mais nas letras. Se calhar confundo os números com as letras, o destino com as coincidências. Porém, estes últimos ligam-se, encaixam-se, no fundo são sinónimos.

Nota: texto apresentado no blogue 'Fábrica de letras' sob o tema 'Destino'.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Simultâneo

Enquanto o Nuno Markl anunciava no radio o desejo de se chamar Nunoooooooooooooooo, porque acho que tem a ver com o tamanho do sexo, ou lá que é, a dona Marília aconselhava-me, ou ordenava-me por assim dizer, a não deixar de ser gira, nunca.

Identidade

Tinha de assentar a conta da dona Odete e pensando na melhor maneira de a identificar, lembrei-me:

«Dona Odete, a desdentada, a que profere a 'porra!' a cada final de frase.»

Lembrei-me, apenas isso, há algumas coisitas que não chego a escrever em alguns lugares.

Ver e outros verbos


- Olhe, eu queria aqui umas coisinhas destas... Posso ver?

- Pode. Pode ver, pode mexer, pode comprar...

Que cena!

Queria lampelas fulescentes, e ainda por cima salivava um bocado. Com os ésses das lampelas fulescentes já se está a ver... A sério que às vezes não sei onde vou buscar tanto sangue frio. Credo, oh céus, ó mê guê!

A voz

(Não, não vou escrever do Frank Sinatra)

Esteve aqui uma senhora com o papelinho da reforma para fotocopiar. Já percebi que agora é preciso preencher de novo um impresso com os dados mais básicos dos utentes, coisa que já não se via há uns anos.
Tinha uma voz (daí o título) muito peculiar, parecia uma voz de alguém muito habituado a fazer uso dela em pleno. Era profunda, grave, dominante, rara. Fazia lembrar a voz da atriz Emma Thompson.
Pediu-me licença para preencher o papel em cima do balcão. Anuí. Faz o gesto de quem vai começar a escrevinhar mas leva as mãos à cabeça, diz que lhe está a dar uma branca, não se lembra em o ano em que estamos. Ajudo verbalmente: 2012. Bem sei que me podia oferecer para escrever mas nem sempre esse tipo de atitude é bem tolerado, há velhos que se sentem diminuídos com as atenções, e eu nunca tinha visto esta senhora, logo, não sabia com o que contar.
Começou a parecer-me que ela estava rente ao desvario e fiquei expectante. Entretanto ela segura na caneta com uma postura guerreira, mas fraca, debilitada, e uma enorme vontade de mandar as brancas embora, agarrando-se à réstia de racionalidade que ainda sentia. Escreveu 2/12. Assim, tal e qual: 2/12. Não a corrigi, sentia-me desconfortável.
O que mais me impressionou neste pequeno episódio foi o contraste entre a voz dela e a sua insegurança, é que não tinham nada a ver. Mesmo.

Dias de um ginásio

Devido a uma história que até era giro um dia contar, hoje não fui ao ginásio. Mas vou contar que estou muito dorida, numa larga escala, tanto que me sinto doente. Pareço uma morta-viva, estou coxa, inclusive, e durante o dia custou-me horrores subir o escadote ou simples degraus, bem como fazer tudo com o que habitualmente me ocupo.
Adiante.
Tenho um andar novo, é o que é, faço-me lembrar aquela que mora aqui na rua e tem uma irmã gémea que anda muito devagar, o corpo hirto, aparentando ter a mania que é boa, por isso anda assim, como eu. Eu também tenho a mania que sou boa, só por dizer que não tenho (tinha!) um andar assim.

Números

Eu tinha 17 anos e envergava um casaco rosa curtinho, com ombros largos e chumaços altos, grande moda nos anos '80, e uma saia aos quadrados em que pelo menos uma das cores era a mesma do casaco. Fui eu que fiz, o casaco e a saia, andava a aprender a costura nessa época, o casaco até tinha um dos bicos um bocadinho imperfeito, que eu bem me lembro.
Tinha 17 anos, trabalhava em Lisboa, num atelier pouco importante numa zona de baixa condição social. Não era feliz nem infeliz. Tal como ouvi há dias alguém dizer: era feliz como uma rapariga pode e sabe sê-lo, e era infeliz como só uma rapariga pode e sabe sê-lo.
Naquele dia, 26 de abril de 1986, sábado à tarde, tudo mudou. Casualidades, destino, coincidências... Não sei. Mas mudou a minha vida. Para melhor, devo acrescentar, não se vá já pensar que estou a fazer queixinhas da minha vidinha facilitada e cheia de coisinhas boas daquelas que toda a gente cobiça.

O rico filho tem 17 anos, eu também tinha, o que significa que há 26 anos que isto aconteceu, uma vez que era a idade que eu tinha quando ele nasceu.
É este o meu fascínio pelos números, a vida é matemática e coincidências, só passa daí porque a gente quer.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A porteira

A porteira do número 11 já morreu. Noutro dia fiz-lhe referência num post mas ela já morreu vai para 3 anos. Deixou um viúvo. Pacato, o bicho. Só fala o que tem na vontade e no entanto no seu semblante paira sempre um sorriso. É pacato e estranho, vem aqui comprar as coisinhas aos pares, ou às quatro e às cinco peças quando a irmã lhe vem fazer a limpeza da casa.

Pausas

Agora ando nisto de não escrever aos sábados, domingos e feriados, ficar calada e tranquila, a criatividade inerte, mas pairando dentro da minha cabeça, vivendo como uma pessoa normal, uma pessoa daquelas que não tem um blogue, quero eu dizer. É uma espécie de teimosia, ou lá que é. Talvez me esteja a aprumar, quiçá, não escrevendo as banalidades do lar, que isto de escrever banalidades também há que as selecionar. E as de casa são mesmo banais, sem grandes peculiaridades, tanto que roçam o ridículo.
Posto isto, deixo os meus rascunhos sossegados à sexta-feira à noite para só lhes mexer na segunda-feira de manhã.
Um dia escrevi acerca da hora sexual no trabalho, que um amigo meu diz que a hora sexual no trabalho é aquela onde se fode minutos ao patrão. Pois bem, é isso o que faço, é aqui que gosto mais de escrever, dá-me muito prazer foder minutos que a bem dizer não me pertencem, é bem melhor do que fodê-los em casa. Ou então é a musa, ou lá que é, que apenas desce neste lugar misterioso, isto se eu quiser apresentar a situação como sendo algo poética e essas coisas bonitas de se escrever.
Mas um dia isto muda, que eu cá nunca tenho nada como certo. Conquanto não se mude a musa, não desapareça de vez...

Elas

Há uma esotérica na minha vida.
Há uma paranormal na minha vida.
Desta última conheço também alguns hábitos e questiúnculas. Bebe um cafezinho às cinco e picos da tarde, enverga saias compridas impreterivelmente, tem um carro alemão no qual agarra pouco depois de beber o dito café e contar as novidades à dona Filomena, a senhora da cafetaria. O único senão é que ignoro qual a sua profissão. Mas fica assim: paranormal, que me convém alargar o leque e ademais fica superinteressante.

Nomes

Gerardina era o nome da mãe do senhor Vicente, que não se chama Vicente e que nunca fixou o meu nome porque me chama menina Alice há dezoito anos. Chamavam Gina à Gerardina, curiosamente...

Hum...

Esteve aqui uma senhora que anunciou ter sido operada às patas há uns anos e que se deu muito bem com isso, ficou porreira e coiso, melhorou e tal.
A partir de hoje não terá a menor piada eu dizer que sou uma besta...

Atualidade noticiosa

Depois do Ferrari partido ao meio com morte imediata do condutor; do choque entre duas carruagens na linha de Cascais e do minitornado no sul do país... Bye bye Pingo Doce e seus descontos de 50% e o caraças.

A minha historinha

É propositado o facto de ainda não ter mencionado o nome da editora (e respetivos contactos) através da qual vai ser publicada a coletânea onde figurará a minha história, dentre outras oitenta e nove histórias. Tenho medo que algo não funcione, se tiver de manifestar desagrado, ao menos que não se saibam nomes.
Quando recebi a notícia fiquei toda maluca mas rapidamente assentei as ideias, sei que ninguém dá nada a ninguém e tudo, seja lá o que for, tem um preço. Para mim o pior é a revisão do texto, tenho muito medo que não me agrade caso façam alterações, e ainda não mo enviaram para eu descansar e dizer para mim mesma: 'vamos a isto!'
Até agora sei o seguinte:
vai constar o título do meu blogue junto ao meu nome;
os nomes dos meus 'colegas' e os títulos das suas histórias (tenho muita vontade de lê-las, bem como os blogues ou páginas pessoais);
o título da coletânea;
o preço de cada exemplar.

Falta saber o resto...

Rock

Baseada na publicidade que se ouve na radio, perguntei ao meu colega se já tinha rockin-rido. Ele diz que só rockin-chora, caso se lembre que é cliente do banco tal. É que nem a dona Carminda lhe vale...

Maio e os aguaceiros

Olha só o almeida, como está aborrecido, falando para o ar, talvez ignorando a minha presença não muito longe dali:

- Tira o capote, começa a chover, veste o capote, para de chover... Foda-se!

Assédio

A cigana voltou à carga. Não lhe tinha saudades, não.

Ó menina bonita!

Menina? Ná... Bonita?! Hum, isto não é comigo.

Ó menina bonita do baú!

Baú?! A minha mala não é nenhum baú, isto não pode ser comigo.

Ó menina bonita do casaco vermelho!

Ah, sou eu! Sou mesmo eu! É comigo! Eu tenho um casaco vermelho.

Viro-me.

Pois é, é consigo, pois, menina bonita é consigo!

Diz ela com maus modos, como se eu a tivesse ofendido gravemente. Repondo sem medos:

Ah pois, bonita pelas costas, ?

Torno a virar-me e sigo. Que vá dar banho ao cão, ora que porra! Ainda por cima se faz de pobre ofendida...
Não tenho vontade de tirar fotografias há que tempos. As poucas que têm aparecido são impulsionadas pelas circunstâncias, como é o caso do post anterior. Ainda assim vou publicar as últimas fotos que tirei com vontade de as publicar e que entretanto não publiquei. Quero que fiquem registadas, o senhor Blogspot se encarregará de as manter vivas na internet e o mestre Picasa idem. São fotos coloridas e sem grande abrangência, dum domingo não muito distante do dia corrente. São fotos, ponto final.



Loures, 22 de abril de 2012