segunda-feira, 5 de julho de 2010

O monumento


O Cristo-Rei ostenta um grande letreiro onde se lê: 'Obrigado'.
Mesmo crendo eu que aquilo ali está porque as pessoas na sua boa fé (ou então má, sei lá!) querem agradecer à figura as coisas boas que lhe proporciona, cada vez que bato lá com os olhos apenas me parece que o letreiro é o Cristo de braços abertos a agradecer que olhemos para ele e não as pessoas a agradecer-lhe as tais coisas boas.


Achados


Achei uma argola de ouro. Em vindo o tempo das vacas magras dará para dois ou três litros de leite.
Achei uma moeda de dois euros. Só que, para meu horror e auto-comiseração, era de plástico, nada valendo, portanto.
Há quem ande de cornos no ar mas eu cá ando com os meus voltados para baixo e depois acho coisas.


Os colegas


Lá vinha o homem naquela figura do costume: maltrapilho, sujo e desarranjado. O cabelo enorme e espetado para os lados faz-me lembrar o penteado do palhaço do McDonald’s.
Ao se aproximar, o homem parecia mesmo que vinha direito à gente e eu começo a ficar com receio de qualquer coisa estranha porque ele é maluco, não tem os cinco bem medidos. Mais um, pois. Mas a minha companhia do momento diz que não, que não me apoquente, não há problema, o homem foi colega do Ventura. A pergunta normal seria: 'O que é que isso tem a ver?' mas em vez disso dei lugar ao espanto:
- Quê, ele foi colega do Ventura?! A sério?!
O tempo passa e as pessoas apuram-se, revelam-se. Quem diria, o sô Ventura, um homem de ar reservado mas seguro, dono de uma formalidade que de vez em quando ele deixa que seja abafada por pequenas porções de loucura, foi colega de um gajo qualquer que é doido varrido e anda pelas ruas mal trajado e indecente. Descombinam pelo oposto.
Aqui o remate final seria: 'É a vida!'. Mas essa frase já está cheia de nódoas negras de tão batida.


Ultimamente...


... Só escrevo acerca de velhos. Isto da idade...

Saudade


Tenho saudades de ver o senhor Rodrigues e também de escrever acerca dele. Soube há dias que estava internado no hospital, veio depois a notícia de que se encontrava em coma. Pensei: pronto, é agora. Mas esta manhã chegou a notícia de que havia saído do coma. Afinal... mais dia, menos dia já ele anda aí a moer-me o juízo até me fazer escrever.


O móvel antigo e outras coisas


Era da avó do sô Marquez e agora é dele. Se o sô Marquez anda pelos setentas, o móvel não deve ser mais novo, antes pelo contrário.
Tenho pena que a fotografia não revele o porte do móvel mas é o que se arranja.



Entretanto, espreitei as traseiras do sô Marquez e mandei um olá ao senhor Rodrigues, só por dizer que ele nem respondeu.



Tic-tic


Ouço o barulho cadenciado da bengala a bater na calçada. Tic... Tic... Tic...
É talvez incrível como este som me lembra as mais diversas pessoas. Tanto pode ser a dona Petra, como o Fernando, ou o homem que pede: 'quem é que me dá uma esmolinha?', ou o Carlinhos, ou ainda o homem do tambor.
Se calhar até nem há assim tanta diversidade, afinal de contas só fiz referência a um tipo de pessoa: coxos. Coxos que são coxos porque estão velhos.


Nome completo


Falava-se em nomes. Um jovem que já conheço há bastante tempo e que já quase faz parte da família disse-me que sabia o meu nome completo. Então diz lá, piquei-o eu e ele realmente disse todo o meu nome sem falhar. Não sabe como nem porquê mas decorou-o. Fiz grande espanto, não estava nada à espera daquilo.
A rica filha que ouvia a conversa, vendo o meu espanto diz em ar de gozo: 'Pronto mãe, podes pôr isto no teu blogue...'

Obedeci.


domingo, 4 de julho de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (67)



Uma varanda criativa. Foi o que alguém lhe chamou e eu acho que chamou bem.

Costa de Caparica, 4 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (66)




Gato em caminha de folhas e flores. Acabei por acordá-lo mas não era o que eu queria. O que eu queria era apanhá-lo mesmo a dormir. Não consegui, paciência. Mesmo assim gostei de tê-lo a olhar para mim com aquele ar de ' que é que esta quer agora?'.

Loures - Rua João Fandango, 3 de julho de 2010


Notícias do Mundial


  • Meias finais: a Espanha vai jogar contra a Alemanha e vice-versa. E o Uruguai defronta a Holanda e vice-versa.

Nota: estes posts do Mundial estão a ficar cada vez mais pequeninos...


?!




- Há já tanto tempo que a vi com esses brincos, ainda tem 41 anos?

- Hum-hum, por enquanto!

Forra




- Mãe, forras os livros porque tens vergonha que vejam o livro que andas a ler?
- Não filha, forro os livros para não se estragarem enquanto andam aos trambolhões na mala...

E também escrevo 'É aqui!' para abrir o livro correctamente, porque se assim não fizer é certinho e direitinho que o abro ao contrário.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (65)




Fui-lhe entregar umas coisas a casa e, sabendo de antemão que a vista é bonita, perguntei-lhe se me deixava tirar fotografias. Deixou, claro que deixou, ficou até muito agradada, era como se a minha atenção para com as vistas que eu queria captar para recordar fosse para com ela. Depois mostrou-me a casa. Movia-se devagar, agarrada aos moveis e encostada às paredes. Perguntei-lhe a idade, 96 anos de vida cumpridos o mês passado.
Cliquei e cliquei sobre a vista mas também me fartei de clicar dentro de casa. Escolhi esta fotografia porque a boneca é muito antiga, ou talvez porque todo o conjunto tem um certo ar de velho, usado e bem conservado, o que na minha opinião é algo dificílimo de conseguir. E também porque mostra a horas e eu tenho uma coisa qualquer especial, ou esquisita, com relógios e o tempo a passar e essas coisas.
Ultimamente tenho tido cada vez menos pudor em aqui mostrar partes de casas de algumas pessoas, normalmente clientes, porque acho que a maioria, se não todas, vindo a saber da minha actividade de escrever para o mundo ler não se importariam nem um pouco de aqui verem a sua casa retratada.

Lisboa - Rua Rosa Damasceno, 2 de julho de 2010


Ai tão caro!


'Caro' é palavra para nunca se pronunciar atrás de um balcão. Espanta a caça.


Tanto!


Uma velha senhora pediu-me benzina e quando lha pus em cima do balcão jogou as mãos à cabeça:
- Não tem um frasquinho mais pequenino?
Respondi que não e ela brinca dizendo que o resto da benzina alguém há-de herdar e que a família ainda há-de andar à pancada por causa da herança.


Telefonema


Agarro no telefone e digito o número que pretendo. Enquanto aguardo que atendam o meu pensamento voa para longe dali. Quando finalmente me respondem do lado de lá estou três segundos sem me lembrar com queria falar... Estou a ficar senil.


O seis, o quatro, o quatro e o seis


Dois cotas recordavam os anos que há que se conhecem no bairro.
- Fez ontem 64 anos que vim trabalhar para aqui - Dizia um.
- E eu fez dia 1 de abril - Dizia a outra.
Depois o primeiro duvidou da segunda, ela tinha vindo era há 46 anos e não 64, para logo de seguida a cota já irritada com a dúvida ripostar não, não, não, há 64!

No fim disto tudo, em 1946 (lá está o 46...), há 64 anos atrás, chegaram ao bairro dois jovens na casa dos vinte. Ele em 1 de julho, ela em 1 de abril.


Notícias do Mundial


  • Foi agora a vez do Brasil out. Ninguém estava à espera mas lá foram. Desde que Portugal abandonou o mundial a festa ficou muito apagada, agora então...


  • As vuvuzelas fizeram-se ouvir a seguir ao segundo golo da Holanda. É estranho...


  • Assim de repente nada mais tenho a acresecentar. Até parece que também para mim isto perdeu toda a piada, eu que nem ligo muito a futebol...


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma fotografia por dia que bem iria... (64)




Esta fotografia foi tirada ontem, o último dia do primeiro semestre de 2010 e fica aqui numa espécie de boas vindas ao segundo semestre deste ano.
Há coisas fantásticas, não há? Um feto que renasce numa teimosia tão própria da natureza, mesmo uma natureza que esteja rodeada de cimento, no coração da cidade mais bela do mundo - Lisboa.

Lisboa escondida, 30 de junho de 2010