domingo, 26 de junho de 2011

Poema

Falava-se de loucura, personalidades intensas e genialidade. Lê a 'Tabacaria' de Fernando Pessoa, disse ele. Assim fiz. E fiz mais...

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos



Fonte:  Poemas de Pessoa

Cheguei das férias!







Ao princípio não me parecia nada estar de férias... estas férias não estavam no programa, foram completamente inesperdadas. Mas foi bom, claro que sim. Houve riso, conversa, sardinhas, sangria e outras coisas. Descanso, por exemplo. E andei de bicicleta, eu que não me sentava num selim há alguns anos. Andar de bicicleta é daquelas coisas que nunca esquecemos...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vou ali e já cá venho

Loulé, 6 de Junho de 2011


Tenho andado com enorme dificuldade em encontrar as palavras adequadas para escrever. Estou certa que não se nota nada, porém. Sou mesmo boa a esconder as coisas...

E agora, a propósito de nada, deixo a notícia: vou passear, conversar e comer sardinhas assadas ali para os lados dos templários. Se lá encontrar um desses espécimes faço-lhe umas perguntinhas, que é coisa que nunca me aborrece. Até um dia desses.

A escrita desengraçada é fácil de criar

À porta: «Bom-dia, minha senhora, diga-me só: esta rua tem parquímetro?»

Na bicha: «'Pera aí, anda cá. Ficamos aqui ao pé desta senhora.»

Na esteticista: «Morda o lábio assim, senhora Gina.»

Ao balcão: «Ó dona, quanto é a megafina?»

A senhora, a senhora Gina e a dona... sou eu. Vejo nisto um tiquinho de interesse, um pequenino vislumbre, um realcezinho de graciosidade, uma centelha fugaz. O que mais não é do que egocentrismo. Daquele puro.

Hora local - 21:10

Loures, 21 de Junho de 2011

O solestício foi ontem, eu sei.
Ontem não tive tempo para fazer blogues.
A fotografia é uma mentira, trabalhei-a de modo a parecer calorosa. Já que o Verão é sinónimo de calor...

Ai!

Mordi uma ameixa dura. Não, não é erro de digitação, eu queria mesmo escrever dura, não madura, e vai já perceber-se: desloquei o maxilar.

De bengala

Uma senhora, não se contentando com o 'olá, está boa?' habitual, parou abruptamente, apoiando-se menos mal na bengala. Queria saber da minha família, se estava tudo bem. Achei curioso que uma mulher titubeante em cima de uma bengala se mostrasse tão interessada – e um nadinha duvidosa - na minha saúde familiar, quando metade da malta cá de casa é composta por juventude cheia de saúde e vigor e a outra metade encontra-se apta a cem por cento. Muito diferente da dita, portanto.
Ou então era só simpatia, eu é que tenho a mania de pensar...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A mística do desconforto

O sal do mar a picar na pele.
O espremer borbulhas.
O calafrio interno quando estou triste.
A inquietação após o exercício.
A dor de cabeça ao adormecer.

A mística do desconforto... Fui eu que inventei. Aplausos, vá.

'A mística do desconforto'. É o título do meu próximo post. Ver acima, por favor.

Naturalmente

Encarnação, 23 de Janeiro de 2011

O egoísmo é tão natural como a saliva nos dentes, a casca da ervilha, ou as flores do campo.

Sou demasiado sensível ao que retiro das intensas observações que faço. É uma pena. Apuro a escória. Se apuro apenas ruindade, deprimo. Sofro desnecessária e desmesuradamente. Que aborrecido.

Nano

A cliente era anã e queria ver o que estava exposto nas minhas costas. Pude verificar que lhe tapava enormemente a visibilidade. Credo, senti-me uma torre mesmo muito alta.

Surpresa

Cheguei do almoço e tinha um bom bocado de abóbora à minha espera. Alguém a oferecera.
- Ó Gina, essa abóbora é para ti.
- Ah, obrigada.

...

Estou com dificuldade em tornar este acontecimento interessante.

...

...

Desisto. Amanhã, quiçá?

domingo, 19 de junho de 2011

741

Loulé, 6 de Junho de 2011

O facto de nas férias ter tirado 741 fotografias, esse exagero, cansou-me o olhar. Desde que cheguei nunca mais senti aquele clique da imagem. A fotografia acima é... curiosa.

Bang!

Ontem ouvi na TV que a Cláudia Jacques é a quarentona mais bonita de Portugal.

Fui destronada. Bolas...

Os bolinhos

Fiz ovinhos de bolacha. Muitos, um prato cheio.

Rica filha: - Quem é que vem cá, mãe?

Rico filho: - Vem cá alguém, mãe?


Oh vida, até parece que eu só faço coisas doces quando vem cá alguém...

Olás

Olá, mundo. Olá, pessoas. Estou online em três frentes: Messenger, Fuçasbuque e Blogspot. Querendo dizer alguma coisinha já sabem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sinto-me um bocado febril nos pensamentos. Andam à roda da minha cabeça, fica tudo difuso e insignificante. Não é que já esteja curada (ver post anterior) mas é que hoje é-me muito necessário escrever. Pode ser qualquer coisa, o que interessa é, sobretudo, escrever. Vou escrever da praia e de livros.

As coisas que se podem ver debaixo do meu braço estando eu deitada na areia. Dois nadadores-salvadores comentando um banhista afoito demais, uma senhora loura de caracóis definidos (tão lindos!) espalhando protector solar no rosto, as perninhas finas de uma menina agitada com o estar na praia.

Há pessoas que se acalmam olhando para o mar. Eu não. Compreendo-lhe a imensidão, a força, conheço-o muito maior que eu e a minha exitência, mas o mar a mim não me acalma. Sinto-lhe o poder e é só.

«Um dia, num encontro com um escritor, uma mulher que fez da sua própria vida e dos seus próximos objecto de escrita: 'Tenho a sensação de cavar, de estar a enfiar-me num poço.' Espanto da minha parte. Nesse tempo a escrita para mim não era um poço, pelo contrário, era o espaço, percorrer, explorar... In
'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux (página 54)»

Achoq ue tou doente. Ou então achoq ue o meu mal é sono. É tudo umaq uestão de escolha.

Momentos

Momento alto:

Ouvir uma cliente chamar 'raro' ao 'ralo'

Momento vertiginoso:

Deixei cair sumo de laranja em cima dos sifões de lava-louça que estavam destinados ao sô Veríssimo. Pus-me imaginar o sô Veríssimo de cócoras, a cabeça enfiada no armário, onde normalmente impera um cheiro nauseabundo, invadindo-lhe as narinas um aroma cítrico. Hum... E lembra-se de mim, aquela jovial pessoazinha que lhe pergunta a brincar: ‚Então não quer mais nada? Ainda não é hoje que me leva a loja toda?‘

(Ainda) O regresso

Eu a pensar que o senhor Albano me ia segredar o quanto notou a minha ausência e que a mulher da fruta ia gabar o meu bronzeado e afinal... A mulher da fruta nada, fez as pesagens e tratou do troco enquanto falava ao telemóvel, o senhor Albano nem água vai ou fica, limitou-se a contar a mesma gracinha de sempre:

- São noventa e cinco cêntimos... (pausa) Se quiser pagar... (longa pausa), aqui só paga quem quiser levar o pão (grande convicção).

Ora, nem de propósito...


Agora está em combinação. Ganhei a segunda volta. Vestiu uma quase nova, a ante-penúltima na pilha de roupa de baixo arrumada com perfeição no armário. Por baixo de tudo, as já remendadas, depois as simplesmanete já usadas, no fim a última, novinha, nunca vestida, a que ela reserva «para ir para o hospital».
Esta muda frequentemente de lugar. Às vezes está no alto da pilha, outras à parte no armário, outras ainda numa mala pequena. Não, engano-me. Na mala do pequena é a camisa de noite para o enterro.
Olho para a minha mãe em combinação.
Uma combinação é uma espécie de forro de vestido, em malha de nylon, sem gola, sem mangas, justa ao corpo, e só um nadinha mais curta do que o próprio vestido. «Vocês, os jovens de hoje, já não usam isto.» É uma peça que faz a transição entre a intimidade do corpo e a fachada que é o vestido. Tem a mesma função que as cortinas de musselina das janelas, por baixo dos cortinados, mais espessos. Também impede que a forma das pernas seja adivinhada, não as deixando ver em contra-luz. Evoca, em suma, uma época em que se desconfiava do corpo, o corpo suja, a combinçãolavável protege o vestido, que não se lava.

In
'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux

(página 82/83)

Lavar, lavar, lavar

O homem do teatro comprou uma barra de sabão azul e branco. Os actores vão lavar os pés? Os sovacos? As miudezas?

Credo, as coisas com que eu tenho de me preocupar...

Que tal?!

Qual mediana, qual carapuça! Mediana, eu?! ... Eu sou é uma extremista, isso sim! Noutro dia ia lá do outro lado da rua uma artista plástica de renome, bem conhecida na nossa praça, parou de repente achando que eu era sua conhecida, vai daí reconheceu-me e acenou-me com muita vontade.

Que tal?! Uma artista bem conhecida aqui da je, ah pois!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A invejada

Saio deste dia cansada de lutar contra um certo sentimento de maldição ao longo do dia. Agora tenho a sensação que sou um bicho peçonhento – fui de férias.

15 de Junho de 2011

Um dia de regresso
Um dia de retrocesso
Um dia de insucesso
Um dia travesso

O blogue

Sonhei com o Clóvis. Sonhei que o Clóvis havia lido o meu blogue. Que giro. Eu sonhei que o Clóvis leu o meu blogue, quando tal é impossível. Se ele soubesse apenas o nome do meu blogue reagiria assim, tenho a certeza. O Clóvis não sabe que é como eu o descrevo, o Clóvis é um homem que não se conhece a si mesmo.
Disse-me 'escreves de uma maneira agradável, às vezes parece simples o que vais dizer, mas no final conseguiste surpreender-me'.
Não fugiu ao que a maioria das pessoas comenta acerca do que escrevo no blogue. Não fugiu do que a maioria das pessoas pensa acerca de mim na vida real, a minha inteligência costuma ser surpreendente porque ninguém espera que uma pessoa caladinha seja inteligente. Um sonho cheio de realidades a que estou acostumada. É natural, foi a minha cabeça que o produziu.
A expressão dele era um misto de reverência e deslumbramento, o que é anti-natura, o Clóvis não reverencia nem se deslumbra com ninguém. Aqui, um sonho cheio de secretos desejos. É natural, foi a minha cabeça que o criou.

O trabalho que dá

Nas férias houve trabalho. Para começar ouvi a descrição exaustiva dum dia de trabalho duma empregada que se encarrega de deixar o chão da Quinta do Lago livre de lixarada. Fiquei a conhecer passo-a-passo a lida da dita moça. Agora já só me lembro do precioso que é colocar uma pedra no saco do lixo para este não voar mas que é preciso andar muito atenta porque quando o saco tem lixo já não voa com o vento dispensando assim a pedra. Jantei com ela. Com ela e outras pessoas. Comemos amejoas gigantes e sapateira. Ela, não. Ela pediu bitoque, até parece que é de Lisboa!

Depois é que houve trabalho a sério. É o que dá ir de férias com o meu colega...
– 'Tou sim, sô arquitecto, como está?
O meu colega, solícito, havia dito ao senhor que íamos para aqueles lados e que se ele assim entendesse, telefonasse que a gente ia lá. Trabalhar. Nas férias. Bah! Enfim...
O sô arquitecto, vendo a minha indumentária veraneante, desfez-se em desculpas. Minha senhora, desculpe interromper-lhe as férias. Minha senhora, se quiser dê uma vista de olhos pela casa. Minha senhora, já viu o jardim? Minha senhora, suba lá acima, vá ver. E eu fui, nos intervalos de passar uma bucha e um parafuso ao colega empoleirado no escadote, curiosíssima como sempre, ia cuscando a casa do sô arquitecto. Fui eu que a projectei há trinta e tal anos, dizia ele. A minha mulher diz que quer morrer a ver um pedaço de relva verde do quarto... Mas a relva está seca!, queixou-se. O meu colega ainda andou lá de volta do sistema de rega mas não obteve sucesso.
Fiquei um pouquinho aturdida com a vida particular do sô arquitecto, em chegando uma certa altura na vida é quase certo os momentos serem na maioria tristes por se estar assustadoramente próximo da morte. Eu ainda não escolhi o meu lugar ideal para morrer, sou jovem demais para isso.

A falta que fazia

Há um buraco no chão da Avenida Guerra Junqueiro (Lisboa) do lado direito de quem sobe mais ou menos a meio. O leitor tome atenção, caso pase por lá.

Uma mulher grunhe pedindo esmola. É mais ou menos isto:
Hum, é impossível escrever. Eu nem sei grunhir como ela quanto mais escrever os grunhidos!

Memórias

Vêm-me à memória muitas pequeninas histórias da minha infância. Acontecem quando ando mais pensativa e/ou sem cenas de balcão capazes de fazer sorrir alguém que as leia.

A Maria Vitória era aquela que havia estudado mais e sabia falar. Uma vez avariou-se-lhe o aspirador, dizia o homem que o aspirador tinha aspirado água. Qual quê?! Expedita, desembaraçou-se. Ninguém lhe comia as papas na cabeça, ela estudou, sabia falar, não era uma alentejana qualquer.
A Maria Josefa nunca conheceu homem... É a minha madrinha de registo. Estava lá na cédula que eu bem me lembro de ler. Dava-me umas prendas 'muita boas', era o que a minha mãe dizia. Eram boas mas poucas. Só me lembro de uma combinação, naquele tempo usava-se, num tecido meio transparente, amarela com folhinhos na base. Nunca me serviu.
A Ana Maria levava 'porradas nos cornos' do marido. Era o que a minha mãe dizia. Acho que se divorciou. Veio para Lisboa e usava mini-saia. Era muito bonita, as 'porradas nos cornos' adviriam daí, ciúmes doentios, presumo. Tinha uma filha com menos meio ano que eu. Amélia, o nome. Era gira e esbelta, interessante e comunicativa, contrastando grandemente com a minha jovem pessoa. A minha personalidade tímida e escondida sempre me fez parecer medíocre. Uma vez puseram-nos a fazer contas, vá-se lá saber porquê. Eu errei, ela acertou, vá-se lá saber porquê... Nunca fui burra em contas na primária mas aquele resultado não me livrou do rótulo.
A Maria Paula era a mãe das três marias. Uma velhinha sempre de preto – fazia-me lembrar a minha avó paterna - com poucos dentes - fazia-me lembrar a minha avó materna - e de sotaque alentejano bem carregado – fazia-me lembrar Albernoa. Elogiava a neta quase incessantemente, e hoje há-de estar tão quarentona como eu. Maria Paula... Sempre achei curioso este nome numa alentejana daquela geração.
Não estou a contar a coisa bem: Mari-Vitória, Mari-Zefa, Anazinha, Nelinha, Mari-Pála. Assim é que é.

Espólio

Setecentas e quarenta e uma fotografias.
Duzentas eliminadas, para aí.
Mil quinhentos e não sei quantos quilómetros percorridos de carro.
Quilometragem percorrida a pé compeltamente impossível de contabilizar, o que lamento.
Dezoito locais visitados.
Vinte cinco cêntimos achados no chão.
Zero percalços.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ao trabalho!




Amanhã vou trabalhar. Em português mesmo a sério seria: amanhã irei trabalhar. Em português mesmo a sério e eu sendo religiosa seria: amanhã irei trabalhar, se Deus quiser. Oh, amanhã vou trabalhar e pronto!

Eu, que não sou uma empregada de balcão normal, amanhã terei a passadeira vermelha querendo dizer que sou bem-vinda. Pisá-la-ei com grande pesar por se me terem acabado as férias. Acho que haverá mais férias num futuro próximo. Digo 'acho' duvidando um pouco. Porquê?! Porque não sou empregada de um balcão qualquer dessas aí, ora!

O descanso

Normalmente nao nas férias leio muito e escrevo até dizer chega. Desta vez não foi assim, acho que houve mais passeio. Substitui as fechaduras 720 e o ajax limpa-vidros por estradas e praias a perder de vista. Ini
Inicialmente tinha pensado transcrever tudo o que havia escrito aqui, tal e qual, com as razuras e os erros próprios de quem escreve ao ritmo do pensamento.
As férias, enquanto passeio, foram mesmo boas, vi tantas coisas, e todas tão lindas, ... E estive quase sempre bem das minhas coisas parvas.
Agora, sinto-me a regressar aos poucos, já com saudades da pessoa que deixei aqui, aquela que não consegui cone convencer a ir comigo, aquela que sabe escrever.

Dantes, quando ficava sozinha em casa, como agora, ia escrever. A escrita sempre foi uma grande companhia. Hoje, ma uma grande parte do medo abalou, foi embora. Não tenho medo, não vou escrever só porque tenho medo.
Vou é fazer um bolo, é isso. Sempre me adoça as vontades.

As férias

Os lugares das férias,

eu com a máquina na mão,

as imagens nos meus olhos

e a minha vontade de criar harmonia.

Alcácer do Sal

Albernoa

Vilamoura

Loulé

Portimão

Praia da Rocha

Raposeira

Cabo de Sagres

Cabo de São Vicente

Forte do Beliche

Silves

Praia da Falésia (Vilamoura)

Olhos d' Água

Grande descoberta algures no meio do mato

Fonte Benémola (a caminho)

Olhos d' Água (de novo e em trabalho, é o que dá ir de férias com o meu colega)

Pego do Inferno

Praia Verde

Portugal cá, Espanha lá (separados pelo Rio Guadiana e unidos pela ponte...?)

Villanueva de los Castillejos

Espanha cá, Portugal lá (unidos por uma ponte inacabada e separados pelo Rio...?)

Arrabaldes de Baleizão

Ponte Vasco da Gama

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Parabéns /barra/ Regresso a casa



O Luís hoje faz anos... Parabéns! Não poderia nunca deixar este acontecimento em branco, quero só dizer que espero que conte muitos mais anos comigo sempre ao seu lado para o que der e vier - para o que der e vier, uma frase que ele usa muitas vezes - e quero dizer - também - que ele é um amor e um querido e o meu mais-que-tudo...


Estou de regresso. Ali na foto, tirada há poucos dias, faço jus ao que escrevi no post anterior: tenho a cabeça fresca e repouso o corpo na areia quente e macia.
Existem nos meus ficheiros mais algumas imagens para mostrar aos leitores. Oportunamente publicá-las-ei.
Já deixei na caixa de comentários os meus agradecimentos aos leitores que me desejaram umas boas férias e agora faço-o novamente de modo mais público:

Obrigada! As férias foram muito boas.

sábado, 4 de junho de 2011

A praia e eu


Eu vou ali refrescar a cabeça nas límpidas águas do Atlântico e descansar o corpo na areia quente e macia das praias do sul. Volto daqui a nada.

Bairros de Lisboa

No bairro, no meu bairro, quando vou na rua toda a gente me conhece, é um corropio de olás, bons-dias ou boas-tardes, depende da hora.
Aqui, noutro bairro bem longe do meu, onde me movimento há pouco tempo, dou nas vistas doutra maneira, as pessoas não me conhecendo, vejo-lhes um ponto de interrogação escarrapachado na testa: quem é esta, que faz aqui?!

Lisboa é uma cidade com muitas aldeias lá dentro.

Viva...

Estou de férias. Quando me 'despedi' do local de trabalho estava a dar aquela canção: 'Whataya Want From Me?' de Adam Lambert .

Não tem nada a ver, eu sei.

O amor é lindo!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Dias de um ginásio

Lisboa, 2 de Junho de 2011

Agora corro cá fora, ao ao livre. E é tão bom! Tenho companhia e tudo.

Leitura

Dei uma vista de olhos pela minha biblioteca, sei que há imensos livros na prateleira que ainda não li - escolhi o 'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux.
São relatos de uma filha em torno do fim da vida da sua mãe. Ao que parece o livro é autobiográfico e até agora estou a gostar bastante.

A escrita dos outros, mesmo dos meus contemporâneos, mesmo daqueles que invejo, veio sempre em meu socorro. Quando esqueço que sou uma escritora, quando a escrita me parece uma actividade demasiado vã, procuro um livro. Não para me voltar a relacionar com personagens ou reencontrar emoções. Só para sentir isto: a tensão das palavras.
Preciso de relembrar como é que o escritor alinhou as frases até conseguir entrar no seu tema. Aliás, o «como» aqui está a mais. Quero simplesmente voltar a sentir isto: que alguns consagram a sua actividade a alinhar frases para penetrar em mundos que, sem aquelas frases alinhadas exactamente daquela forma, continuariam desconhecidos.
(página 55)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Os alperces

Comprei alperces ali assim duas ou três vezes esta semana. Vim até aqui andando e comendo. Uns não prestavam e desses não falo, cada um manda naquilo que escreve. Outros eram muito bons, tinham aquela acidez que eu gosto, o pêlo suave da casca, esse travão na língua prolongando o gosto do fruto na boca. Fui depositando os caroços aqui e ali, ora no alcatrão da avenida, ora no passeio, ora nas rodelas de terra onde descansam as árvores. Daqui a uns anos nascerão árvores deste fruto. As que nascerem no alcatrão e no passeio darão maus alperces, as outras, as que nascerem nas rodelas de terra, darão os bons. Vai ser assim porque eu quero. Vai ser assim porque cada um manda naquilo que escreve.

Eu

Tenho necessidade de atenção mas não a alcanço. É tão urgente e nem a procuro. Não sei preencher as lacunas da minha existência.

Em média

A minha vida não passa de mediana. Sou de média estatura, médio corpo e agora até sou de meia idade. Quando casei não era extremamente nova ou velha demais para noiva. Fui mãe nas mesmas condições, as gravidezes foram normais, os partos idem, os filhos com o intervalo de anos que tinha idealizado, na sua criação nunca ocorreu nada de extraordinário. Sou, por isso, uma mãe normal.
É tudo normal.
Não tenho uma inteligência abaixo ou acima da média, não tenho uma sensibilidade fantástica para coisa nenhuma, não tenho um dom especial.
Nada. Não passo de média, normal, vulgar.
Nada de anormal se passa na minha vida, portanto. O que é bom, deveras agradável. Encontro-me em constante equilíbrio, ao ponto de nunca cair para o lado do mal ou para o seu oposto. Mas estas coisinhas por vezes conferem-me um certo ar de pãozinho sem sal, ou de não ser pão nem bolo. Aí já não terá tanta piada, acho.
Sinto falta duma marca qualquer, estou em idade disso, nesta idade as pessoas são desequilibradas, fogem da linha, assumem-se, são algo. Se o algo é positivo ou nem por isso, não interessa, não é esse o fulcro. As pessoas são isto ou aquilo, é o que lhes sinto no olhar, nos gestos.
Eu não. Eu sou mediana.
Tenho tentado descobrir se é essa a minha marca...

O pescoço

Todas as mulheres deviam ter um homem para se pendurarem no pescoço dele. Para lhe segredar a tristeza que as consome, ou anunciar que são as criaturas mais felizes do mundo. Não tendo um homem destes assim, arranjem um cabeleireiro, é mais ou menos a mesma coisa. Seja lá como for o assunto é o mesmo: cabeças.

Coisinhas doces

De repente fiquei com vontade de fazer doçuras: bolo de bolacha, folhado de morango, gelado de baunilha.
Tenho mais prazer em confeccionar doces e oferecê-los à família do que propiamente em ingeri-los. Talvez pela distração, pela partilha, não sei, o que sei é que sempre que faço muitos doces de uma só vez adoço a minha vida e ela fica noutros tons, mais fresca, mais apetecida.

Pessoal da blogosfera:

Lede com atenção e acatai o meu conselho, à cautela, não comais pepinos, pois se assim fizerdes sereis infectados com bactérias mortíferas e morrereis.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Quadradinhos do senhor Blogspot

Temos dois novos quadradinhos mesmo aqui por baixo de cada post. Experimentei e cliquei no quadradinho do post anterior, apareceu o número um no quadradinho do lado direito e eu... fiquei na mesma. 
Alguém sabe para que servem os quadradinhos? Será para votar nos posts? Deixar uma opinião sucinta? Do tipo: olha gostei, escreve mais, és porreira, gosto de ti? Calhando é...

...

Escrever é inútil quando olho para a página do meu computador cheia de textos relatando ocorrências na minha vida – quantas vezes insignificâncias... - e tudo aquilo que escrevi me parece um absurdo enorme - errado até – se comparar ao turbilhão de pensamentos que andam na minha cabeça e que os não sei escrever.

O gesto

Não sei lá que gestos ando eu a fazer na rua, a verdade é que no espaço duma semana dois taxistas abrandaram e chegaram o carro para a berma, como se eu estivesse a requisitar o serviço. Olham para mim muito ansiosos, de olhos esbugalhados, inclinam-se para o lado e tudo, como se fossem abrir a porta do pendura, e toda a gente sabe que os taxistas não tiram o cu do assento para ninguém, não é verdade?

Mau maria...

A dona Carminda do banco perguntou-me pelo chefe. Eu tenho dois chefes, um velho e um novo, julgando que ela se referia ao chefe velho – vá-se lá saber porquê, é um chefe mais notado no meio feminino – disse-lhe que o chefe tinha lá estado há pouco, que se não o viu talvez tenha coincidido com a sua hora de almoço.
De repente fez-se luz!
'A dona Carminda quer saber do chefe velho ou do chefe novo?!'
'Do novo!'
Diz ela como se fosse evidente.

Mau maria...

Dona Carminda, é assim, ao que sei a senhora tem lá em casa um gato e uma mãe, se está precisada de mais companhia compre uma planta e fale com ela, vai ver que a ouvirá com muita atenção. Compre uma daquelas farfalhudas, sempre faz uma companhia maior.

Ah! Eu respondi-lhe que o chefe novo tinha ido trabalhar, como se tal não fosse óbvio...

Os amigos

Amigo do peito... é tão especial que há só um.

Amiguinho... é aquele que me dá um tudo-nada de atenção.

Amiguxo... é aquele que se vê obrigado a dar-me montes de atenção.

...

A minha indumentária não me permite baixar nem parar numa esquina ventosa. Tenho que repensar o meu guarda-roupa, este anda-me a retringir os movimentos.

Nacionalismos

Lisboa, 1 de Junho de 2011

Ali na esquina da Avenida João XXI com a Avenida de Roma encontra-se um galo de Barcelos colado no semáforo de cor verde. Curioso...

Eu e a crise e os cofres

Olhei para uma das minhas montras e uma coisa rápida trespassou o meu pensamento. Eu depositei nas prateleiras cofres e afins e não podia ter escolhido pior altura. Quem aforra nos tempos que correm? Mau timing...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Movimento 'Sim'

Com o apoio da Radio Comercial a Samsung lançou o 'Movimento Sim' para dar suporte à criatividade em Portugal. Vou inscrever o meu blogue, olaré! Sei que sou original e atípica no que escrevo. Sou tão atípica que criei um blogue que não é mau nem bom, o que o torna... atípico, tão atípico que não consigo descrevê-lo. E daí nasce uma originalidade tamanha que faz com que este seja um blogue do caraças.

Actualidade

Em Espanha há pepinos com bactérias.
Na Alemanha há doentes com bactérias e defuntos devido às mesmas.
Em Portugal os x-actos são armas brancas.

Politiquices

Lembrei-me agora: Francisco Louçã faz-me lembrar um pregador daqueles muito chatos. Até a música da campanha do BE no Radio é deveras aborrecida de se ouvir!

Politiquices

Sou tão aversa a tomar parte seja naquilo que for que não tenho cor política. Este fim-de-semana a minha mãe até me disse: 'Tu és inconstante, filha!' Ela quer, porque quer, que eu adira aos seus ideais, mas eu não funciono assim. Normalmente, para me decidir, ouço a campanha eleitoral com atenção e vou tirando as minhas ilações, depois, no dia destinado, voto. E nunca votei intranquila.

A doença

Estou aqui que não posso, rebentando de alegria, finalmente tenho uma doença da qual posso falar. Agora sou uma pessoa feliz, atingi os níveis de normalidade, tenho uma doença que não é vergonha nenhuma: tensão baixa. Oh, não é fantástico?! Ok, não é bem, bem uma doença, mas pode fazer de conta, não pode?!

Chocolatinhos

Fui ao Ikea comprar chocolates – não foi bem assim mas se eu dissesse o que fui lá comprar não tinha graça, logo... - fui ao Ikea comprar chocolates. A moça que me atendeu perguntou no final:
'É só?'
Alguém respondeu por mim:
'Por agora é, a gente vem cá depois buscar o resto'.
E eu acrescento, muito séria:
' Agora vamos a casa pôr isto e depois vimos outra vez para aqui. Fecha às onze, não é?'
Eu, que muitas vezes digo as minhas piadas séria, deixei a rapariga atarantada, sem saber o que dizer. Acheipor bem presenteá-la com um generoso sorriso para a deixar descansada, pobrezita, e ela começa a desbobinar.
«Que já chegou de trabalho no sábado até às duas da manhã, que ninguém estava preparado para o corropio que foi a promoção do primeiro aniversário da loja em Loures, que a expectativa em termos de números era alta mas haviam ultrapassado trezentos mil euros.»
Fiquei séria de novo:
'Haja alguém que venda.'
Entretanto lembrei-me que comentara com o meu colega a meio da manhã que só vendera duas velas e quatro rolos de papel higiénico. Haja alguém que venda...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O espectáculo

Ontem fui ver o Pedro Tochas ao Casino do Parque das Nações. É verdade, eu estava lá. Se alguém lá estava também ponha o dedo no ar... Ninguém?! Ok. Estavam lá seiscentas pessoas mas nenhuma lê este blogue, claro. Se lê, ok, peço desculpa, não está a ler este post.
É certo e sabido que os comediantes centram as suas piadas em determinados grupos ou tipos de pessoas: os religiosos, os velhos, os de inteligência fraca, os chico-espertos, os militares, as freiras e tal e tal. E normalmente satiriza-se as atitudes e manias em comum que os grupos possuem. Ora bem, o bicho falou em blogues. Não curti. Pronto. Mas... Eh pá! Passou-se, o bicho tem montes de piada.
Ele descrevia por meio de gestos alguém com o hobbie parvo(porque toda a gente tem um hobbie... que pode muito bem ser parvo), lamber morangos no supermercado, e que à noite essa pessoa escreveria no blogue: 'Hoje estive no Continente e lambi todos os morangos que estavam nas caixas do lado esquerdo.'
Ora bem, agora vai a bicha que escreve este blogue falar.

Loures, 29 de Maio de 2011

Hoje fui ver o espectáculo do Tochas. Achei muito giro, fartei-me de rir. Depois fui ao HardRock Café beber uma marguerita e comer uns nachos machos. Estes estavam muito saborosos mas a marguerita estava espantosa: muito álcool, muito sal fino na borda do copo, muita lima, nham nham. No entanto fez-me um efeito estranho, fiquei logo toda maluca e muito balanceante, parecia que andava à deriva num barco minúsculo e que a música e as vozes de fundo era uma tempestade lá ao longe que em breve se faria chegada.

(Sim, foi uma marguerita que eu bebi, uma só.)

Fiz várias tentativas para me levantar mas sempre me dava uma sensação muito desconcertante que me fazia desistir. Quando achei que já não corria o risco de me estatelar no chão dirigi-me ao WC. Olhei-me ao espelho, este amiguinho reflectia a imagem de uma mulher com as faces rosadas e os olhos vítreos. Estiveste a beber, Gina Maria... Ai, ai, ai. Dancei frente ao espelho e disse e fiz coisas que também faço quando não tenho porra de marguerita nenhuma no bucho. Ou seja, não preciso de álcool no sangue para disparatar, a minha cabeça já funcionava mal antes da marguerita.

(Eu bebi uma marguerita apenas, a sério que sim.)

E pronto. Era isto. O que vale é que ninguém lê um post tão comprido, tenho a certeza de que ninguém chegará e este parágrafo.

A relação virtual-real

Não ser conhecida na blogosfera é uma mais-valia quando desejo não ser reconhecida na vida real. Ajeito-me com esta simples ideia, por vezes, especialmente quando quero dizer coisas e relatar factos objectivamente. Sendo pequenina na blogosfera é quase certo que não vêm ralhar comigo porque não tenho nada que andar a escrever da vida das pessoas e mais não sei quê. Por não ser conhecida no virtual ninguém me vem pedir contas no real. Fantástico, não? Claro que sim. Muito. Posso escrever sem reservas, ninguém procura uma drogaria suja e entupida de material que tem lá dentro um balcão partido onde repousam trastes que não lembram a ninguém e esconde uma mulher de meia idade, maltrapilha, sisuda e gasta pelo tempo. É por isso que posso ser atrevida e declarar e relatar o que bem me apetece: cenas carregadas de pormenores. E ainda tenho o desplante de não me esconder nem um bocadinho...

Lisboa, 30 de Maio de 2011

Eram catorze e quarenta e cinco. Um Fiat Punto vermelho queimado pelo sol estava estacionado em frente à saída duma garagem da Avenida Guerra Junqueiro, saía lá de dentro a música num som tão alto quanto se possa imaginar, uma daquelas músicas com brejeirices de Verão mas cantada por uma criança.

Eram três e trinta e três da tarde. A porta do número quinze da Rua Rosa Damasceno abre-se para deixar passar uma septuagenária que havia saído do cabeleireiro – tinha a cabeça num primor. O tempo hoje não está favorável aos aprimorados, está frio e vento e caem umas pinguinhas de chuva aqui e ali. 'Ai que horror, sair dali com a cabeça quente e dar logo de caras com este frio!' Diz ela toda encolhida. Este tempo não favorece os aprimorados e os temerários a doenças.

O balde que não foi debalde

Uma mulher comprou um balde. Falou de Deus e de espiritualidades e disse que tinha sentido que devia entrar, que tinha um balde no carro e que não precisava de um, portanto, mas havia sentido algo a puxá-la para entrar, vinha de Deus a presença que a puxara para ali de certezinha.
Tenho uma tendência natural para não acreditar neste tipo de coisas, o campo espiritual exige que se acredite e, querendo, é muito fácil acreditar. Cada um compõe a história à sua maneira, aos outros fica-se-lhes a dúvida ou o credo. Acreditamos naquilo que queremos, eu até posso duvidar do que escrevo neste momento, basta querer.

A chuva

Não há dia de chuva neste país sem que pelo menos uma das estações de Radio passe 'Let it rain' da Amanda Marshal. Os programadores das emissões querem lembrar os ouvintes de que a chuva é algo bom e maravilhoso, refresca as cabeças, purifica os sentidos. Ficamos contentes com a vida que arranjámos:
'Afinal sou feliz, pá!'
É isto o que os programadores - ou locutores, lembrei-me agora - das radios nos querem fazer ver.
A satisfação que possamos tirar das nossas vidas pode ser agradável e, não sendo essa a essência do ser humano, que o que a malta gosta é de queixinhas, é melhor aproveitar estes bocadinhos de coisas boas com que a vida por vezes nos trata.

Terminus

Acabei de ler o livro 'A vida secreta de uma mãe desleixada' de Fiona Neill. Adorei lê-lo, cinco páginas antes de o terminar já tinha saudades de Lucy Sweeney, uma personagem sábia e inteligente para com muitos aspectos da sua vida, nomeadamente a essência da maternidade, mas desastrada no que toca a tarefas domésticas.

Marido surdo e mulher cega fazem sempre um casal feliz.

Deixo as lentes de contacto de molho numa chávena de café e acordo de manhã para descobrir que o Marido com Mau Feitio as engoliu durante a noite. Pela segunda vez em menos de um ano. «Mas eu disse que as tinha lá posto», protesto. «Não podes estar à espera que me lembre desses pormenores», diz ele. «E desta vez não vou vomitar. Usa os óculos.»

A trama tem também um elemento chave para captar a atenção do comum mortal: sexo e traição. A Lucy Sweeney... Hum...

    O que procuram os homens nas mulheres? 
    Os contornos do Desejo Saciado 
    O que procuram as mulheres nos homens? 
    Os contornos do Desejo Saciado* 
    William Blake

*Poema apresentado na página 272.

E pronto, gostei do livro. A escrita é clara, sem entupimentos, flui livremente. É um prazer ler histórias assim, normalmente os autores que adjectivam muito ou usam muitas vírgulas confundem-me e acabo por esmorecer na leitura. Ler o que eu gostaria de ter escrito agrada-me, deve ser isso. No fundo gosto de ler... como eu escreveria, se o soubesse fazer.
Este livro teve ainda um ponto positivo que quero registar, aprendi uma palavra nova: quiproquó.


Quiproquó

substantivo masculino

1. Engano, confusão que consiste em entender uma coisa ao contrário do que ela significa, em tomar um objecto! por outro diametralmente oposto, etc.

2. Tolice; trocadilho.

Fonte: priberam.pt

Fim-de-semana

Os meus pais passaram o fim-de-semana cá em casa. Foi muito diferente de falar com eles ao telefone, ao vivo é bem melhor. A distância e a separação física encolhem o prazer de falar com alguém.

– Gina, olha lá, vais a conduzir só com uma mão, até parece que é uma coisa fácil. - Refere a minha mãe, espantada com o meu desempenho.
– Às vezes é. Agora está a ser. - Mas achei por bem colocar a outra mão no voltante.

– Ai, eu não vou aí! - Diz a minha mãe quando viu que havia passadeira rolante à vista.
– Hum... Eu também não gosto muito disto, não penses. - Diz o meu pai, como que em socorro da atrapalhação da minha mãe, para que ela não se sentisse sozinha nos medos.

O transeunte

A alminha que inventou a palavra 'transeunte' não tinha mais nada que fazer.
A alminha que inventou o modo de escrever a palavra 'transeunte' não falou previamente com a alminha que a inventou.
As alminhas que escrevem a palavra 'transeunte' estão safas de fazer más figuras.
As alminhas que proferem a palavra 'transeunte' vêem-se a braços com o feio que é ouvi-la.

'Transeunte' diz-se 'tranziúnte'...

Transeunte (ziú)

adjectivo 2 g.
1. Que passa, que não dura, que não permanece.
2. Filos. Que passa da causa ao efeito.

adjectivo 2 g. substantivo 2 g.

3. Que ou quem passa por lugar ou rua. = andante, passante
facto transeunte: o que não deixa vestígio presente, como o facto simples, a injúria verbal, etc. (Opõe-se a facto permanente.)

Fonte: priberam.pt

Coisas...

… Que só se podem fotografar em tráfego de trânsito muito intenso.

Lisboa - A8 e Campo Grande, 30 de Maio de 2011

O filtro solar e as cores da minha bandeira

Lisboa - Parque das Nações, 29 de Maio de 2011

Às vezes é-se favorecido ao estacionar...

Lisboa - Parque das Nações, 29 de Maio de 2011

Disputa

Lisboa - Calçada de Carriche, 30 de Maio de 2011

As pessoas deviam disputar chaminés, a ver quem tem a mais linda. Disputam tudo: vestidos, carros, casas, penteados e feitio de barba, cargos e remunerações. Disputem a chaminé, vá lá. Discutam a estética, os materiais, a qualidade. Sejam criativos, promovam a originalidade – disputem a chaminé mais linda. Disputem que quem disputa... diz puta.

Plantada e sentada

Lisboa, 27 de Maio de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Na avenida

Emoção forte é a gente estar numa daquelas divisórias – estreitas! - entre sentidos de trânsito esperando que o sinal abra. Fomos atrevidotas mas não pudemos sê-lo até ao fim da linha, ficámos estancadas ali, a meio caminho, como peixe na rede que se sente morrer com a água ali tão perto. Ai ai ai, como e quando é que a gente sai daqui?
Emoção forte é a gente estar aí, na estreita divisória, tão expectantes quanto assustadas, e passarem à justa dois carros por nós, e no preciso instante em que se cruzam, fazem-no razando a nossa desprotegida figura. Vrrum, vrrum! E a gente abriu a boca com o tamanho susto mas não saíu qualquer som da nossa garganta. O que a gente faz é escrever. E as coisas passam a ter piada...

A mesa quadrada

Eram quatro e falavam do Facebook, coleguismo e outras coisas sem relevo para mim. E eu, alternadamente, só tinha olhos para a lombada de um livro onde se lia em letras gordas: ' O Paradoxo Sexual' e o cu espetado de um homem que espiolhava qualquer coisa nas prateleiras de baixo.
Dei por mim a escrever pequenino, pequenino. Percebi que era porque receava que eles lessem o que eu estava a escrever. Às vezes acho-me importante.

Atrium Saldanha

Sete e meia da tarde, eu estava no Atrium Saldanha ouvindo tocar piano ao vivo. Marimbei para o decoro e sentei-me ao lado de um senhor de fato e gravata, havendo, contudo, largueza entre nós, que eu cá não sou de encostos. Para me sentar dei meia volta e a minha saia rodada girou de tal forma que assentou muito próximo do dito senhor, eu e a minha saia ocupávamos o espaço a dobrar. O homem entesou-se todo, não se sentiu nada à-vontade com a roda da minha saia. Num gesto rápido mas cheio de um saber muito feminino cheguei a saia para ao pé de mim, não gosto de trazer problemas a pessoas sensíveis a feminilidades, os pobres sofrem imenso com este tipo de complicações nas suas vidas.
Esqueci o homem. Pousei o olhar no pianista e apurei o ouvido para desfrutar o momento. Não é a primeira vez que estou ali àquela hora ouvindo a música mas nunca tinha reparado que o pianista é cego, reparei que não havia pauta e que o olhar dele, ainda que sem vida, estava carregado de emoção. É a música...
Fiquei ali a escrever umas coisas. Minutos depois a minha atenção desvia-se da música e da escrita. Chega uma mulher com uma indumentária ridícula tendo em conta a idade avançada. O penteado eram dois totós e a roupa às riscas conferia-lhe um ar infantil, parecia que tinha acabado de dar um espectáculo circense e, sem ter tempo para se preparar, tinha vindo directa para ali.
A música parou abruptamente. A mulher dos totós bateu palmas timidamente, ponderei se havia de lhe fazer companhia mas não cheguei a mover-me e tal como eu mais ninguém se dipôs a isso. O pianista pareceu estranhar os aplausos e rodou a cabeça em direcção ao som, vi-lhe um olhar agradecido e, apesar de eu saber da cegueira, parecia mesmo que estava a olhar para a mulher dos totós, essa visão colorida.
Depois, surpresa das surpresas, ele levantou-se e com a ajuda de uma outra senhora que apareceu não sei donde veio ter comigo. Quero dizer, comigo não, com a dos totós. Sorriram-se muito, deram-se beijinhos e ela queixou-se de ela estar suado...
– Ai 'tá todo suado! Vá lá fora refrescar-se, vá. Até já.
Bazei. Acabara a comédia.

Afinal...

Os clientes filhos da puta não costumam dar entrada no meu blogue. Primeiro porque não quero perder tempo descrevendo os maus tratos a que sou submetida em certas ocasiões, segundo porque não quero dar de caras com más recordações um dia que releia o que escrevi.
Mas este cliente filho da puta é especial, vale a pena escrevê-lo, ainda que não me vá alongar muito.
Um dia já distante foi o que foi, não interessa. Hoje foi menina para aqui, menina para ali, sorrisos e boas tardes, gestos cordiais e outras coisas ridículas. Ridículas porque foi dele que saíram. Porquê a mudança radical? Hum... Descobriu que eu estou mais rodeada de família do que seria suposto. Descobriu que trabalho rodeada de família muito, muito chegada...
Mas eu também não me descoso, sou formal no trato e daí não passo. Dizem que a gente deve dar lambadas com uma luva de pelica e a formalidade com que o trato chega para tal.
Mas no blogue sou diferente:

Tens medo que te rachem os cornos ao meio. Cobarde. Não sou de queixinhas, safo-me sozinha. Grande besta. E safo-me bem. Cabrão de merda. Filho da puta.

A dieta

Rodolfo, doente do coração pelo excesso de peso, tinha sido aconselhado pelo médico a iniciar uma dieta equilibrada, era forçoso comer de duas em duas horas, a menos que quisesse morrer brevemente. Ercília, esposa dedicada, providenciava as porções: uma bolachinha, uma laranjinha, um pacotinho de leite. Acondicionava tudo na lancheira e levava na longa viagem das terças, quintas, sextas, sábados e domingos.
Íam na carrinha Ford Transit, uma geringonça com quatro rodas e um motor cansado que albergava nove pessoas. Era noite cerrada, a geringonça descrevia as curvas sem despacho, rectas também não era com ela mas os ocupantes chegavam ilesos ao seu destino. Fazia um frio de rachar, aquelas paragens saloias nunca foram fáceis em tempo húmido. Às vezes, para distrair e esquecer as incontornáveis questões da natureza, cantavam em uníssono, outras contavam situações das suas vidas, engrandecendo sempre o nome do Senhor, que só Ele é digno de louvor, que a tribulação vem sim senhores, a tentação faz parte, mas Deus é Pai, não padrasto, e dono da soberania.
– Está na hora da paparoca! - Diz Ercília, a zelosa esposa. Saca a bolachinha Cream Crakers de dentro da lancheira, eleva-a no ar como se estivesse a fazer uma apresentação artística a um palco atulhado de espectadores, aqueles furinhos da bolacha filtrando a luz, como holofotes minúsculos e foscos.
Perante o cenário Rodolfo faz uma cara descontente, mas finge, adora ser paparicado por Ercília, o carinho e atenção da esposa-mãe são mimalhices reconfortantes. É a sua vez de mostrar ao mundo a beleza rara que é uma bolacha Cream Crakers. Sorri, satisfeito afinal. Mostra uma dentadura invulgar, existe um espaço entre cada um dos quatro dentes da frente onde caberia outro dente, se as gengivas daquele homem fossem todas preenchidas teria mais uma série de dentes do que o resto das pessoas que viajavam na carrinha...
Aqueles dentinhos da frente muito ralos, uma dentadura dente-sim/dente-não e a cara cheia de sinais é o que melhor lhe recordo.
Rodolfo, mui caro amiguxo doutros tempos e doutras vontades, se um dia eu voltasse a vê-lo seria um prazer imenso.

Precedência ao próximo post

– Lembras-te como se chamava a mulher do Rodolfo?
– Era a Rodolfa.
– Oh! Não era nada, a gente é que lhe chamava assim.
- Não me lembro...
- Não era Ermelinda?
- Não... Era Celina ou uma coisa assim.
- Olha, sabes que mais? Fica Ermelinda e pronto.
- É uma pena mas a gente não lhes pode perguntar, já morreram os dois.
- Qual dos dois morreu primeiro?
- Ela.
– Ah... Não me lembrava.

Depois veio-me à memória, por obra do acaso ou então porque a minha memória é competente e mantém os ficheiros à tona: É Ercília! A mulher do Rodolfo é Ercília! Telefonei-lhe: 21 ti ti ti ti ti ti ti.

- ***** & *******, boa tarde!
– Ercília!
– Hã?!
– A mulher do Rodolfo! Era Ercília!
– Ah...

Missão cumprida, ou uma espécie disso.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Champô Johnson's

Na 'Caderneta de Cromos' da Radio Comercial, uma rubrica de Nuno Markl, é comum ele lembrar produtos do antigamente. Fala tão eloquentemente da saudade dos tempos em que os tais produtos faziam parte das nossas vidas que faz crer a quem o ouve a total inexistência dos mesmos, quando a maioria deles ainda subsiste.
Hoje foi a vez de o Nuno Markl lembrar o champô Johnson's para bebé, sendo que desta feita não fez referência ao seu desuso mas sim à alteração do cheiro. Depois de ouvir esta afirmação dirigi-me à prateleira e saquei rapidamente uma embalagem desse champô, abri a tampa e meti lá o nariz. Não cheira, não... O bicho tem razão, o champô Johnson's não tem o cheiro de outrora.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

As margens

Lisboa - Cais do Sodré, 25 de Maio de 2011

Enquanto Milena observava as águas do Tejo como se no mundo não existisse mais nada para fazer, na outra margem, Isabela tratava do jantar e dava apoio à família.
Qual das duas seria a mais - ou a menos... - feliz?

Chupão

Há pessoas que tiram um dia para chupar os dentes. Um dia em concreto: 25 de Maio de 2011. É como tirar um dia para descansar ou passear. Ou tratar de alguma papelada pendente. Neste caso o dia 25 de Maio de 2011 é para chupar os dentes, que há coisas que fazem muita falta.

O espirro

Espirrei. Na mesa ao lado três cadeiras foram afastadas para trás com estardalhaço e os três ocupantes puseram-se a caminho com tal vontade que... Esperariam o espirro?! Seria a ordem de comando?! Calhando...

Politiquices

Vi na TV o Passos Coelho empoleirado num escadote a colher cerejas e a levá-las à boca. Fiquei boquiaberta, atónita com a visão. Oh céus... O homem come!