quinta-feira, 21 de julho de 2011

Desculpa lá!

Ó Antunes, desculpa lá mas a minha música é mais alta e melhor que a tua.

Ah, desculpa lá mas aqui está a tocar o Michael Bolton...

Olha! E aqui é a Lady Gaga que está a berrar! Desculpa lá mas este bit é muito melhor que o teu! Esse caramelo só sabe derreter os corações das mulheres mal-amadas...

Gina... Olha, desculpa lá mas eu hoje tenho de andar aqui a mondar as floreiras e arranjar o jardim. Desculpa lá o estorvo...

Omessa, homem! Desculpa lá tu! Eu ando a ver se arrumo os rolos de cisal num sítio de fácil acesso.

Mas a minha música é melhor que a tua e o meu rádio é mais giro e eu sou melhor a varrer o jardim do que tu achares uma lugar para arrumar... O quê? O que andas tu a arrumar?!

Fio cisal. Temos rolos de cem e de duzentos e cinquenta gramas e também há de um quilo. Queres comprar?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O olhar

Uns olhinhos brilhantes de ebriedade fixaram-me durante escassos segundos. Apesar do efeito do álcool havia neles uma ingenuidade comovente. Sustive aquele olhar carregado de curiosidade. Perguntou-me:
– Como é que consegues?
Perguntou sem dar espaço à resposta. Eu ia responder, oh se ia. Diria que não consigo, na verdade. Não consigo aguentar, é demais para mim. Rodopio cá dentro, procuro prazeres, é o que faço. Observo as folhas, as flores e o efeito ondulante que o vento lhes provoca. Atento nos animais, nos objetos, olha só que lindos, e as nuvens, já viste como estão hoje? Olho para os gestos das pessoas, os olhares, os passos, as atitudes. Capto ninharias, coisinhas ínfimas. Acato as ordens da natureza. Atento. Atento em tudo. E não reajo, preferencialmente. Isso aniquilaria os prazeres, deitaria por terra uma imensidão de sentimentos que me fazem sentir viva.
Ah, e escrevo. Quando escrevo fico com a ideia de que possuo todos os poderes e, portanto, consigo aguentar a minha vida. Escrevo muito. Passo a vida a escrever, diga-se. Martelo nas teclas ou penso em frases, desenho uma vida abundante. Escrever é algo bom. De certo modo escrever perdoa os males do mundo. Acontece assim, não sei como nem porquê.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Retalhos da vida duma mulher

Vou na rua. A barra da minha saia levanta-se com a ventania revelando aos transeuntes os joelhos e parte das coxas. Com o balanço do meu andar as alças do soutien deslizam nos ombros provocando-me arrepios de desconforto. Isto em simultâneo, digamos. Amanhar a saia e colocar as alças no sítio at the same time é um prodígio exclusivamente feminino. Isto é tanto assim porque os homens não usam saia nem soutien, pois claro.
A vida duma mulher pode ser um suplício... Melhor seria andar despida, em dias ventosos como este.

Fui dar com isto

(uma vez que não tinha mais nada que fazer...)



Ai tanto 'que' e tanto 'eu', credo!
Mas não é isso o que interessa e sim o único comentário que recebi, cuja autoria pertence à rica filha. Apresento-o tal e qual por espelhar a época em que ela ainda não sabia que queria (e iria) ser uma aluna de línguas.

«atao e nao es? es mais bonita que a shakira... ;) la por tares a ficar velha nao quer dizer que sejas feia!! es uma beleza latina... ;)»

E é assim, caros leitores, há cinco anos atrás já eu estava a ficar velha...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vai à merda

Este post destina-se a sossegar todos os bravos que já me mandaram à merda verbalmente e a todos os cobardes que se limitaram a pensar na injúria.
Eu hoje fui à merda. Acalmem-se lá, eu hoje fui a essas profundezas odoríferas, pastosas e pestilentas. Regozijem-se, vá.

Empréstimo

Ele lembrou-se de me emprestar um livro: 'O bilhete de Lotaria nº 9:672', Júlio Verne.
Curiosa, perguntei-lhe porque se havia lembrado de me emprestar um livro. Diz que todos os dias me vê a ler enquanto espero o almoço e como tal... E porquê este, pergunto. É para qe veja o que um bilhete de lotaria pode fazer, leia, leia, respondeu. Depois continuou falando de livros e de leitura, diz que tem muitos, muitos livros, tem dias em que lê dois. Espantada, perguntei-lhe se recorda todas as histórias e se as consegue reter na memória. Sim, consegue. E nos olhos brilharam lágrimas de emoção, 'eu tenho muitos, muitos livros...'.
Os livros são uma criação maravilhosa, capazes de suscitar as mais nobres emoções...

As consoantes que não falam

Será que tenho abolido todas as consoantes mudas dos meus textos? Elas não falam e, portanto, não dão nas vistas, mas será que dou por elas?
Não tenho a certeza, é difícil ficar atenta uma vez que tenho (alguma) prática em escrever. O escrever é algo tão automatizado, tão enraizado em nós...

O senhor arquitecto

É um homem inquieto,
o senhor arquitecto.
Fala que se desunha e não está parado nem um instante.
Comprou duas bilhas de gás lá em Espanha e
ficou tão admirado com o preço
que fez o que achou correcto:
uma espécie de prospecto.
Tirou logo uma fotografia e
escarrapachou-a no Fuçasbuque.
Se alguém lá cair, vai ficar circunspecto,
com a espécie de prospecto
do senhor arquitecto.
Hum... Não é que falte atenção e afecto,
ao senhor arquitecto
mas acho que vou pesquisar
e achar o Fuças do senhor arquitecto,
esse homem inquieto.
Dele, até sei o nome completo...


Publicado neste blogue em 29 de Março de 2011

Vozes no meu ouvido

Tínhamos 12 anos. A Maria de Jesus tinha a voz igualzinha à da irmã, Maria de la Salette*, era o que dizia a Ana Paula. Ao telefone então era demais... Ela não conseguia distingui-las.
Nunca tinha reparado em tal e a partir daí fiz-me atenta e vi que realmente havia uma semelhança considerável entre as vozes das duas irmãs.
Com os anos apurei bastante o ouvido.

Olá menina, sabe quem fala?
Sei, é a senhora que tem o mesmo nome que a praia.
Ah, tenho uma voz assim tão especial?
Não, eu é que tenho bom ouvido...

Bom-dia, eu...
Bom-dia, dona Arminda!
Ah! Como sabe que sou eu?!
Tenho bom ouvido.

*Não sei se é assim que se escreve. Caso não seja, as senhoras e as meninas com esta graça façam-me o obséquio de perdoar o erro.

O cimo do monte

Arrabaldes de Pai-Joanes, 16 de Julho de 2011

Este rochedo faz parte das minhas recordações infantis. Quando mudei para a Rua do Bêco ficava bem visível da janela da cozinha, imponente, até, como se fosse algo fantástico, qualquer coisa dentro do extraordinário e impossível ver ao perto .
Mudei de casa aos seis anos, ainda não tinha altura para ver o rochedo da janela mas lembro-me perfeitamente de andar com o meu irmão a ver se chegava a todos os interruptores da casa. E chegava, senti-me enorme, que sensação boa.
Mas vamos ao rochedo.
Os anos foram passando e o meu irmão lá de quando em quando idealizava um passeio para vermos as rochas de perto e andar a passear em cima delas, se fosse caso disso. Um dia fazemos um lanche e vamos lá, dizia ele. A ideia era irmos os três: eu, ele, e a minha mãe. Nunca fomos.
Por alturas da adolescência já eu conseguia admirar o rochedo enquanto arrumava a cozinha. Imaginava-me engendrando um plano e caminhando até lá sozinha e cheia de medo. Não venci o medo, nunca fui.
Há uns meses atrás descobrimos uma estrada pouco importante que liga Caneças a À-dos-Calvos. Soltei um grito de surpresa quando vi o rochedo. O meu rochedo! Aqui tão perto! Numa outra perspetiva mas é o meu rochedo!
Tirei várias fotografias mas nenhuma ficou do meu agrado. Este sábado, passando por lá novamente, cliquei outra vez. Agora está melhor...

(Um dos) ossos do meu ofício é...

… Estar sentada na sanita dum WC público, ter à frente dos olhos um puxador de porta e verificar imediatamente que o espelho retangular deste se encontra inclinado dois milímetros.

Ai o vento...

Bom-dia. A senhora tem cá daqueles espelhos para a casa de banho? Grandes... Hoje está tanto vento que tenho o cabelo todo em pé, pareço uma bruxa!

Ok, então eu não embrulho o espelho para a senhora amanhar o penteado no caminho para casa as vezes que for preciso.

A muita idade

Não quero que a minha mãe envelheça. A minha mãe não quer que a filha dela envelheça. Ela tem de ficar sólida no seu posto para me amparar, eu tenho de ficar sólida no meu para apoiá-la. Os nosso desejos chocam-se frontalmente, carneiros obstinados, quase imobilizados pela violência do choque.
Podemos chegar a extremos absurdos.
É muito simples: censuro à minha mãe ter-me dado a vida sem me ter dado também todos os dons, ter sido simultaneamente a minha boa fada e a minha fada má. Tal como à primeira alegria corro para ela antes de para mais alguém, é também para ela que corro, cheia de cólera, a cada derrota. Nãolhe perdoa por não me ter feito perfeita e imortal. Agora que a velhice me ronda, ela não suporta as minha imperfeições e a minha mortalidade.
Não tive estas exigências em relação ao meu pai. Ele estava de fora. (...)

«Tu ainda és nova!», diz ela a cada instante. Não é verdade, sou mais velha do que ela, pois tenho ainda de manter um emprego e tenho de carregar nos ombros uma velha mãe.
No espelho refletimo-nos uma e outra, indefinidamente, e nas profundezas da imagem ressoam os nossos pedidos de socorro.
(páginas 150, 151)

In 'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux

domingo, 17 de julho de 2011

Acerca de mim


Hoje não vale a pena falar acerca de mim.
Nunca sou o que julgo ser. Não transmitimo o que me parece. Não penso como acho que é o correto. Sequer faço o que idealizei.
As pessoas tiram as suas próprias conclusões, normalmente certeiras.

...

Tou contente.
Já fiz is-to e a quilo.
Daqui a nada vou ali assim ver se vejo alguma cena curtida.
Depois volto.
Demoro.
A vida é bué da fixe quando é assim.
Por isso vou lá ficar um cadito a ver a quilo.

Comunicação

A mesa da cozinha. Local para conviver e comunicar. O rico filho usa-la com frequência para comunicar em modo escrito:

Fui às Festas de Loures. Já jantei uma pizza. 
D G

Se não tiver acordado à uma por favor acordem-me. 
 D G


Fui sair outra vez. Já comi uma pizza. Pai, depois podes pôr o meu telemóvel à carga? Não consigo -.- 
D G

Botões

Loures, 17 de Julho de 2011


Bem, fizemos um desvio na nossa viagem. Estamos agora sentadas em frente da caixa dos botões, como diante de uma merenda.
O botão. O prestígio concedido a este acessório. O pronto-a-vestir eliminou-o, uniformizou-o. Mas nessa época mandavam-se fazer os vestidos na costureira, as pessoas submetiam-se a longas provas, e escolhiam-se também os botões, peça-chave do vestido ou do casaco. Nessa fachada que é criada pelas roupas, constituíam a única verdadeira fantasia, o que sobrava da inverossímel abundância de enfeites imaginada na corte dos nossos reis. No botão concentrava-se a preocupação de estar bem vestido e todos os detalhes harmoniosos.
Ainda hoje, se inclinássemos a caixa, os botões arrastariam na sua cascata tilintante a recordação de cada uma das roupas que tinham ornamentado, uma grande torrente que me levaria directamente à minha mãe, aos territórios da sua vida.
Lisos ou granulosos, cheios ou esvaziados, triangulares, ovóides. Pequenos como pepitas ou grandes, finos ou espessos. E as cores: azul-pavão, azeviche, cor de madeira, azul-céu, e as cores de todas as pedras preciosas ou semi-preciosas. No centro ou nas pontas, os furos: dois ladao a lado, bem separados e bastante grandes, ou três, em triângulo no fundo de uma depressão central, ou quatro, paralelos dois a dois, quando se pretende que segurem bem, solidamente. Olhando bem, são um pouco obscenos, como os orifícios minúsculos do entre-pernas, ou os de celulóide na parte de trás dos fatos de banho.
(páginas 132/133)

In ‚Frases curtas, minha querida‘ de Pierrette Fleutiaux

sábado, 16 de julho de 2011

22

Lisboa, 11 de Julho de 2011

São 22, os anos de casados. Temos alguns defeitos, muitas virtudes, 2 filhos e outras coisas que hoje não pertencem aqui. Caminhamos lado a lado, será essa a maior virtude que possuímos.

Pão de Milho à mexicana

Ingredientes secos:

3 chávenas de chá de farinha de trigo
1 chávena de chá de farinha de milho
1/4 chávena de chá de açúcar
2 colheres de chá de fermento em pó
2 colher de chá de sal fino

Ingredientes molhados

200 gramas de manteiga derretida
3 ovos
2 chávenas de chá de leite

Ingredientes doutra espécie (facultativo)

225 gramas de queijo Cheddar ralado
1/3 chávena de chá de cebolinho picado
1 pimento (?) jalapeño picado muito miúdo

Juntar todos os ingredientes secos numa tigela e peneirá-los.
Reservar.
Juntar e misturar todos os ingredientes molhados numa tigela e juntar aos poucos os igredientes secos.
Deixar repousar durante 20 minutos para engrossar um pouco.
Acrescentar à massa o queijo, o cebolinho e o jalapeño.
Vai ao forno em forma redonda untada de manteiga e polvilhada de farinha durante aproximadamente 40 minutos.

Nota: ainda não fiz este pão com o último conjunto de ingredientes. Assim simples é muito bom. Bom apetite.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Olhar

Desejo que as pessoas falem comigo. É um desejo intenso, acontece quando me sinto só, como hoje. Normalmente as pessoas não sentem a minha disponibilidade, limitam-se a olhar, o que me deixa coberta de ideias já anteriormente criadas e que não vou repetir agora.
Identifico nos olhares muitas coisas. Não sei se correspondem àquilo que efetivamente as pessoas pensam ou sentem – curiosidade, espanto, repulsa, avaliação.
Não saberei a verdade, quando arranjo a coragem para perguntar, sem rodeios, como é meu costume, devolvem-me respostas evasivas e fogem assim que podem. As pessoas fogem, literalmente.
O olhar das pessoas lisonja-me, no entanto. Esta atenção dá-me alento. Alento que utilizo para... não sei. Viver?

Mantra

Passo o dia a repetir para comigo:

Sou uma senhora terna
Sou uma senhora gentil
Sou uma senhora branda
Sou uma senhora bondosa

A ideia inicial é ficar convencida disso mesmo mas tenho que me deixar destas coisas porque só consigo envolver-me com a ideia oposta. As repetições são circulares, transformam-se em espirais que me sugam até aos males do mundo.

A mania das doenças

Hoje estou muitíssimo doente da cabeça mas é tudo mentira.

Descobri recentemente que sofro duma doença giríssima chamada síndrome de Tollete. Consiste em relacionar com sexo tudo o que se ouve, a pessoa não se contém e faz comentários abusivos e completamente inoportunos gerando um grande constrangimento nas pessoas em geral.
No meu caso em particular não creio que mereça lugar na patologia mas acho que estou bem lançada nessa direção.
Não sei se esta 'doença' tem cura. Não vou procurá-la. Não vou tentar eliminar a doença, ou sequer tentar esquecê-la. Não vou, também, pensar nela. Estou bem assim, a loucura é-me necessária. Se está iminente, tanto melhor.


Queria fazer este post giro, cómico até, mas só me vem à cabeça aquela gracinha:
Como se chama a mulher do furacão?
Furacona.

Juventude

Três raparigas adolescentes seguiam à minha frente. Notei que iam vestidas dentro do mesmo estilo: calções muito curtos, t-shirts brancas. Tudo dentro da moda dos dias de hoje. A semelhança era tal que pareciam clones umas das outras.
A adolescência é a idade da afirmação, de procurar algo que se ajuste, de ser diferente, e no entanto os adolescentes mais não fazem do que seguir as pisadas uns dos outros. Começamos cedo a saltitar de um extremo para o outro e fazemo-lo incessantemente o resto das nossas vidas.

Tenho uns óculos novos, pois tenho

Tenho uns óculos novos, pois tenho, que me dão muito assunto para escrever...

Os meus óculos vieram dar um certo movimento à minha vida. Viro a cabeça para a esquerda e o mundo gira, viro a cabeça para a direita e o mundo dá uma volta completa. Além do mais, agora não posso andar de cabeça baixa, arrisco-me a enfiá-la nos ajaxes ou nas lixívias, se baixo a mona parece mesmo que vou marrar contra qualquer coisa.

De notar: escrevi 'cabeça baixa' substituindo a expressão 'cornos no chão' que utilizo vulgarmente porque acho que ter escrito a palavra 'marrar' chega e sobra para me dar um ar bovino.

Tenho uns óculos novos, pois tenho

Vejo as pessoas gordas...
Sim, eu sei. Não digas, não digas! Não digas que digo eu: a ver se me lembro de não me espreitar ao espelho quando os tiver na cara.

A mania das doenças

Levantei-me a custo, ai que me doi tanto a minha omoplata. Caminhei até à casa de banho com fortes dores no calcanhar esquerdo. Depois chegou a dor de cabeça, seguiu-se o sono e a astenia. Tenho que ir trabalhar. 'Bora lá... No caminho fico muito nervosa sem saber com o quê. Há um tremor cá dentro. Deixo-me estar quietinha a ver se passa. Quero deitar-me. Bebo um café, espirro três vezes. Dói-me as pernas. Suspiro com o desconforto nos braços. Tenho sono. Dói-me a tola. Subo escadas, dói-me mais a tola. Não quero fazer a ponta dum corno. Reponho artigos nas prateleiras. Espirro três vezes. Dou os bons-dias e as boas-tardes sem prazer. Quero deitar-me. Desejo tudo de bom mas não quero nada disso. Dói-me a mona p'ra caraças. Tenho muito sono. Enteso os ombros numa tentativa de elevar o pesado mundo que carrego. Fico rígida e dói-me toda essa zona do corpo. Custa-me horrores tentar desfazer a rigidez. Finjo que a desfaço. Fingir que não sinto nada cansa-me até mais não. Quero deitar-me. Procuro alhear-me de tudo o que me envolve. Espirro três vezes. Tenho sono. Dói-me os pés. Os calos dão cabo de mim.

Para começar...

… Devo dizer que isto hoje não está nada de jeito.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Do lado de fora

Lisboa, 14 de Julho de 2011

Às vezes a casa está só.
Às vezes a casa está vazia.
Às vezes a casa está abandonada.
Desprovida de presenças, descuidada. Sem vida. Inerte.
Mas nunca tinha visto uma casa com uma mistura de tudo isso.

...

Vamos ao que importa: A viagem

Por motivos que não tem interesse revelar, de há largos meses para cá não conduzo com regularidade ou frequência.
Da última vez, entrei no carro: «ok, Gina Maria, lembras-te que o pedal do lado direito é para acelerar, o do meio para travar, o da esquerda para engatar as mudanças, certo?»
Certo, certo.
Liguei o motor antes de fechar a porta, um estranho hábito que tenho desde sempre (não, não sei se faço o mesmo quando está a chover), arranquei e fui onde tinha de ir sem nunca mais me lembrar das minhas próprias recomendações. Conduzir é como andar de bicicleta e fazer amor – podem passar décadas mas a gente nunca esquece.
Ainda sei conduzir... Oh yeah!

A lista

O homem do restaurante achou particularmente engraçada a minha forma de pedir o prato: «arranja-me a primeira posição, por favor».
De há uns tempos para cá confundo qualquer lista com o Kamasutra.

1º prémio

Diz-se que todas as putas têm sorte mas não sei se concorde com a ideia.
Joguei há uns tempos... nada.
Joguei há duas ou três semanas... nada.
Joguei na passada terça-feira... nada.
Mais não faço do que ajudar a Santa Casa e os 'pobrezinhos' deste país. Uma causa nobre, portanto. Às putas não lhes é dado possuir qualquer réstia de nobreza, creio.

Tenho uns óculos novos, pois tenho

Queixava-me de falta de vista para ler as miúdas (termo que ouvi recentemente a minha sogra dizer), os óculos que eu usava dantes, usava-os há 9 anos e eram de uma graduação muito reduzida. A coisa, em questões do ver, andava de mal a pior, muito cansaço nos olhos e na cabeça, em particular se passava muito tempo a olhar para este monitor de onde escrevo agora. É tátil, dá a ideia que tem um revestimento qualquer que lhe confere uma tonalidade turva e brilhante ao mesmo tempo, o que me esgota os olhos por demais.
Mas indo ao que interessa, tenho uns óculos novos. Quando soube o preço até fiquei a ver mal (sério?!) e posso dizer que me custaram os olhos da cara (hum...).

O gesto é tudo


– Olhe, eu queria uma coisa assim... (aponta para o artigo)
– Um atomizador.
– Porque a... (gestos circulares indicam algo curvo)
– A bica da torneira.
– … coisa faz... (sons que querem assemelhar-se a água a cair)
– A água salpica.
– … Está muito alto e... (toda a linguagem gestual anterior muito desordenada, sem nexo)

(… E a senhora precisa de um atomizador que evite os salpicos de água, o desconforto pelo vestuário molhado e as recorrentes mudas de roupa e ainda a limpeza – porventura desnecessária - de armários e tudo quanto estiver ao alcance das pingas. É isso?)

Não, não vendi um atomizador a esta senhora. O balcão tem destas coisas.

Dar a conhecer

Tenho-me esquecido de falar do senhor dos sabonetes pedra-pomes, o que é repreensível tendo em conta que escrevo tudo o que envolva o meu blogue.
De certo modo este post vai contra o que escrevi neste aqui, a vontade intrínseca de ser reconhecida e aplaudida versus o secreto desejo de ser (leia-se continuar) solitária na blogosfera.
Não sei como chegámos à parte da conversa que apresento mas não faz mal. Eu sou a das falas verdes e o senhor pedra-pomes é o das falas vermelhas.

Ninguém ouve as minhas histórias.

Se não ouvem, escreva-as.

E escrevo! Pode crer que as escrevo! E digo-lhe mais: você já consta nas minhas histórias.

Sério?!

Sim. Escrevi do sabonete pedra-pomes que 'até arranca a pele'.

Ah...

Se quiser eu imprimo o texto e levo-lho lá.

Ele não disse sim nem não, acho que ficou de tal maneira surpreendido que levou tempo a processar a informação. Nesse dia à noite pesquisei o texto e imprimi-o. Assinei por baixo e coloquei o endereço do blogue. Entreguei-lhe o papel assim que tive oportunidade, revelei que tenho um blogue e que gosto imenso de escrever, «se o senhor quiser ler está aqui o endereço». O pior é que me esqueci que o endereço tem um 2... Talvez por isso nunca tenha dado pela presença deste caro senhor.

verdeagua2.blogspot.com

Data de fabrico

O meu mais recente creme de mãos foi fabricado em 24 de Novembro de 2008. Deu-me vontade de reler o que fabriquei nesse dia...






Gosto de recordar o que escrevo. Sei que a hipótese de relembrar e reviver emoções porventura tristes está presente, mas gosto de reler as minhas palavras. São carícias ao ego, masturbação intelectual, ou qualquer outra coisa, seja lá o que for é sempre concernente ao EU.
Nesta fase não andava lá muito contente com a repercussão da minha escrita, sentia-me frustrada e de certa maneira ofuscada pela exposição, talvez as luzes da ribalta me estivessem a encandear, a blogosfera já não me deslumbrava. Depois passou.
Era assim a minha vida de bloguer em 24 de Novembro de 2008.

Adenda:
Depois passou mas lá de quando em quando volta. Escrever nem sempre é uma maravilha na minha vida.

Cabeleireiro em modo macho

Passei numa rua e olhando de soslaio para dentro de um salão de cabeleireiro vi um homem com uma peruca de folha de alumínio e a cabeça enfiada num secador daqueles de pé alto. Fazia madeixas, presumo. Achei uma visão tão fantástica, tão fantástica... que voltei atrás para espreitar sem qualquer pudor enquanto dizia a quem me acompanhava 'espera aí que eu tenho de ver isto outra vez!'
E lembrei-me do Mimi... o meu novo cabeleireiro.


Iniciou-se o corte. O Mimi possui uma técnica inovadora: corta os cabelos a seco, é assim que vê e sente a personalidade do cabelo das suas clientes. Explicou-me tudinho, disse que eu ia ficar muito bem com o corte que ele idealizara levando em conta o meu tipo de cabelo, ele e o seu saber dar-me-iam um ar mais leve, mais menineiro. É um facto bem presente que quando se chega a esta idade há opções que se tomam em prol do 'parecer mais menina'.
Depois lavou-me a cabeça e fez uma massagem relaxante. Aqui não páro de pensar: «oh céus, ainda bem que sou mulher!»
No fim de me pentear reparte umas gotas hidratantes por toda a cabeleira, retoca o aspeto geral, refere efusivamente que estou gira e ainda me faz um desconto. Oh céus... que cabeleireiro espetacular fui eu arranjar!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A porrada

Caríssimo leitor, se és taxista, tens um Mercedes a cair de podre e circulavas ontem na esquina da Rua José Falcão com a Avenida Almirante Reis (Lisboa) por volta das cinco da tarde, lê aqui, por favor.

(O caríssimo leitor que não se encontra nestas circunstâncias também pode ler, em querendo.)

Aquele baque que ouviste fui eu, sim. Peço desculpa mas foi sem intenção. A culpa é dos speeds que ando a tomar, fico eléctrica, hostil e agressiva. Não creio que o meu telemóvel tenha feito estrago na porta traseira do lado direito, ainda que o carro esteja podre, como já referi. Mas também não tinhas nada que me aflorar os passos, convém deixar os peões terminarem a travessia, não é?
A próxima vez não farei assim, fica descansado. Eu prometo.

A mulher bronzeada

Ai, a menina tem-lhe feito bem a praia, dizem todos, se reparam na minha cor trigueira. E é num misto de inveja e admiração que o fazem.
Pois bem, não é praia o que acontece na minha vida, é trabalho ou então passeio pedestre. Vou daqui para ali e depois chego cá. E vou e venho. E vou e venho. Neste espaço de tempo apanho sol e arranjo esta cor dourada.
É uma linda cor dourada, eu sei. Roam-se, vá.

terça-feira, 12 de julho de 2011

vida 
é bela 
e eu 
ando 
a estragá-la.

A vendedora

'A senhora tem de vender o seu peixe!'

É uma frase que já ouvi uma dúzia de vezes, para aí. É verdade. Eu estou aqui para vender, essencialmente. Faço outras coisitas mas não passam de complementos e tarefas secundárias. Olás, passou-bens e sorrisos, também são necessários. Mas vender é primordial, indubitavelmente.

Para que conste

Convém deixar escrito que os meus pais ligaram hoje de manhã bem cedo...

- Gina, olha filha, lembrou-me que tu fazias anos o dia inteiro, até disse à ti Bia que hoje o ti Chico João também fazia anos se fosse vivo, só que depois à noite nunca mais me lembrou...

Ok, Ok. Vá, eu é que pensava que a senilidade já se tinha instalado nessas cabecinhas...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Aniversário ao minuto

0:05

Já é dia 11!, digo eu. Parabéns, diz o rico filho. Parabéns, linda, diz o Luís. A rica filha estava ausente mas assim que se fez presente: parabéns, mãe!

8:28

Primeiro SMS do dia, os parabéns dum ginásio que frequentei há anos e que ainda me tem nos registos...

9:35

Um parabéns envergonhado, outro parabéns baixinho: parabéns.
Acho que este último pensa que eu me preocupo com a idade. Para o livrar dessa ideia levantei um braço e disse alto (realço que estávamos na rua): Ei, eu hoje faço anos! Iééé!

10 e não sei quê

Eu de novo na rua. Eu e outros. Um senhor passou por nós e fungou ruidosamente. Disse 'bom proveito' convencida que o homem não me ouviria. Mal pensado, Gina Maria... O homem virou a cabeça e jogou-me cá uns olhos... Tenho que deixar de pensar que ninguém me ouve.

11 e tal

Novo SMS, desta feita da Acessorize. Querem dar-me 20% de desconto num artigo que não esteja em promoção. Que generosos...

12:32

Os meus pais ainda não me ligaram...

12:38

A única diferença que esta segunda-feira tem das demais é que eu hoje faço anos.

(Parabéns!)

Obrigadinha...

Ah, e também tenho um vestido novo. Fui eu que fiz.

(É lindo...)

Eu sei, pá!

12:39

Tenho fome.

12:41

Passou uma senhora na rua. Bem se vê que as pessoas andam todas na rua ou eu não estaria a escrever tretas a cada minuto...
Mas indo à senhora: é chata, tem a mania, é alérgica. Diz que quando está aqui tem muita comichão na garganta, que a despache rápido para se lhe acabar o sofrimento. Depois de despachada fica-se, relatando coisas e loisas da sua vida. Há tanta gente assim...

12:51

O meu colega disse-me que nunca teve uma colega com 43 anos...
Hum, faço eu, amuada.
Então, é verdade!, riposta o bicho ruim.

13:22

Tenho à minha frente o almejado almoço. Há horas felizes.

14 e alguns minutos

A Henriqueta pinta-me as unhas num rosa fluorescente.

16:31

Como eu mostrasse dificuldade em ler as letras miúdas que revelam as intruções de uma cola poderosa e o cliente revelasse que também já não vê nada de jeito, um outro cliente que estava à espera de vez prontificou-se a ler-nos as letrinhas. Não foi cavalheirismo, antes exibicionismo. Bem-vindo, no entanto, esse exibicionismo, caro senhor.

16 e... não sei

Um amigo entrou para me dar os parabéns e diz que aproveitava, já agora e tal, e comprava um emboque de sanita. Parabéns, diz ele baixinho. Mau maria, outra vez em surdina? Mas o que é que esta malta pensa? Que me acho velha?
São quarenta e..., quer ele saber. Três, digo eu prontamente e reprimo uma resposta maliciosa: «voltei a ter os três...»

16:35

A J. Lo canta o floor e o floor e o floor. Também quero...

16:55

Vou ao pão ou à fruta. Vou ali. Vou dar um volta. Interrogo-me se seria boa altura para comprar aquele recipiente de vidro com tampa de plástico para guardar as linguíças.
Nesse estabelecimento, um menino já grande contorce-se e diz à mãe que tem muita vontade de fazer chichi. A mãe, em tom de ralhete manda-o ficar calado e juntinho a ela. Fiquei a pensar se o miúdo estando estático aliviará a mijaneira...
Depois, às 17:30, para aí, passam os dois por mim, mãe e filho. O miúdo vem descontraído, pergunto baixinho (este não me ouviu, não) «então, já fizeste chichi?»

18:00

Começo a ficar inqueita, os ricos filhos não há meio de chegarem. Vamos sair...

18:21

Ah, chegaram. Olá, olá. Beijinho, beijinho. Parabéns, mãe, outra vez.

19 e picos

Estamos numa oficina. O meu carro vai lá ficar uns dias para reparar a pintura.
É indubitável: um homem dá um jeito do caraças na vida de uma mulher. Se eu tivesse que tratar de oficinas, seguros e franquias...

19...?

Tenho fome. Tenho sono.

20 e...

Estamos a comer. O post que deixei ontem programado não está longe da verdade... Há também pudim de manga, camarões e aquela massa saborosa.

21:25 (talvez)

Casino. A rica filha acha que não vai poder entrar porque está de ténis... Ela e o mano.
Jogar, joguei, mas não ganhei nada... Chiuf, chiuf...

21:59

Ligam-me de novo para o telemóvel. Não são os meus pais... Espanto-me, é o sô Ventura. Diz que o computador dele havia apitado avisando-o de que faço anos. Hum... Espanto outra vez. O seu computador apita, pergunto eu. Diz que sim. Pi-pi, pi-pi, tenho vontade de perguntar mas deixo-me disso, limito-me a agradecer e agradecer e agradecer, só porque, tirando o pi-pi, pi-pi do computador do sô Ventura não se me chega mais nada para dizer.

22...?

Ligo o meu computador, que não está programado para apitar em dia nenhum, vejo os mails e os dois comentários existentes no meu blogue a desejar os parabéns. É o Waterfall e a Redonda. Obrigada e obrigada.


Não sei que horas são. Tenho sono. Os meus pais não me ligaram. Os miúdos de cima ainda brincam, alegres. Tenho sono...

Anos

1, não me lembro mas a minha mãe diz que eu apaguei a vela com uma colher.

2, … 3, … 4, …

5, posei num fotógrafo. Achei-me forçadamente empertigada até ao clique, quieta em demasia, ai que sofrimento. O desenvolvimento deste episódio consta aquia.
Estávamos em Albernoa. A minha mãe ensinou-me a minha nova idade: agora, a minha filha diz que tem 5 anos, a minha filha já não tem 4, tem 5 anos. Desenvolvimento neste post.
Creio que foi nesta estadia que revelei um grande espanto por a minha mãe ter ela própria uma mãe. Não me lembro, a minha mãe é que conta.

6, … 7, … 8, …

9, veio muita gente à minha festa. Ofereceram-me um livro, o qual já escrevi aqui.

10, só está na lembrança o aperceber-me que doravante escreveria a minha idade com dois números (hoje diria dígitos) e que nunca mais deixaria de ser assim a menos que chegasse aos 100. Esta menina já pensava em cada coisa...

11, … 12, …

13, chorei baba e ranho, não queria deixar de ser criança.

14, era domingo. Choveu, fui ao café com a Leonarda e a minha afilhada Carla. Não bebia café nem aceitava nada para beber ou comer, ia só porque sim, porque era assim, porque não havia mais nada para fazer.

15, era segunda-feira, lavei a louça sem protestar ou lembrar à minha mãe que devia ser poupada neste dia especial. Recordo que alguém me elogiou o desempenho mas não sei quem foi.

16, dava uma canção na Radio, 'Pequena Amante' da qual não recordo o intérprete, que falava duma rapariga de 16 anos que encantara um homem mais velho. A minha mente ainda jovem não conseguia alcançar em pleno o verdadeiro significado do poema, apenas me derretia com a ideia de ter a mesma idade de alguém tão especial.

17, eu é que era aniversariante mas as atenções não recaíam sobre mim.

18, eu, linda e jovem. A minha mãe comprou-me um fio de prata na Ericeira. Eu, bela e fresca, esperando na rua que viesse a camioneta de substituição, uma vez que aquela onde viajava avariara na descida da Freixeira. Já tens uma coisa para recordar do dia em que fizeste 18 anos, vês?, disse a minha mãe. Vá-se lá saber com que intuito queria ela algo de inesquecível neste dia...
Foi nesta altura que deixei de me achar desengraçada. Neste dia não me importei da viragem que ocorria, o ser adulta, achei-me igual... só que gira.

19, …

20, era segunda-feira, estava toda dorida nas pernas porque no dia anterior tinha andado a jogar à bola.

21, saí do trabalho e apanhei o autocarro nº 12 para me ir encontrar com o meu noivo. Estava um dia embrulhado e eu suava no meio daquela gente amontoada. Tinha uma blusa branca às bolinhas vermelhas e uma saia dum vermelho vivo, ambas confecionadas por mim. Estava um bocado apreensiva com o grande passo que daria daí a cinco dias: casamento.

22,...

23, estive numa aula de preparação para o parto – a rica filha andava cá dentro aos rebolões. Perguntaram a idade a todas as grávidas. Quando chegou a minha vez: «faço 23, hoje» Recebi muitos parabéns duma vez. Esse coro de parabéns foi único, nunca tinha ocorrido nada semelhante na minha vida e nunca mais ocorreu.

24, a rica filha mordeu a colher da papa. A colher a fazer de cachimbo e o lábio inferior tão levantado... Assemelhava-se ao Popeye.

25, …

26, tinha um barrigão enorme. Junto da rapariga da mercearia lamentei que o rico filho não escolhesse este dia para nascer... Seria engraçado.

27, quantos fazes, perguntou o Vitinhas quando soube que eu era aniversariante.

28, a rica filha estava pela primeira vez num acampamento de Verão. Apaguei as velas cá com umas saudades das suas ladaínhas... O rico filho estava comigo, segurei-lhe a mão porque ele queria jogar-se às velas. Sempre tão sossegadinho, meu querido menino...

29, andei por Loures e pensei que o 29 é um número muito alto, comecei a sentir algum peso na idade.

30, estive em Vila Franca de Xira visitando um centro comercial que abrira há pouco tempo. O meu marido comprou-me um fio e uma medalha com 'G' de Gina. Algum tempo depois perdi a medalha. Lamento até hoje, foi um presente muito especial.

31, era domingo. Choveu. Uma morrinha chata que só visto.
Agora é que vais ver o trinta e um onde te meteste!, disseram.

32, fui jantar a um restaurante chinês em Telheiras (Lisboa). Nessa altura era ainda invulgar ver restaurantes orientais por aí.

33, apenas me lembro de me ser tirada uma fotografia, a qual referi aqui.

34, passeei sozinha por Lisboa. Uma certa nostalgia que não sei explicar. A idade, talvez. Mais um ano. Sempre a somar, sempre a somar.
A partir daqui posso fazer batota, tenho registos escritos de algumas vivências.

35, tive a tarde livre, fui ao Odivelasparque com algumas familiares. Só mulheres. Diverti-me, tive prendas e tudo.
Esta idade sempre foi um marco para mim, quando eu nasci a minha mãe tinha 35 anos.

36, era domingo. Recebi um ramo de flores em casa, prenda do maridão. Grande ideia, amiguinho.

37, manicure francesa, calças brancas e uma t-shirt laranja vivo, são como espectros desse dia. Já uma queda (vulgo bate-cú) que dei ao sair da cabeleireira é uma imagem bem real.

38, cuscus com queijo feta é um espectro deste ano ou do anterior?... Não sei, os anos já são muitos, baralho-me.

39, o derradeiro 'inta', estás nos 'entas' não tarda.

40, trabalho... nada. Há qu' anos não trabalho a 11 de Julho....

41, passeio a Albernoa. Fotos, fotos, fotos.

42, passeio pela saloiada. Fotos, fotos, fotos.

43, é uma questão de ler os posts deste dia.

Ser mulher

«Tenho treze anos, dói-me a barriga, há qualquer coisa que me oprime o peito, não posso correr como um cão maluco, já não posso andar na rua sem recear os olhares, não compreendo o que o meu corpo quer de mim, não sei como são os rapazes e que espécie de amor me irão dar.»
«Tenho trinta anos, os cantos dos meus olhos começam a enrugar mesmo quando não estou a sorrir, o meu corpo já não me pertence, a maternidade devora-me o tempo, os homens são como estranhos...»
«Tenho cinquenta anos, não vou ter mais filhos, a minha cintura engrossou, luto sem tréguas contra o meu corpo, os homens não são meus amigos...»
«Tenho sessenta anos, as crianças não devolvem o meu olhar, o dos homens aflora-me sem se deter, pertenço ao terceiro género, o que não tem nome nem sexo, tenho medo...»
«Tenho oitenta anos, sou um bebé sem mãe, feio e mal formado, ninguém faz gracinhas junto do meu berço, sou um monstro de quem a vida quer abortar...» (páginas 148/149)

In ‚Frases curtas, minha querida‘ de Pierrette Fleutiaux

Post mesmo muito programado

São nove da noite.
Estou feliz.
Encontro-me num restaurante.
Vou escolher algo especial para comer.
Como sushi, banana frita e bróculos salteados.
Estou feliz.
A família está a fazer-me rir.
Estão a dar-me a toda a hora motes para escrever.
Depois não os escrevo.
Pode ser por falta de memória que chegue para tanto.
Pode ser por necessidade de viver os momentos simplesmente.
Estou feliz.
A felicidade escreve-se mas primeiro vive-se.

Alto do Cachaporra, 11 de Julho de 1968

E eis que dum casal alentejano nasce Gina, uma bebé de produção saloia.

Lagariça - Alto do Cachaporra, 9 de Julho de 2011

A vida

Não sei se pode ser mas eu não queria morrer já. Não para já, pelo menos. É que tenho tanto que fazer... Conhecer lugares de que ainda só ouvi falar, revisitar outros que adorei, aprender mais receitas de bolos, doces e outras iguarias, ler os livros que estão nas minha prateleiras, ser (ainda mais supreendida) pelas gentes. Falo de surpresa em geral, o mau também é surpreendente, não tenho medo de pessoas más nem de sentimentos maus. Ah, e quero ser avó, também não sinto qualquer temor nesse campo.

A capicua fingida

Estou aqui que não posso de tão alegre. Pela primeira vez na minha vida o meu dia de anos forma uma capicua!

11 – 7 – 11

É a primeira vez e a última, não creio que esteja viva em 3011.

43 coisas

cêntimos no chão
supresa
sonolência
olhar lindo
bom-dia!
escrever rios de posts
nasci
quarenta e três anos
mil novecentos e sessenta e oito
sete
onze
parabéns
palpite
é assim a vida
sonhos
histórias
sentimentos
sol
mar
fotografia
zoom
computador
recadinhos
frigorífico
chocolate
bolo de bolacha
arroz de atum
ó mãe, posso comer isto?
satisfação
inadaptados
sai daí!
TV
vestidos
agulhas
linhas
botões
filhos
marido
amor
coisa
uma coisa
como assim?
digo o quê?

Acordei com o acordo

Nos últimos meses tenho pensado seriamente em me ligar ao novo acordo ortográfico. Começo hoje, que é um dia especial. Para já só vou abolir as consoantes mudas, não vou escrever estações do ano e meses com letra pequena, não consigo, considero-os importantes o suficiente para continuarem assim. Espero não me esquecer de esquecer as consoantes mudas...

A minha vida dava um filme... boring!

Dava, pois.
Uma longa metragem de 150 minutos com dois intervalos de 7 (como no cinema) em cada 50.

Primeira parte:
Fantásticas aventuras de infância: enfiar flores no nariz, longos passeios com o Tobi e incursões lá abaixo ao rio para apanhar agriões que nasciam nas margens ao deus-dará, bem como brejeirices da adolescência: bailaricos e rapazes astutos, pequenas fugas com um único fim em vista - divertimento juvenil.
Segunda parte:
Situação profissional, namoro, casamento, nascimento da progenitura. Pouca clareza em termos de pormenores, férias aqui e ali, desenvolvimento profissional e controvérsia mudança de rumo nesse campo.
Terceira parte:
Filhos menos dependentes, adolescência dos mesmos... digamos que não muito problemática, férias, férias, férias, visita a outros países, internet e outros saberes multimédia, a maturidade a fazer-se sentir e, sobretudo, grande desenvolvimento da escrita bem como prazer e paixão pela mesma.

43

Para começar quero deixar escrito que hoje sou aniversariante mas... como é dia de trabalho todos os posts estarão programados a 'acontecer' à razão de um por hora a partir das duas da tarde.
Bem entendido: são duas da tarde. Nasci há vinte e cinco minutos...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mudar

Preâmbulo

Afinal já não vou fugir. Hoje percebi quão bom é estar aqui.

O mote foi uma frase minha: «a senhora agora está mais simpática». Porque fui dizer aquilo a uma mulher que eu sabia ser de uma arrogância extrema? Não sei, talvez Deus exista, ou uma força superior, pouco importa, e esse deus-forte me tenha impelido a concluir este pensamento, tornando-o audível e arrojado, por modo a fazer parte de uma conversa maravilhosa e fazer-me crer que faço(-me) falta ali.
Não existe arrojo nenhum na minha afirmação, agora me aprecebo, teria de não ter pronunciado o 'mais', e tornaria a frase incisiva, categórica, aí sim. Eu e a franqueza. Eu e o medo. Eu e a espontaneidade. Sempre esta, a que deita por terra aquelas duas. Agora, o 'mais' não tem nenhum peso na frase ou na minha cabeça.
Mas foi uma conversa boa, repleta de vivências especiais – uma mulher confessou-me que, devido a uma grave doença, apercebeu-se de vidas para além da sua e que existem outras pessoas com outros problemas. A doença fê-la estremecer, parar e pensar: não somos nada. Agora detém-se a observar as pessoas, escuta-as. Vive, em suma. É visitada pela família, uma atenção imerecida pois nunca visitou ou deu atenção de espécie alguma a doentes, é ajudada pelos vizinhos, pelos comerciantes. Reconhece que se havia colocado mal na vida e agora, debilitada e dependente, vê a humilhação como algo maravilhoso porque lhe abriu os olhos. «A senhora agora está mais simpática», disse eu...

Ela queria o saco bem atado, recomendou-me duas vezes: «ate bem, com força!» De repente diz: «estou-lhe a dar muita maçada, não é?». Acho que foi aqui que disparei a tal afirmação, ficando depois expectante mas nada arrependida, um impasse tão próprio da minha personalidade. Seguiu-se o rol de vivências que descrevi acima resumidamente.
Uma conversa boa. E eu fiz parte dela. Há dias em que venero o balcão, essa peça única e, por mim, mal amada.

A caixinha de Pandora

Ninguém devia conhecer os meandros do meu escrevinhar. Em caso disso, o conhecimento corrói a imaginação e castra a criatividade.
Cabe-me não me deixar apanhar pelas redes desse ‚conhecer‘, não ficar inerte, manter o movimento giratório e cíclico que é a minha escrita. Sempre esperando não melindrar os leitores e esperando que nem sequer reparem em mim. Simultaneamente, esperando ouvir dizer que escrevo muito bem, que a minha alma é puramente ditada na blogosfera, que me derramo em saberes gloriosos, que dou a conhecer outro lado de mim.
Poderíeis todos ver este meu lado escrito, ao vivo, ouvido e sentido, se o quisesseis. Sim, eu sei como comecei este post: ‚Ninguém devia conhecer os meandros do meu escrevinhar.‘

Anotar

Uma mistura única, a linguagem da minha mãe, e hoje lamento não ter anotado as particularidades dela, em pormenor, no dia a dia, julgava lembrar-me de tudo para sempre e apercebo-me de tudo o que esqueci, que sou obrigada a explicar laboriosamente, em frases que não são as convenientes, com muitas subordinadas encadeando-se, e muitos «que» e «quem», eu que sempre desejei saltitar agilmente com as palavras, como a menina pequena que sou, por causa do meu grande medo oculto. Fica claro que não consigo fazê-lo com a minha mãe.
De entre as perguntas que um escritor ouve fazerem-lhe, destaca-se uma, recorrente:«Toma notas?» Respondo «não, se não nos lembrarmos mais das coisas, é porque não eram importantes». Indubitavelmente, funciona assim comigo, sempre funcionou assim... excepto no que respeita à minha mãe.
Mas como poderia ter tomado notas? Teria sido preciso esquecer que ela era minha mãe, que eu era filha dela, só lembrar-me de que era uma escritora, preservar este «quanto a mim», este «pelo meu lado», o lado secreto, simultaneamente íntimo e impessoal, a fortaleza aberta a todos os ventos, onde se aloja o escritor.
(páginas 112/113)

In 'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O tempo

Lisboa - Rua Edith Cavell, 5 de Julho de 2011

Hoje tenho pouco a declarar mas não é que a suma inteligência (ler post anterior) me tenha abandonado ou se me tenha esgotado, é antes porque não houve oportunidade de escrever. É que eu, pode não parecer, mas trabalho.
Tenho uma fotografia, no entanto.
Aqui era um relojoeiro, ao tempo que o conheço neste lugar. Uma janela rente ao chão, sempre escancarada, a gente passava e via relógios antigos. Vem-me à cabeça que também havia lá em baixo televisores e radios obsoletos e um senhor velhinho ali de volta.
A minha memória visual em termos de espaços físicos é medíocre, atraiçoa-me. A bem da verdade os televisores e os radios encontram-se duas ou três janelas abaixo, também estas rente ao chão, também estas sempre escancaradas.
Foi preciso o negócio do homem terminar para eu ver esta janela bonita e original. Relógios, ponteiros, horas. O tempo... essa maravilhosa existência que tanto nos regula como nos ataranta. O tempo, essa máquina que me deslumbra por ser tão perfeita.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sumamente

Eu bem disse que a inteligência havia de vir. A suma inteligência, quero eu dizer.
Agora estou muito mais inteligente e escrevo repleta de saberes incomuns. Eu disse, não disse? Se bem que esta premonição não me agrada por aí além, falta-me o elemento surpresa, sempre tão crucial e bem-vindo. Mas é assim, este meu saber antecipado precede-me a mim mesma.
Não obstante, cá está ela, a suma inteligência a fazer-se ler. Vou desde o socio-cultural ao ecológico, dou uma vista de olhos pelo pélvico e ainda me debruço com muita vontade sobre temáticas de elevado interesse económico.
Esta sou eu, a sumamente inteligente. Se o leitor se deleita com as minhas incursões, difusões e lamentações literárias, agradeço humildemente: obrigadinha.

Grande fita

Era uma vez uma senhora cheia de vagar que queria retirar uma pilha de fitas do cimo de uma prateleira. Pendurada no escadote, elevou a pilha cuidadosamente. O cuidado e o vagar não foram suficientes, o equilíbrio fez-se chegado e pumba, um rolo caíu, um só. Por incrível que pareça, foi um dos rolos do meio. Grande feito, portanto. Rola por ali abaixo, bate na pá de lixo que estava agarrada à vassoura, destrona a pá, que rendida se deixa estatelar. O rolo continua o seu percurso, rolando por entre papéis amachucados, restos de velatura colorida em tempos entornada, cotão ressequido e bem espezinhado e vai alojar-se num espaço existente entre duas bilhas de gás.
A senhora tinha vagar. Colocou os restantes rolos no sítio que havia escolhido antes desta aventura, desceu do escadote sem hesitar, clicou a pá do lixo na cabo da vassoura, apanhou o rolo nómada e pô-lo ao pé dos seus consortes. Não protestou, tinha vagar.

A loja

Lisboa, 5 de Julho de 2011

Ele tem uma planta de malaguetas na montra. No meio de discos de corte e quinquilharias. Tem crecido bastante nesta estufa. Lá ao fundo, no lado oposto, cheira a pêssegos. Ao lado destes, duas maçãs inodoras repousam. E há toda uma catrefa de coisas em desordem. É lá ao fundo, só os afoitos reparariam, se os houvesse. A fruta no meio da desordem combina com as malaguetas no meio da panóplia metálica.

Les oiseaux

Lisboa, 5 de Julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

SMS

O meu caro colega recebeu uma mensagem consoladora que reza assim:

«Quando vier pelos euros traga o recibo, OK? Um abraço.»

Porque é que não tiras uma fotografia?

Porque a fotografia retém os momentos perpetuamente. Porque a fotografia isola momentos de uma vida triste. Porque a fotografia é para recordar e não quero recordar pesares, desavindas e tempos inglórios. Porque a fotografia não é um desabafo. Porque a fotografia não se escreve e por conseguinte não se esquece.

Lisboa, 4 de Julho de 2011

Perguntinha

Qual é o mal de uma mulher ter as nalgas e as coxas parecidas com a casca rugosa de uma laranja?

Dias de um ginásio

Aquele moço simples (de quem já uma vez escrevi mas infelizmente não lhe encontro o rasto para deixar o linque) dirigiu-se-me assim:
– Olá! - E, como não se lembrasse da minha graça: - Tu és Gina ou Guida?
Achei um piadão ao tu e achei um piadão maior à Guida. Este manuel não conhece a revista Gina e não está familiarizado com vaginas, só pode. Quando não, haveria de se lhe ter descolado qualquer confusão com o meu nome.

O almoço

As pessoas não querem incomodar o meu almoço. Por entre duas garfadas a carteira deixa-me as cartas quase no colo mas dantes não me queria incomodar.
As pessoas não querem incomodar o meu almoço. Mas encontram-me aqui ou ali e pumba, olhe lá isto ou aquilo. Noutro dia foi no cabeleireiro.
Ah, eu queria que lá fossem arranjar o estore e assim mas deixe estar.
Não deixo estar, não senhora. Saco do bloquinho, diga lá onde mora e quando é que lhe dá jeito.
Ah, é em tal parte. Vai lá amanhã? Pode, não pode?
Pode, sim senhora, digo eu, enfatizando o 'pode' que é para dar mais intenção à cena, levando em conta que nos encontramos num salão de cabeleireiro cheio de marias em priveligiada posição de espectadoras e, já agora, aproveitando o ensejo angario futuras clientes com a minha diligente simpatia.

O marido da...

Ele aponta para um objecto em cima do balcão. Tem o semblante indignado e o dedo esticado.
– Você vende isto?
Respondo como posso, por baixo dos trejeitos de desagrado e do rol de injúrias relativos ao miserável objecto. Por fim, remata:
– Isto não vale um piço!
Finalmente há espaço para mim:
– Um piço? O que é isso? É o marido da...
– Sim. Bom fim de semana.
E foge. Escapa-se-me. Desampara-me a loja, por assim dizer. Não me deixa dizer que deve haver piços jeitosos, que essas coisas nunca se sabe, que há surpresas, que seria da vida sem surpresas, que não julgue assim tão depressa.
Então bom fim de semana...

Acrescentamento mui importante:
Não sei como se escreve piço. Não quero pesquisar. Não desejo sequer pesquisar se efectivamente o piço existe, se é o 'marido da...'. Escolhi escrever piço com 'ç' porque acho esteticamente favorável à cor do blogue e ao formato das letras, bem como à sua autora. A dona deste blogue com um cê cedilhado apoiado no nariz fica que é uma maravilha.

Aceno

Olá, diz-me ele ao volante de um BMW de topo. Se me deixasse dar uma voltinha (sozinha) naquele carrão é que era porreiro. Agora assim... Esquece o olá. Encolhe-te. Deixa-te disso, pá.

Invencionice, ou luz às cores

Venho agora, quero duas velinhas azuis.
Venho depois, quero duas velinhas azuis.
Venho a seguir, quero duas velinhas azuis.
Só há amarelas... e brancas, não gosta?
Não, quero duas velinhas azuis!
Não tenho, não há.
Hum, então vou mudar a cor às paredes da sala. Tinta azul, tem?!

A mulher de bigode

Bom-dia.

Bom-dia. Ora viva quem é uma flor.

Meu amor, tem uma pinça para arrancar isto aqui?

Com um tratamento desses até tenho duas.

Quanto custa, meu amor?

Hum, tem de ganhar o Euromilhões, caso contrário retém esse bigode tão viçoso quanto malfadado por falta de verba.

Ai tão caro... Eu tenho uma mas acho que a deixei em Leiria.

Olhe que sai mais barato ir lá buscar a pinça... Saíu-lhe o Euromilhões? Não, pois não? Então... Melhor, mais barato ainda, quero eu dizer, seria deixar o bigode assim como está. Mal não faz.

Meu amor...

Estende-me uma nota dobrada (afinal não foi preciso ganhar o Euromilhões), algo que desaprovo devido à (possível) desconfiança de que levo duas (ou mais) notas comigo e as refundo na caixa com perícia de ladra. Desconfiança de balconista habituada (pelos clientes) a esperar o pior. Devolvo-lhe o troco, uma importância sem grande vulto mas suficiente para café e meio.

Tenha um bom-dia, meu amor.

Bom-dia. Há pessoas tão simpáticas... Que lhe faça bom proveito, o cafezinho, minha querida. Ah, e uma hora pequenina no que toca à exterminação do bigode, que essa porra deve doer p'ra caraças.

Maquilhagem

Vê lá bem se podes pintar os olhos hoje. Vê lá tu se é um daqueles dias em que choras por tudo e por nada. Vê lá bem isso. Já sabes como é... limpar lágrimas duns olhos pintados é um problema, tens de enfiar o lenço olhos adentro para não te borrares toda. E se o lenço já tem ranho, 'inda apanhas uma infecção ocular. Tu vê lá. Não chores, é preferível. Maquilha-te, faz-te bonita, assim como fazes com a tua vida.

Pára, pára, pára! Pára tudo!

Está a dar a minha canção preferida...

Beautiful Lie, Keemo


Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs
Remember, forget
The stakes, the ways you take
The ways you make the moment pass
For every regret
I tell a beautiful lie
And i would die if you find out
I tell a beautiful lie every time that i did not open up my mouth
All the same, its a game
Its a play, its a war
Its a shame that we're always fighting for
I dont mean to cost no blame
I dont intend to prentend, i could never loved you more
But in the blink of an eye
Everything you ever knew can change
And its a beuatiful lie if you think everything will always stay the same

Baby
My baby
You got a secret, it's starting to show
My baby
Sweet baby
How long can you keep it?
How far would you go?
You tell a beautiful lie
You tell a beautiful lie
And its going to, its going to drive you crazy

Baby.
My baby
How far would you go go go
You tell a beautiful
Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs
Remember, forget
Forever
Baby
My baby
Its starting to show
My baby
Sweet baby


Fonte: vagalume.com.br

Clica aqui para ouvir

domingo, 3 de julho de 2011

Por casa



O puto

Um miúdo de uns doze ou treze anos pediu-me que lhe comprasse um maço de tabaco num dos estabelecimentos mais concorridos de Lisboa. Desajeitado, deixou cair a nota de dez euros no chão, apanhou-a, e como eu negasse o estranho pedido, insistiu na pedinchice: «Vá lá, senhora...», o que neguei, uma vez mais.
Depois fui a pensar naquilo. Podia ter representado tantos papéis nesta cena... O de pseudo-psicóloga-da-treta, o de tia-emprestada-sabichona, o de ama-seca-preocupada, o de mãe-de-outros-meninos-que-já-passaram-pela-fase-estúpida, e mais um sem-número de coisas. Mas não, limitei-me a usar o monossílabo da negação. Nem o facto de conhecer o miúdo desde que usava fraldas, nem o saber a rua onde mora, nada. Não, e pronto.
Fui divagando em pensamentos, pousando aqui e ali, e comecei a fazer uma das coisas que melhor consigo fazer nesta vida: inventar o que poderia ter acontecido, o que poderia ter respondido, o que poderia ter feito (tenho que escrever um livro, eu sei).

É na boa, puto, eu vou lá buscar. Mas, olha, é assim, eu compro-te o tabaco... mas das duas uma: ou me dás meia dúzia de cigarros, ou fico-te com o troco. OK?

Penetra

Ele repete histórias sem cessar, ela verbaliza questiúnculas sem pejo.
Tenho a certeza que o homem nunca mais convida aqueles dois lá para casa...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

prontus, 'tá bem...

no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas

Deita fora

Sobre um alcatrão escaldante, o carro engolia os quilómetros sem se negar. Milena segurava na mão um par de brincos de pechibeque que lhe haviam corroído os lóbulos delicados. Ia deitá-los fora ali assim, talvez no semáforo.
O carro estacou no sinal vermelho, era a hora. Milena despediu-se do ornamento reles que a amiga lhe oferecera nos anos. Adeus, pobres diabos, vão ferir as orelhas da puta da mãe! Os brincos não têm mãe, é certo, mas escolham uma mãe qualquer para lhes rasgar as orelhas!
Aqueles brincos, lindos e vermelhos mas de pechibeque ruim, hão-de ter sido encontrados por uma puta que ande na rua de cornos inclinados para baixo. Milena sabe como são essas coisas.

Sede

Ahhh! Água morna e ferrosa! Que coisa tão boa...

Muito bom. Muito bom mesmo. Estava capaz de ir para casa, agora... Lavar os vidros ou então escrever no blogue. Que escolha difícil...

1 de Julho de 2011; 14:28

Se é que querem saber, inicia-se hoje o segundo semestre de 2011. Daqui a precisamente seis meses será um dia feriado e estará um frio que nem se vai poder andar com as ventas de fora. A não ser que 2012 seja um ano efectivamente fatídico e a catástrofe prevista por um parreco qualquer comece por trocar o Inverno pelo Verão, o que seria desejável, pelo menos para mim.

Chove em Lisboa. É uma chuva grossa, as gotas distam-se um bocado umas das outras. É chuva de Verão. Passageira, quase alegre, a gente sabe que acaba num instante. Gosto de a sentir no peito, nos braços, nas pernas. Refresca e seca depressa. É chuva de Verão.

Hã?

Falava com a minha sogra e verifiquei que ela repetia o seu muito peculiar 'hã?', aquele 'hã?' cortante, proferido num tom sobejamente elevado, por modo a fazer-se ouvir e parar logo ali a conversa não vá ela perder o fio à meada. Posto isto, lembrei-me do aparelho auditivo e sua colocação que havia acontecido há umas semanas.
– Então e o aparelho, que tal?
– Ai, mulher! Não me dou nada com aquilo...

Lembretes

Noutro dia escrevi um rol de situações embaraçosas em que já fui apanhada quando me encontro ao balcão. Hoje, enquanto esfregava creme nas canelas, lembrei-me que nesta situação ainda ninguém me apanhou... E agora, conforme as linhas deste interessante post vão sugindo no ecrã, lembro que não me apanharam também a engraxar os sapatos, eu descalça, as pernas elevadas para não sujar os pés no chão.
O negócio está mau, a probabilidade de ser apanhada neste tipo de situações é cada vez mais reduzida.

Manhã

São 9:59. Tenho trabalho aos montes. Não me apetece fazer a ponta dum corno. Ainda que sim, ainda que o apetite para fazer pontas fosse de tal maneira voraz que me babasse toda... Eu não sei fazer pontas dessas aí.

...

Não sei escrever um testemunho. Um testemunho é a vida de todos e de cada um copiada passo a passo. Para a vida copiada de perto não preciso de livro nenhum. Bastam-me as conversas com a minha amiga. Sabemos tudo uma da outra, da miséria dos nossos pais a envelhecerem, da angústia que nos provoca o desgastar progressivo, inexorável, das vidas deles. Sabemos que para além do fardo que temos de carregar dia a dia, é a imagem do nosso próprio envelhecer que contemplamos, a frio e em plena lucidez. Vivos, contemplamos os que morrem. É uma estranha tortura. (Página 56)

In
'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux