segunda-feira, 11 de julho de 2011

Aniversário ao minuto

0:05

Já é dia 11!, digo eu. Parabéns, diz o rico filho. Parabéns, linda, diz o Luís. A rica filha estava ausente mas assim que se fez presente: parabéns, mãe!

8:28

Primeiro SMS do dia, os parabéns dum ginásio que frequentei há anos e que ainda me tem nos registos...

9:35

Um parabéns envergonhado, outro parabéns baixinho: parabéns.
Acho que este último pensa que eu me preocupo com a idade. Para o livrar dessa ideia levantei um braço e disse alto (realço que estávamos na rua): Ei, eu hoje faço anos! Iééé!

10 e não sei quê

Eu de novo na rua. Eu e outros. Um senhor passou por nós e fungou ruidosamente. Disse 'bom proveito' convencida que o homem não me ouviria. Mal pensado, Gina Maria... O homem virou a cabeça e jogou-me cá uns olhos... Tenho que deixar de pensar que ninguém me ouve.

11 e tal

Novo SMS, desta feita da Acessorize. Querem dar-me 20% de desconto num artigo que não esteja em promoção. Que generosos...

12:32

Os meus pais ainda não me ligaram...

12:38

A única diferença que esta segunda-feira tem das demais é que eu hoje faço anos.

(Parabéns!)

Obrigadinha...

Ah, e também tenho um vestido novo. Fui eu que fiz.

(É lindo...)

Eu sei, pá!

12:39

Tenho fome.

12:41

Passou uma senhora na rua. Bem se vê que as pessoas andam todas na rua ou eu não estaria a escrever tretas a cada minuto...
Mas indo à senhora: é chata, tem a mania, é alérgica. Diz que quando está aqui tem muita comichão na garganta, que a despache rápido para se lhe acabar o sofrimento. Depois de despachada fica-se, relatando coisas e loisas da sua vida. Há tanta gente assim...

12:51

O meu colega disse-me que nunca teve uma colega com 43 anos...
Hum, faço eu, amuada.
Então, é verdade!, riposta o bicho ruim.

13:22

Tenho à minha frente o almejado almoço. Há horas felizes.

14 e alguns minutos

A Henriqueta pinta-me as unhas num rosa fluorescente.

16:31

Como eu mostrasse dificuldade em ler as letras miúdas que revelam as intruções de uma cola poderosa e o cliente revelasse que também já não vê nada de jeito, um outro cliente que estava à espera de vez prontificou-se a ler-nos as letrinhas. Não foi cavalheirismo, antes exibicionismo. Bem-vindo, no entanto, esse exibicionismo, caro senhor.

16 e... não sei

Um amigo entrou para me dar os parabéns e diz que aproveitava, já agora e tal, e comprava um emboque de sanita. Parabéns, diz ele baixinho. Mau maria, outra vez em surdina? Mas o que é que esta malta pensa? Que me acho velha?
São quarenta e..., quer ele saber. Três, digo eu prontamente e reprimo uma resposta maliciosa: «voltei a ter os três...»

16:35

A J. Lo canta o floor e o floor e o floor. Também quero...

16:55

Vou ao pão ou à fruta. Vou ali. Vou dar um volta. Interrogo-me se seria boa altura para comprar aquele recipiente de vidro com tampa de plástico para guardar as linguíças.
Nesse estabelecimento, um menino já grande contorce-se e diz à mãe que tem muita vontade de fazer chichi. A mãe, em tom de ralhete manda-o ficar calado e juntinho a ela. Fiquei a pensar se o miúdo estando estático aliviará a mijaneira...
Depois, às 17:30, para aí, passam os dois por mim, mãe e filho. O miúdo vem descontraído, pergunto baixinho (este não me ouviu, não) «então, já fizeste chichi?»

18:00

Começo a ficar inqueita, os ricos filhos não há meio de chegarem. Vamos sair...

18:21

Ah, chegaram. Olá, olá. Beijinho, beijinho. Parabéns, mãe, outra vez.

19 e picos

Estamos numa oficina. O meu carro vai lá ficar uns dias para reparar a pintura.
É indubitável: um homem dá um jeito do caraças na vida de uma mulher. Se eu tivesse que tratar de oficinas, seguros e franquias...

19...?

Tenho fome. Tenho sono.

20 e...

Estamos a comer. O post que deixei ontem programado não está longe da verdade... Há também pudim de manga, camarões e aquela massa saborosa.

21:25 (talvez)

Casino. A rica filha acha que não vai poder entrar porque está de ténis... Ela e o mano.
Jogar, joguei, mas não ganhei nada... Chiuf, chiuf...

21:59

Ligam-me de novo para o telemóvel. Não são os meus pais... Espanto-me, é o sô Ventura. Diz que o computador dele havia apitado avisando-o de que faço anos. Hum... Espanto outra vez. O seu computador apita, pergunto eu. Diz que sim. Pi-pi, pi-pi, tenho vontade de perguntar mas deixo-me disso, limito-me a agradecer e agradecer e agradecer, só porque, tirando o pi-pi, pi-pi do computador do sô Ventura não se me chega mais nada para dizer.

22...?

Ligo o meu computador, que não está programado para apitar em dia nenhum, vejo os mails e os dois comentários existentes no meu blogue a desejar os parabéns. É o Waterfall e a Redonda. Obrigada e obrigada.


Não sei que horas são. Tenho sono. Os meus pais não me ligaram. Os miúdos de cima ainda brincam, alegres. Tenho sono...

Anos

1, não me lembro mas a minha mãe diz que eu apaguei a vela com uma colher.

2, … 3, … 4, …

5, posei num fotógrafo. Achei-me forçadamente empertigada até ao clique, quieta em demasia, ai que sofrimento. O desenvolvimento deste episódio consta aquia.
Estávamos em Albernoa. A minha mãe ensinou-me a minha nova idade: agora, a minha filha diz que tem 5 anos, a minha filha já não tem 4, tem 5 anos. Desenvolvimento neste post.
Creio que foi nesta estadia que revelei um grande espanto por a minha mãe ter ela própria uma mãe. Não me lembro, a minha mãe é que conta.

6, … 7, … 8, …

9, veio muita gente à minha festa. Ofereceram-me um livro, o qual já escrevi aqui.

10, só está na lembrança o aperceber-me que doravante escreveria a minha idade com dois números (hoje diria dígitos) e que nunca mais deixaria de ser assim a menos que chegasse aos 100. Esta menina já pensava em cada coisa...

11, … 12, …

13, chorei baba e ranho, não queria deixar de ser criança.

14, era domingo. Choveu, fui ao café com a Leonarda e a minha afilhada Carla. Não bebia café nem aceitava nada para beber ou comer, ia só porque sim, porque era assim, porque não havia mais nada para fazer.

15, era segunda-feira, lavei a louça sem protestar ou lembrar à minha mãe que devia ser poupada neste dia especial. Recordo que alguém me elogiou o desempenho mas não sei quem foi.

16, dava uma canção na Radio, 'Pequena Amante' da qual não recordo o intérprete, que falava duma rapariga de 16 anos que encantara um homem mais velho. A minha mente ainda jovem não conseguia alcançar em pleno o verdadeiro significado do poema, apenas me derretia com a ideia de ter a mesma idade de alguém tão especial.

17, eu é que era aniversariante mas as atenções não recaíam sobre mim.

18, eu, linda e jovem. A minha mãe comprou-me um fio de prata na Ericeira. Eu, bela e fresca, esperando na rua que viesse a camioneta de substituição, uma vez que aquela onde viajava avariara na descida da Freixeira. Já tens uma coisa para recordar do dia em que fizeste 18 anos, vês?, disse a minha mãe. Vá-se lá saber com que intuito queria ela algo de inesquecível neste dia...
Foi nesta altura que deixei de me achar desengraçada. Neste dia não me importei da viragem que ocorria, o ser adulta, achei-me igual... só que gira.

19, …

20, era segunda-feira, estava toda dorida nas pernas porque no dia anterior tinha andado a jogar à bola.

21, saí do trabalho e apanhei o autocarro nº 12 para me ir encontrar com o meu noivo. Estava um dia embrulhado e eu suava no meio daquela gente amontoada. Tinha uma blusa branca às bolinhas vermelhas e uma saia dum vermelho vivo, ambas confecionadas por mim. Estava um bocado apreensiva com o grande passo que daria daí a cinco dias: casamento.

22,...

23, estive numa aula de preparação para o parto – a rica filha andava cá dentro aos rebolões. Perguntaram a idade a todas as grávidas. Quando chegou a minha vez: «faço 23, hoje» Recebi muitos parabéns duma vez. Esse coro de parabéns foi único, nunca tinha ocorrido nada semelhante na minha vida e nunca mais ocorreu.

24, a rica filha mordeu a colher da papa. A colher a fazer de cachimbo e o lábio inferior tão levantado... Assemelhava-se ao Popeye.

25, …

26, tinha um barrigão enorme. Junto da rapariga da mercearia lamentei que o rico filho não escolhesse este dia para nascer... Seria engraçado.

27, quantos fazes, perguntou o Vitinhas quando soube que eu era aniversariante.

28, a rica filha estava pela primeira vez num acampamento de Verão. Apaguei as velas cá com umas saudades das suas ladaínhas... O rico filho estava comigo, segurei-lhe a mão porque ele queria jogar-se às velas. Sempre tão sossegadinho, meu querido menino...

29, andei por Loures e pensei que o 29 é um número muito alto, comecei a sentir algum peso na idade.

30, estive em Vila Franca de Xira visitando um centro comercial que abrira há pouco tempo. O meu marido comprou-me um fio e uma medalha com 'G' de Gina. Algum tempo depois perdi a medalha. Lamento até hoje, foi um presente muito especial.

31, era domingo. Choveu. Uma morrinha chata que só visto.
Agora é que vais ver o trinta e um onde te meteste!, disseram.

32, fui jantar a um restaurante chinês em Telheiras (Lisboa). Nessa altura era ainda invulgar ver restaurantes orientais por aí.

33, apenas me lembro de me ser tirada uma fotografia, a qual referi aqui.

34, passeei sozinha por Lisboa. Uma certa nostalgia que não sei explicar. A idade, talvez. Mais um ano. Sempre a somar, sempre a somar.
A partir daqui posso fazer batota, tenho registos escritos de algumas vivências.

35, tive a tarde livre, fui ao Odivelasparque com algumas familiares. Só mulheres. Diverti-me, tive prendas e tudo.
Esta idade sempre foi um marco para mim, quando eu nasci a minha mãe tinha 35 anos.

36, era domingo. Recebi um ramo de flores em casa, prenda do maridão. Grande ideia, amiguinho.

37, manicure francesa, calças brancas e uma t-shirt laranja vivo, são como espectros desse dia. Já uma queda (vulgo bate-cú) que dei ao sair da cabeleireira é uma imagem bem real.

38, cuscus com queijo feta é um espectro deste ano ou do anterior?... Não sei, os anos já são muitos, baralho-me.

39, o derradeiro 'inta', estás nos 'entas' não tarda.

40, trabalho... nada. Há qu' anos não trabalho a 11 de Julho....

41, passeio a Albernoa. Fotos, fotos, fotos.

42, passeio pela saloiada. Fotos, fotos, fotos.

43, é uma questão de ler os posts deste dia.

Ser mulher

«Tenho treze anos, dói-me a barriga, há qualquer coisa que me oprime o peito, não posso correr como um cão maluco, já não posso andar na rua sem recear os olhares, não compreendo o que o meu corpo quer de mim, não sei como são os rapazes e que espécie de amor me irão dar.»
«Tenho trinta anos, os cantos dos meus olhos começam a enrugar mesmo quando não estou a sorrir, o meu corpo já não me pertence, a maternidade devora-me o tempo, os homens são como estranhos...»
«Tenho cinquenta anos, não vou ter mais filhos, a minha cintura engrossou, luto sem tréguas contra o meu corpo, os homens não são meus amigos...»
«Tenho sessenta anos, as crianças não devolvem o meu olhar, o dos homens aflora-me sem se deter, pertenço ao terceiro género, o que não tem nome nem sexo, tenho medo...»
«Tenho oitenta anos, sou um bebé sem mãe, feio e mal formado, ninguém faz gracinhas junto do meu berço, sou um monstro de quem a vida quer abortar...» (páginas 148/149)

In ‚Frases curtas, minha querida‘ de Pierrette Fleutiaux

Post mesmo muito programado

São nove da noite.
Estou feliz.
Encontro-me num restaurante.
Vou escolher algo especial para comer.
Como sushi, banana frita e bróculos salteados.
Estou feliz.
A família está a fazer-me rir.
Estão a dar-me a toda a hora motes para escrever.
Depois não os escrevo.
Pode ser por falta de memória que chegue para tanto.
Pode ser por necessidade de viver os momentos simplesmente.
Estou feliz.
A felicidade escreve-se mas primeiro vive-se.

Alto do Cachaporra, 11 de Julho de 1968

E eis que dum casal alentejano nasce Gina, uma bebé de produção saloia.

Lagariça - Alto do Cachaporra, 9 de Julho de 2011

A vida

Não sei se pode ser mas eu não queria morrer já. Não para já, pelo menos. É que tenho tanto que fazer... Conhecer lugares de que ainda só ouvi falar, revisitar outros que adorei, aprender mais receitas de bolos, doces e outras iguarias, ler os livros que estão nas minha prateleiras, ser (ainda mais supreendida) pelas gentes. Falo de surpresa em geral, o mau também é surpreendente, não tenho medo de pessoas más nem de sentimentos maus. Ah, e quero ser avó, também não sinto qualquer temor nesse campo.

A capicua fingida

Estou aqui que não posso de tão alegre. Pela primeira vez na minha vida o meu dia de anos forma uma capicua!

11 – 7 – 11

É a primeira vez e a última, não creio que esteja viva em 3011.

43 coisas

cêntimos no chão
supresa
sonolência
olhar lindo
bom-dia!
escrever rios de posts
nasci
quarenta e três anos
mil novecentos e sessenta e oito
sete
onze
parabéns
palpite
é assim a vida
sonhos
histórias
sentimentos
sol
mar
fotografia
zoom
computador
recadinhos
frigorífico
chocolate
bolo de bolacha
arroz de atum
ó mãe, posso comer isto?
satisfação
inadaptados
sai daí!
TV
vestidos
agulhas
linhas
botões
filhos
marido
amor
coisa
uma coisa
como assim?
digo o quê?

Acordei com o acordo

Nos últimos meses tenho pensado seriamente em me ligar ao novo acordo ortográfico. Começo hoje, que é um dia especial. Para já só vou abolir as consoantes mudas, não vou escrever estações do ano e meses com letra pequena, não consigo, considero-os importantes o suficiente para continuarem assim. Espero não me esquecer de esquecer as consoantes mudas...

A minha vida dava um filme... boring!

Dava, pois.
Uma longa metragem de 150 minutos com dois intervalos de 7 (como no cinema) em cada 50.

Primeira parte:
Fantásticas aventuras de infância: enfiar flores no nariz, longos passeios com o Tobi e incursões lá abaixo ao rio para apanhar agriões que nasciam nas margens ao deus-dará, bem como brejeirices da adolescência: bailaricos e rapazes astutos, pequenas fugas com um único fim em vista - divertimento juvenil.
Segunda parte:
Situação profissional, namoro, casamento, nascimento da progenitura. Pouca clareza em termos de pormenores, férias aqui e ali, desenvolvimento profissional e controvérsia mudança de rumo nesse campo.
Terceira parte:
Filhos menos dependentes, adolescência dos mesmos... digamos que não muito problemática, férias, férias, férias, visita a outros países, internet e outros saberes multimédia, a maturidade a fazer-se sentir e, sobretudo, grande desenvolvimento da escrita bem como prazer e paixão pela mesma.

43

Para começar quero deixar escrito que hoje sou aniversariante mas... como é dia de trabalho todos os posts estarão programados a 'acontecer' à razão de um por hora a partir das duas da tarde.
Bem entendido: são duas da tarde. Nasci há vinte e cinco minutos...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mudar

Preâmbulo

Afinal já não vou fugir. Hoje percebi quão bom é estar aqui.

O mote foi uma frase minha: «a senhora agora está mais simpática». Porque fui dizer aquilo a uma mulher que eu sabia ser de uma arrogância extrema? Não sei, talvez Deus exista, ou uma força superior, pouco importa, e esse deus-forte me tenha impelido a concluir este pensamento, tornando-o audível e arrojado, por modo a fazer parte de uma conversa maravilhosa e fazer-me crer que faço(-me) falta ali.
Não existe arrojo nenhum na minha afirmação, agora me aprecebo, teria de não ter pronunciado o 'mais', e tornaria a frase incisiva, categórica, aí sim. Eu e a franqueza. Eu e o medo. Eu e a espontaneidade. Sempre esta, a que deita por terra aquelas duas. Agora, o 'mais' não tem nenhum peso na frase ou na minha cabeça.
Mas foi uma conversa boa, repleta de vivências especiais – uma mulher confessou-me que, devido a uma grave doença, apercebeu-se de vidas para além da sua e que existem outras pessoas com outros problemas. A doença fê-la estremecer, parar e pensar: não somos nada. Agora detém-se a observar as pessoas, escuta-as. Vive, em suma. É visitada pela família, uma atenção imerecida pois nunca visitou ou deu atenção de espécie alguma a doentes, é ajudada pelos vizinhos, pelos comerciantes. Reconhece que se havia colocado mal na vida e agora, debilitada e dependente, vê a humilhação como algo maravilhoso porque lhe abriu os olhos. «A senhora agora está mais simpática», disse eu...

Ela queria o saco bem atado, recomendou-me duas vezes: «ate bem, com força!» De repente diz: «estou-lhe a dar muita maçada, não é?». Acho que foi aqui que disparei a tal afirmação, ficando depois expectante mas nada arrependida, um impasse tão próprio da minha personalidade. Seguiu-se o rol de vivências que descrevi acima resumidamente.
Uma conversa boa. E eu fiz parte dela. Há dias em que venero o balcão, essa peça única e, por mim, mal amada.

A caixinha de Pandora

Ninguém devia conhecer os meandros do meu escrevinhar. Em caso disso, o conhecimento corrói a imaginação e castra a criatividade.
Cabe-me não me deixar apanhar pelas redes desse ‚conhecer‘, não ficar inerte, manter o movimento giratório e cíclico que é a minha escrita. Sempre esperando não melindrar os leitores e esperando que nem sequer reparem em mim. Simultaneamente, esperando ouvir dizer que escrevo muito bem, que a minha alma é puramente ditada na blogosfera, que me derramo em saberes gloriosos, que dou a conhecer outro lado de mim.
Poderíeis todos ver este meu lado escrito, ao vivo, ouvido e sentido, se o quisesseis. Sim, eu sei como comecei este post: ‚Ninguém devia conhecer os meandros do meu escrevinhar.‘

Anotar

Uma mistura única, a linguagem da minha mãe, e hoje lamento não ter anotado as particularidades dela, em pormenor, no dia a dia, julgava lembrar-me de tudo para sempre e apercebo-me de tudo o que esqueci, que sou obrigada a explicar laboriosamente, em frases que não são as convenientes, com muitas subordinadas encadeando-se, e muitos «que» e «quem», eu que sempre desejei saltitar agilmente com as palavras, como a menina pequena que sou, por causa do meu grande medo oculto. Fica claro que não consigo fazê-lo com a minha mãe.
De entre as perguntas que um escritor ouve fazerem-lhe, destaca-se uma, recorrente:«Toma notas?» Respondo «não, se não nos lembrarmos mais das coisas, é porque não eram importantes». Indubitavelmente, funciona assim comigo, sempre funcionou assim... excepto no que respeita à minha mãe.
Mas como poderia ter tomado notas? Teria sido preciso esquecer que ela era minha mãe, que eu era filha dela, só lembrar-me de que era uma escritora, preservar este «quanto a mim», este «pelo meu lado», o lado secreto, simultaneamente íntimo e impessoal, a fortaleza aberta a todos os ventos, onde se aloja o escritor.
(páginas 112/113)

In 'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O tempo

Lisboa - Rua Edith Cavell, 5 de Julho de 2011

Hoje tenho pouco a declarar mas não é que a suma inteligência (ler post anterior) me tenha abandonado ou se me tenha esgotado, é antes porque não houve oportunidade de escrever. É que eu, pode não parecer, mas trabalho.
Tenho uma fotografia, no entanto.
Aqui era um relojoeiro, ao tempo que o conheço neste lugar. Uma janela rente ao chão, sempre escancarada, a gente passava e via relógios antigos. Vem-me à cabeça que também havia lá em baixo televisores e radios obsoletos e um senhor velhinho ali de volta.
A minha memória visual em termos de espaços físicos é medíocre, atraiçoa-me. A bem da verdade os televisores e os radios encontram-se duas ou três janelas abaixo, também estas rente ao chão, também estas sempre escancaradas.
Foi preciso o negócio do homem terminar para eu ver esta janela bonita e original. Relógios, ponteiros, horas. O tempo... essa maravilhosa existência que tanto nos regula como nos ataranta. O tempo, essa máquina que me deslumbra por ser tão perfeita.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sumamente

Eu bem disse que a inteligência havia de vir. A suma inteligência, quero eu dizer.
Agora estou muito mais inteligente e escrevo repleta de saberes incomuns. Eu disse, não disse? Se bem que esta premonição não me agrada por aí além, falta-me o elemento surpresa, sempre tão crucial e bem-vindo. Mas é assim, este meu saber antecipado precede-me a mim mesma.
Não obstante, cá está ela, a suma inteligência a fazer-se ler. Vou desde o socio-cultural ao ecológico, dou uma vista de olhos pelo pélvico e ainda me debruço com muita vontade sobre temáticas de elevado interesse económico.
Esta sou eu, a sumamente inteligente. Se o leitor se deleita com as minhas incursões, difusões e lamentações literárias, agradeço humildemente: obrigadinha.

Grande fita

Era uma vez uma senhora cheia de vagar que queria retirar uma pilha de fitas do cimo de uma prateleira. Pendurada no escadote, elevou a pilha cuidadosamente. O cuidado e o vagar não foram suficientes, o equilíbrio fez-se chegado e pumba, um rolo caíu, um só. Por incrível que pareça, foi um dos rolos do meio. Grande feito, portanto. Rola por ali abaixo, bate na pá de lixo que estava agarrada à vassoura, destrona a pá, que rendida se deixa estatelar. O rolo continua o seu percurso, rolando por entre papéis amachucados, restos de velatura colorida em tempos entornada, cotão ressequido e bem espezinhado e vai alojar-se num espaço existente entre duas bilhas de gás.
A senhora tinha vagar. Colocou os restantes rolos no sítio que havia escolhido antes desta aventura, desceu do escadote sem hesitar, clicou a pá do lixo na cabo da vassoura, apanhou o rolo nómada e pô-lo ao pé dos seus consortes. Não protestou, tinha vagar.

A loja

Lisboa, 5 de Julho de 2011

Ele tem uma planta de malaguetas na montra. No meio de discos de corte e quinquilharias. Tem crecido bastante nesta estufa. Lá ao fundo, no lado oposto, cheira a pêssegos. Ao lado destes, duas maçãs inodoras repousam. E há toda uma catrefa de coisas em desordem. É lá ao fundo, só os afoitos reparariam, se os houvesse. A fruta no meio da desordem combina com as malaguetas no meio da panóplia metálica.

Les oiseaux

Lisboa, 5 de Julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

SMS

O meu caro colega recebeu uma mensagem consoladora que reza assim:

«Quando vier pelos euros traga o recibo, OK? Um abraço.»

Porque é que não tiras uma fotografia?

Porque a fotografia retém os momentos perpetuamente. Porque a fotografia isola momentos de uma vida triste. Porque a fotografia é para recordar e não quero recordar pesares, desavindas e tempos inglórios. Porque a fotografia não é um desabafo. Porque a fotografia não se escreve e por conseguinte não se esquece.

Lisboa, 4 de Julho de 2011

Perguntinha

Qual é o mal de uma mulher ter as nalgas e as coxas parecidas com a casca rugosa de uma laranja?

Dias de um ginásio

Aquele moço simples (de quem já uma vez escrevi mas infelizmente não lhe encontro o rasto para deixar o linque) dirigiu-se-me assim:
– Olá! - E, como não se lembrasse da minha graça: - Tu és Gina ou Guida?
Achei um piadão ao tu e achei um piadão maior à Guida. Este manuel não conhece a revista Gina e não está familiarizado com vaginas, só pode. Quando não, haveria de se lhe ter descolado qualquer confusão com o meu nome.

O almoço

As pessoas não querem incomodar o meu almoço. Por entre duas garfadas a carteira deixa-me as cartas quase no colo mas dantes não me queria incomodar.
As pessoas não querem incomodar o meu almoço. Mas encontram-me aqui ou ali e pumba, olhe lá isto ou aquilo. Noutro dia foi no cabeleireiro.
Ah, eu queria que lá fossem arranjar o estore e assim mas deixe estar.
Não deixo estar, não senhora. Saco do bloquinho, diga lá onde mora e quando é que lhe dá jeito.
Ah, é em tal parte. Vai lá amanhã? Pode, não pode?
Pode, sim senhora, digo eu, enfatizando o 'pode' que é para dar mais intenção à cena, levando em conta que nos encontramos num salão de cabeleireiro cheio de marias em priveligiada posição de espectadoras e, já agora, aproveitando o ensejo angario futuras clientes com a minha diligente simpatia.

O marido da...

Ele aponta para um objecto em cima do balcão. Tem o semblante indignado e o dedo esticado.
– Você vende isto?
Respondo como posso, por baixo dos trejeitos de desagrado e do rol de injúrias relativos ao miserável objecto. Por fim, remata:
– Isto não vale um piço!
Finalmente há espaço para mim:
– Um piço? O que é isso? É o marido da...
– Sim. Bom fim de semana.
E foge. Escapa-se-me. Desampara-me a loja, por assim dizer. Não me deixa dizer que deve haver piços jeitosos, que essas coisas nunca se sabe, que há surpresas, que seria da vida sem surpresas, que não julgue assim tão depressa.
Então bom fim de semana...

Acrescentamento mui importante:
Não sei como se escreve piço. Não quero pesquisar. Não desejo sequer pesquisar se efectivamente o piço existe, se é o 'marido da...'. Escolhi escrever piço com 'ç' porque acho esteticamente favorável à cor do blogue e ao formato das letras, bem como à sua autora. A dona deste blogue com um cê cedilhado apoiado no nariz fica que é uma maravilha.

Aceno

Olá, diz-me ele ao volante de um BMW de topo. Se me deixasse dar uma voltinha (sozinha) naquele carrão é que era porreiro. Agora assim... Esquece o olá. Encolhe-te. Deixa-te disso, pá.

Invencionice, ou luz às cores

Venho agora, quero duas velinhas azuis.
Venho depois, quero duas velinhas azuis.
Venho a seguir, quero duas velinhas azuis.
Só há amarelas... e brancas, não gosta?
Não, quero duas velinhas azuis!
Não tenho, não há.
Hum, então vou mudar a cor às paredes da sala. Tinta azul, tem?!

A mulher de bigode

Bom-dia.

Bom-dia. Ora viva quem é uma flor.

Meu amor, tem uma pinça para arrancar isto aqui?

Com um tratamento desses até tenho duas.

Quanto custa, meu amor?

Hum, tem de ganhar o Euromilhões, caso contrário retém esse bigode tão viçoso quanto malfadado por falta de verba.

Ai tão caro... Eu tenho uma mas acho que a deixei em Leiria.

Olhe que sai mais barato ir lá buscar a pinça... Saíu-lhe o Euromilhões? Não, pois não? Então... Melhor, mais barato ainda, quero eu dizer, seria deixar o bigode assim como está. Mal não faz.

Meu amor...

Estende-me uma nota dobrada (afinal não foi preciso ganhar o Euromilhões), algo que desaprovo devido à (possível) desconfiança de que levo duas (ou mais) notas comigo e as refundo na caixa com perícia de ladra. Desconfiança de balconista habituada (pelos clientes) a esperar o pior. Devolvo-lhe o troco, uma importância sem grande vulto mas suficiente para café e meio.

Tenha um bom-dia, meu amor.

Bom-dia. Há pessoas tão simpáticas... Que lhe faça bom proveito, o cafezinho, minha querida. Ah, e uma hora pequenina no que toca à exterminação do bigode, que essa porra deve doer p'ra caraças.

Maquilhagem

Vê lá bem se podes pintar os olhos hoje. Vê lá tu se é um daqueles dias em que choras por tudo e por nada. Vê lá bem isso. Já sabes como é... limpar lágrimas duns olhos pintados é um problema, tens de enfiar o lenço olhos adentro para não te borrares toda. E se o lenço já tem ranho, 'inda apanhas uma infecção ocular. Tu vê lá. Não chores, é preferível. Maquilha-te, faz-te bonita, assim como fazes com a tua vida.

Pára, pára, pára! Pára tudo!

Está a dar a minha canção preferida...

Beautiful Lie, Keemo


Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs
Remember, forget
The stakes, the ways you take
The ways you make the moment pass
For every regret
I tell a beautiful lie
And i would die if you find out
I tell a beautiful lie every time that i did not open up my mouth
All the same, its a game
Its a play, its a war
Its a shame that we're always fighting for
I dont mean to cost no blame
I dont intend to prentend, i could never loved you more
But in the blink of an eye
Everything you ever knew can change
And its a beuatiful lie if you think everything will always stay the same

Baby
My baby
You got a secret, it's starting to show
My baby
Sweet baby
How long can you keep it?
How far would you go?
You tell a beautiful lie
You tell a beautiful lie
And its going to, its going to drive you crazy

Baby.
My baby
How far would you go go go
You tell a beautiful
Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs
Remember, forget
Forever
Baby
My baby
Its starting to show
My baby
Sweet baby


Fonte: vagalume.com.br

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domingo, 3 de julho de 2011

Por casa



O puto

Um miúdo de uns doze ou treze anos pediu-me que lhe comprasse um maço de tabaco num dos estabelecimentos mais concorridos de Lisboa. Desajeitado, deixou cair a nota de dez euros no chão, apanhou-a, e como eu negasse o estranho pedido, insistiu na pedinchice: «Vá lá, senhora...», o que neguei, uma vez mais.
Depois fui a pensar naquilo. Podia ter representado tantos papéis nesta cena... O de pseudo-psicóloga-da-treta, o de tia-emprestada-sabichona, o de ama-seca-preocupada, o de mãe-de-outros-meninos-que-já-passaram-pela-fase-estúpida, e mais um sem-número de coisas. Mas não, limitei-me a usar o monossílabo da negação. Nem o facto de conhecer o miúdo desde que usava fraldas, nem o saber a rua onde mora, nada. Não, e pronto.
Fui divagando em pensamentos, pousando aqui e ali, e comecei a fazer uma das coisas que melhor consigo fazer nesta vida: inventar o que poderia ter acontecido, o que poderia ter respondido, o que poderia ter feito (tenho que escrever um livro, eu sei).

É na boa, puto, eu vou lá buscar. Mas, olha, é assim, eu compro-te o tabaco... mas das duas uma: ou me dás meia dúzia de cigarros, ou fico-te com o troco. OK?

Penetra

Ele repete histórias sem cessar, ela verbaliza questiúnculas sem pejo.
Tenho a certeza que o homem nunca mais convida aqueles dois lá para casa...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

prontus, 'tá bem...

no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas
no próximo Natal teremos metade do subsídio e não haverá prendas

Deita fora

Sobre um alcatrão escaldante, o carro engolia os quilómetros sem se negar. Milena segurava na mão um par de brincos de pechibeque que lhe haviam corroído os lóbulos delicados. Ia deitá-los fora ali assim, talvez no semáforo.
O carro estacou no sinal vermelho, era a hora. Milena despediu-se do ornamento reles que a amiga lhe oferecera nos anos. Adeus, pobres diabos, vão ferir as orelhas da puta da mãe! Os brincos não têm mãe, é certo, mas escolham uma mãe qualquer para lhes rasgar as orelhas!
Aqueles brincos, lindos e vermelhos mas de pechibeque ruim, hão-de ter sido encontrados por uma puta que ande na rua de cornos inclinados para baixo. Milena sabe como são essas coisas.

Sede

Ahhh! Água morna e ferrosa! Que coisa tão boa...

Muito bom. Muito bom mesmo. Estava capaz de ir para casa, agora... Lavar os vidros ou então escrever no blogue. Que escolha difícil...

1 de Julho de 2011; 14:28

Se é que querem saber, inicia-se hoje o segundo semestre de 2011. Daqui a precisamente seis meses será um dia feriado e estará um frio que nem se vai poder andar com as ventas de fora. A não ser que 2012 seja um ano efectivamente fatídico e a catástrofe prevista por um parreco qualquer comece por trocar o Inverno pelo Verão, o que seria desejável, pelo menos para mim.

Chove em Lisboa. É uma chuva grossa, as gotas distam-se um bocado umas das outras. É chuva de Verão. Passageira, quase alegre, a gente sabe que acaba num instante. Gosto de a sentir no peito, nos braços, nas pernas. Refresca e seca depressa. É chuva de Verão.

Hã?

Falava com a minha sogra e verifiquei que ela repetia o seu muito peculiar 'hã?', aquele 'hã?' cortante, proferido num tom sobejamente elevado, por modo a fazer-se ouvir e parar logo ali a conversa não vá ela perder o fio à meada. Posto isto, lembrei-me do aparelho auditivo e sua colocação que havia acontecido há umas semanas.
– Então e o aparelho, que tal?
– Ai, mulher! Não me dou nada com aquilo...

Lembretes

Noutro dia escrevi um rol de situações embaraçosas em que já fui apanhada quando me encontro ao balcão. Hoje, enquanto esfregava creme nas canelas, lembrei-me que nesta situação ainda ninguém me apanhou... E agora, conforme as linhas deste interessante post vão sugindo no ecrã, lembro que não me apanharam também a engraxar os sapatos, eu descalça, as pernas elevadas para não sujar os pés no chão.
O negócio está mau, a probabilidade de ser apanhada neste tipo de situações é cada vez mais reduzida.

Manhã

São 9:59. Tenho trabalho aos montes. Não me apetece fazer a ponta dum corno. Ainda que sim, ainda que o apetite para fazer pontas fosse de tal maneira voraz que me babasse toda... Eu não sei fazer pontas dessas aí.

...

Não sei escrever um testemunho. Um testemunho é a vida de todos e de cada um copiada passo a passo. Para a vida copiada de perto não preciso de livro nenhum. Bastam-me as conversas com a minha amiga. Sabemos tudo uma da outra, da miséria dos nossos pais a envelhecerem, da angústia que nos provoca o desgastar progressivo, inexorável, das vidas deles. Sabemos que para além do fardo que temos de carregar dia a dia, é a imagem do nosso próprio envelhecer que contemplamos, a frio e em plena lucidez. Vivos, contemplamos os que morrem. É uma estranha tortura. (Página 56)

In
'Frases curtas, minha querida' de Pierrette Fleutiaux

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A toma

Agora ando a tomar umas substâncias que me tornam inteligente mas não de imediato. Primeiro fico gorda que nem uma porca, depois estupidamente bem-disposta. Só passadas estas duas fases a inteligência se faz sentir, direi palavras plenas de sabedoria e profundo bom-senso e escreverei debaixo de grande criatividade.

Dias de um ginásio

Saí do WC directamente para o vestiário e encaro com o olhar frio e prescrutador de uma mulher toda nua a espalhar creme nas mamas. Acho que nunca tinha visto uma cena tão aterradora na minha vida...

Vai lá, vá

Vai ali assim. No caminho compra um metro de entretela, é precisa para os teus vestidos. Refunde o desejo de namorar a montra da ourivesaria, não suspires sequer. Não olhes para os sofás de lindos tecidos que o senhor tal tem expostos, deixa lá que chegará o dia em que voltarás a compôr a sala com um lindo sofá. Cumprimenta a Fátima dos sutiãs, o Zé da vidraria. A esse diz-lhe que logo à noite te encontras com ele na festa da alameda. Compra amêndoas, nozes, chocolate em pó e aveia no senhor Salvador e deixa os pêssegos e as cabeças de alho, logo os compras amanhã, ainda tens de ir ver umas coisas no chinoca. À vinda cumprimenta o senhor da camisaria, o viúvo recente, aquele que mastiga as palavras: 'Boa tarde, minha senhora. Está boazinha?' Acha piada, vá. Ri-te do pobre homem quando ele mastiga a palavra 'boazinha'. É tão giro. Giro, giro, giro.

Saudação célere e dispensadora de retribuição

Olá, então como vai o senhor?
Está tudo bem?
A vidinha corre-lhe bem?
Tudo positivo e afirmativo, não é verdade?

Redes sociais

Redes sociais, hoje é o dia delas. Muito se fala destas lides modernas...
Quanto a mim o virtual é igual ao real, a diferença está no meio de comunicação. O real é feito, vivido, exprimido pelas mesmas pessoas que compõem o virtual, pessoas que por sua vez fazem, vivem e exprimem-se aí também.
Que importa ter muitos amigos no Twitter que não são realmente nossos amigos, que importa mostrar os sítios das nossas preferências e expressões muito nossas e poses íntimas no Fuçasbuque? Acaso não vivemos tudo isso na nossa vida real? Acaso não temos todos vontade de mostrar as fotos de telemóvel aos nossos amigos, de divulgar onde andámos nas férias, bem como o que por lá fizemos, ou de contar o que nos aconteceu agorinha mesmo? E, efectivamente, fazemo-lo, certo? Na virtualidade falta-nos o olho no olho e a entoação da voz, é certo, a proximidade física dá mais paladar às relações, é verdade sim senhores. Mas eu cá acho que a realidade e a virtualidade são a mesma merda, o cheiro é que é diferente.
Desenganem-se, vá lá. Pessoas são sempre pessoas, pessoas que dizem e fazem as mesmas coisas dia após dia. Não há volta a dar...

Noutro dia die uma ideia ao Luís:

– Olha, amor, devíamos fazer um Fuçasbuque para a tartaruga, que achas?
– Ah, está bem, era giro.
– Então e depois quem é que 'falava' por ela, eu ou tu?
– 'Falavas' tu, dizes menos asneiras.

Folgo que lhe baile essa ideia no pensamento...

E agora, numa de Fuçasbuque ou outra treta do género: não estou tão gira na foto? Ai que saudades das férias em Tomar...


A renda de bilros

Onde é que a cliente mora, perguntei eu ao meu colega.
Já vais ver, diz ele de volta, sempre preocupado em me proporcionar surpresas.
Fomos andando.
Não me digas que vamos a casa daquela senhora que tem um quarto com duas camas de solteiro e aquelas colchas giríssimas, pergunto, cheia de alegria.
Isso mesmo, remata ele.
Será que desta vez vou poder fotografar, pergunto, sonhadora.
Hum, não me parece, diz o bicho.
Pois, ela é daquelas que anda sempre ali de roda, digo, cheia de pena.
Enquanto o meu colega pendurava a sanefa numa parede a cair de podre eu via o Telejornal ou outro programa do género. Há vidas 'difíceis', pode dizer-se, mas garanto que preferiria estar já em casa lavando a alface e cortando os tomates, ou tratando da roupa, ou tomando conta dos bifes, ou, ainda, ralhando com os filhos que me deixam tudo fora do lugar.
Chegou a hora da abalada, todos à porta, quando se ouve uma chave rodando numa porta em frente. A mulher põe o dedo em riste, como para nos mandar calar, a ver se a outra ia embora, se entrava ou saía ou o caraças. Nisto, para ganhar tempo, completa a conversa iniciada algures lá atrás no tempo e já dispersa e esquecida. Assunto: renda de bilros.
«Que gosto muito de fazer. Que passo horas naquilo. Que esqueço tudo. Que esqueço até onde estou. Que é tão bom. Que a gente descontrai.»

O pio

Um cliente muito desconfiado da minha competência perguntou-me:

– Ó menina, isto está bom?
– Eu só faço coisas boas.

– …

(Este perdeu o pio com tão pouco, pobre coitado...)

Mais que muitas vezes

«Isto é o quê?»

«O que é isto?»

«Eu perguntei primeiro...»

No cinema

«Ricos filhos, a mãe está mesmo velha, já levo os óculos para o cinema...»

A rica filha pousou os pés nos bancos da frente. Ralho com ela:
«Agora não! Só quando ficar escuro!»
A rapariga fartou-se de rir. Trocista, disse qualquer coisa como: «A minha mãe não se importa que eu ponha os pés em cima do banco se estiver escuro...»
Realmente, quando os filhos chegam à idade adulta, ralhamos de outra maneira, afinal eles chegaram ao clube dos adultos, somos mais iguais, não abolimos os ralhetes de todo, mas deixamo-los ver que nós também fazemos asneiras – irrizórias e distas de fraude, saliento - e isso faz-nos crer que as asneiras deles, agora, não têm um peso tão elevado.

Intervalo

Este post serve para fazer um intervalo inócuo. A seguir vou escrever acerca dos ricos filhos e não quero as obscenidades do Clóvis rente aos meus meninos.

Regresso ao presente

O Clóvis regressou de férias. «Eh pá, 'tive cá numa mansão... Aquela merda é grande que se farta. Foda-se! Tem piscina, ar condicionado e essa paneleirices todas. Eu é que era o cozinheiro de serviço mas... Eh pá! Muito fixe, muito fixe. De manhã e à tarde era piscina, 'tás a ver, e à noite era cinema. Eles têm lá uma sala de cinema com aquelas merdas todas paneleiras para a gente ver... Ah pois é, 'miga...'

50%

Uma vez pus um doutor das ciências, outra vez um de números, a olhar para mim feitos parvos depois de ouvirem esta minha afirmação:

Quando jogamos temos cinquenta por cento de hipótese de ganhar.

Só há duas hipóteses, logo, das duas uma: ganhamos ou perdemos. Certo, senhores doutores?

Tenho outra história do punção

Era uma vez um senhor que se refastelava numa esplanada pequenina. A tarde estava quente mas cheia de sombras, a brisa soprava ligeira, a imperial estava no ponto. A sede e o cansaço eram quase bem-vindos com tanta coisa boa para os exterminar.
A esplanada, paredes-meias com uma das minhas montras e bem próxima do meu punção... Martelada vigorosa:
Bum!
– Porra! - Exclama o homem, assustadíssimo.
Eu, que sou curiosa e ruim, assim do nada, apeteceu-me mais uma martelada:
«Deixa lá ver se o homem salta na cadeira outra vez. Gosto tanto de fazer estas maldades...»
Mais vontade, mais pujança:
BUM!
Mais ênfase, mais cagaço, mais, muito mais:
- PORRA!
Tiro e queda, é caso para dizer. Ai o que eu gosto disto!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

...

Hoje, sim! Hoje é que eu tenho uma imagem super original, super interessante, super fantástica...

Lisboa, 29 de Junho de 2011

terça-feira, 28 de junho de 2011

Lisboa, 28 de Junho de 2011


E pronto
É assim
Hoje fartei-me de escrever
É caso para perguntar:
Alguém teve saudades?
Alguém notou a minha ausência?
O meu não-escrever?
Não respondam, caríssimos leitores
Sei que não

Não tenho fotos do dia corrente
Mas tenho de outro dia
Um dia de lazer
Já lá tão longe...
Parece que nem aconteceu
E tão presente em simultâneo
Caríssimos, até amanhã

Atenção, este é um post sexual

Tenho um cabeleireiro novo. Novo e novo. Novo para mim e novo em idade. Também tenho um penteado novo.
O cabeleireiro... Vou chamar-lhe Mimi. O Mimi, antes de me pôr as mãos e a tesoura, elogiou-me a beleza e acrescentou que me ia pôr ainda mais bela. Acreditei piamente, sobretudo na primeira afirmação, existem alguns piropos fantásticos se os 'entas' já se fizeram chegados, o que é o meu caso.

Já se percebeu, não é verdade? O título deste post é um engano.

To be continued, perhaps...

Consulta

Hoje era para ir à senhora doutora mas telefonaram-me do centro de saúde a dizer que não me querem lá, eu que continue a meter o ansiolítico no bucho se é essa a forma que encontrei para aguentar a minha vida. Quando esses miligramas não forem suficientes eu que aumente a dose, já sei como é, e junte também aquele outro, aquele em que podem escorraçar-me que eu não dou por nada, o que envolve a minha vida numa nuvem espessa e morna e faz de mim uma pessoa dormente... mas estável. Um dia mais tarde, quando já nada disto fizer efeito, eu que me dirija a uma dessas instituições onde estão alojadas as pessoas com vidas sem solução. Eu que berre até ficar afónica e estrebuche até à exaustão, aí sim, conhecerei o sofrimento atroz.

... É mentira. Eles, os do centro de saúde, querem-me lá sim senhores, telefonar-me-ão um dia desses para dizer quando. Estou desejando, quero muito ser toxico-independente.

Um cliente especial

O cliente entrou e perguntou o que era o prato do dia. Notei logo uma certa apreensão e um ligeiro tremor na voz do senhor do restaurante. Não demorei muito a confirmar os nervos do homem.

«Quer o vinho fresco, natural ou um pouco de natural e um pouco de fresco?»

«O pão está bem assim? Quer que corte às fatias fininhas?»

«Está bem assim, ou quer mais canela no arroz-doce?»

Tantos nervos porquê, quererá certamente o leitor saber. O cliente era um polícia com uns ares de mandão que só visto... Quem o servia temeria multas de mau atendimento, presumo.

De joelhos

O sô Veríssimo...
«Sabes como é que eu chamei ao sô Veríssimo no meu blogue?»
«Não.»
«Sô Veríssimo.»
Sorrisos.
«Mesmo que um dia ele saiba que escrevo num blogue, o homem vai lá querer saber como o chamo!»

Hum, agora me lembro, ia escrever dos joelhos do sô Veríssimo, daí o título do post.

O sô Veríssimo é um homem entradote que não prima pela simpatia. No entanto, ao longo dos anos tenho conseguido conquistar-lhe o coraçãozinho, e nem foi preciso dar-lhe a provar os meus doces, bastou-me ir dizendo uma coisinha aqui, outra ali.
Noutro dia apresentou-se-me, queria lâmpadas dentre outras coisas. Nas calças tinha severas marcas de lama e pó do chão.
«O sô Veríssimo andou de joelhos a lavar o chão?», perguntei eu, brincalhona.
«Foi a pagar uma promessa.», disse o meu colega, sempre muito piadolas.
O sô Veríssimo ri-se muito, chegando a ficar corado, e despacha a primeira coisa que lhe vem à cabeça.
«Não, não foi nada disso que vocês estão a pensar... Eu estive de joelhos mas não foi a fazer essas coisas!»
Conclusão: o meu colega levou a coisa para o escárnio religioso e o sô Veríssimo para um campo (eventualmente) dramático da sexualidade. E depois elas (eu) é que são perversas...

É Junho

Lisboa está em festa. As festas são mais que muitas mas findam não tarda nada. Vai ser na alameda, andam a montar tudo para a grande despedida.Convidaram-me para ir lá cantar paródias e dizer umas larachas mas recusei gentilmente, tenho mais que fazer...
As festas dos santos populares não sofrem o mesmo desdém que outras festas religiosas, o que admiro deveras. Do Natal toda a gente desdenha, toda a gente quer que passe muito rápido para não sofrer as duras hipócrisias que a época natalícia traz ao cimo. É admirável, deveras admirável.

As marteladas da minha vida

Faz parte do meu ofício martelar vigorosamente num punção:

Pum!

Grande estrondo.

Enormes cagaços, de quando em vez.

Por tal verificar é meu costume colocar as crianças e os cães no mesmo patamar por serem os grupos mais sensíveis. A cantilena é basicamente a mesma:

«Olhe, eu agora vou aqui dar uma martelada, veja lá se o cão, bebé, criança se assusta...»

Coisas da vida, pode chamar-se assim

Sabem aquela pessoa que nós fixamos por uma razão completamente desinteressante, mas mesmo não lhes vendo o mais ténue interesse, nos fartamos de bater com o olhar nela?
E acontece que por mais que façamos o nosso olhar sempre lá vai parar?
E depois vamos dar uma volta por ali, pode até ser longa e tal e voltamos a encontrar a pessoa?
Para onde quer que nos viremos, a pessoa está lá, mesmo absorta parece observar-nos, sabem como é?
Eis senão quando... invade-nos uma sensação desconfortável: mas esta maria persegue-me, ou quê?

Ah, pois é...

À despedida

«Eu já a vi muitas vezes. Agora é que eu estou a ver que já a vi muitas vezes.»

Hum, está bem. Afinal conhece-me, o bicho.

Publicamente

Uma moça de patins lavava as mãos no WC. Sorriu-me francamente. Achei tão invulgar que custei a retribuir. Depois fiquei a pensar se o grande sorriso não se deveria ao meu algo arrojado ar de espanto quando verifiquei que ela tinha um par de patins em linha calçados e se encostava graciosamente à bancada do lavatório.
Repito, agora em síntese: eu vi uma moça de patins em linha dentro de um WC público que me sorriu sem qualquer acanhamento quando lhe observei os pés sem pudor.

Duas ou três posições

Tenho um fornecedor que fala comigo da seguinte maneira:

Da última vez pediu-me três posições mas eu só trouxe (leia-se fiz, que é para isto ter graça) duas.

Hum, então vá... posicione-se, amiguxo.

Adenda

«Eu tenho pontaria com os pés», diz o rico filho. E tem, mete a bola onde quer: no espelho retrovisor de uma carrinha Hiace, no pequeno vidro de uma porta de rua, no cantinho da baliza. E talvez noutros sítios que desconheço...

Ombro... arma!

– André, a mãe tem uma 'cena de gajo'. Tenho pontaria.
Anunciei eu ao rico filho. Ele pousa em mim aquele olhar enorme e luzente (fantástico, portanto) e responde, muito sério:
– Eu tenho com os pés.

Descobri que tenho pontaria. Queria-a inata mas não sei se é.
O leitor, querendo conhecer o desenvolvimento deste tópico, leia abaixo, fazendo favor.

Quando eu era miúda o meu pai tinha uma pressão de ar. Não sei para que a queria, provavelmente queria-la para matar passarinhos ali pelo campo, ou então para pura diversão. Claro que eu e o meu irmão, quando tivemos idade, usámo-la para fazer pontaria às mais diversas coisas. Eu, sendo muito mais nova que ele, não 'brinquei' muito, nem sequer me lembro se tinha pontaria ou não, apenas tenho presente na memória a minha dificuldade em questões de alvo.
O meu olho vector é o esquerdo, ao contrário da maioria das pessoas pisco o olho direito, e só consigo apontar apoiando a 'arma' no ombro esquerdo e colocando a mão esquerda no gatilho. Ora acontece que as minhas mãos não têm nada de esquerdino, com a 'arma' a jeito, pronta a disparar, sinto-me como que coxa, cambaleante, o que me aborreceu desde que peguei pela primeira vez na pressão de ar do meu pai com o intuito de dar uma chumbada e rapidamente me fez desistir destas lides.
Há bem pouco tempo tive oportunidade de 'brincar' novamente com tiros e afins. Esqueci o mau jeito e os desajustes e... bum! E não é que em três disparos acertei em cheio em dois?! Eh pá, ficou tudo maluco com a minha prestação...
Tenho aquela empolgação do alvo, sei que tenho, não sei se é uma 'cena de gajo' mas isso pouco importa, afinal de contas tenho os genes de um homem, o meu pai.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sem isto e aquilo

Lisboa, 27 de Junho de 2011
Sim
Acho que sim
Acho mesmo
Não tenho assunto
As coisas acontecem
E não as sei escrever
Pululam
E eu sem norte
Às vezes acontece
Calha assim
Estou farta do meu pensar
Tenho de criar umas certas saudades
O dia chegará
Não me calarei
Não vou conseguir calar-me
Não quero conseguir
O escrever dá jeito
Sempre desperto
Sei como é
Tomara já esse despertar